27/08/2010

Eppy

Judeu. Homossexual. Pomposo. Gênio.

Esse foi o cara que botou ordem nos quatro garotos arruaceiros de Liverpool. O cara que tinha pavor de rock'n'roll, mas um instinto inegável em farejar talentos. O cara que botou fé naqueles guris e abriu portas, janelas e portões de Liverpool para o resto do mundo.

Em 27 de agosto de 1967, morria aos 32 anos Brian Samuel Epstein, empresário e considerado por muitos o quinto Beatle.





A maneira como a sua vida e a dos Beatles se cruzaram foi no mínimo engraçada. Brian cuidava de uma das lojas de discos que foi de seu pai, a famosa NEMS — desde muito novo tinha tino pros negócios. A responsabilidade também foi uma maneira de seus pais o "ajustarem". Brian já havia assumido a eles sua homossexualidade e suas pretensões de ser ator. A escola de atores foi uma decepção, e o serviço militar não surtiu o efeito desejado pelos pais (até acarretando alguns "problemas" indesejados), restando então dar a ele parte dos negócios da família.

A essas alturas (1961), os Beatles já haviam ido e voltado de Hamburgo, trazendo uma certa "fama" com eles. Haviam gravado um compacto com Tony Sheridan e todos na cidade queriam comprar o disco da "bandinha daqui que esteve na Alemanha", mas Brian não tinha o disco em sua loja. Como bom amante de Jazz, achava o Rock vulgar, música de ralé.

Acontece que a curiosidade sempre tenta. Regularmente deixavam em sua loja exemplares do fanzine local, Mersey Beat, que falava sobre o cenário musical da cidade. Os Beatles estavam na capa da segunda edição, com suas jaquetas de couro e o corte de cabelo da moda em Hamburgo. Epstein cedeu. Decidiu que iria vê-los tocar no Cavern uma noite.

E foi. Acompanhado de seu amigo e assistente Alistair Taylor, em uma noite de novembro de 1961 entraram no pequeno e abafadíssimo clube Cavern. Brian ficou absolutamente horrorizado com o ambiente - ele com seu terno impecável perdido no meio de tanta gente barulhenta e "mal vestida". Mas aí os Beatles começaram seu show, e então ele ficou maravilhado. Apesar da música barulhenta, ele viu charme e talento naqueles rapazes tão jovens. As garotas gritavam, os garotos vestiam-se como eles, e a música vendia. Brian viu nos quatro jovens um futuro de sucesso, e a solução dos seus problemas.

Após a apresentação, Brian foi com Taylor ao camarim falar com os rapazes. George Harrison admitiu mais tarde que eles ficaram apavorados ao vê-lo ali - os quatro garotos conheciam bem o Sr. Epstein: era o dono da loja de onde roubavam seus discos favoritos. Todos ficaram bem constrangidos, mas Brian os cumprimentou pelo show e saiu rapidamente. Mais tarde, ao conversar com seu amigo, perguntou o que ele tinha achado da banda, ao que Alistair respondeu que a achou "simplesmente horrível". Então Brian disse que gostou deles e que estava pensando em empresariá-los.

Entrou em contato com eles dias depois para perguntar se eles já tinham um empresário e se não gostariam de ser empresariados por ele. Como eram quase todos menores de idade, teriam que pedir permissão aos seus responsáveis; com exceção de John Lennon, que tinha acabado de fazer 21 e podia ignorar os conselhos de sua tia, que não havia permitido. Assinaram então um contrato de 5 anos com Brian Epstein, que acabara de fundar seu NEMS Enterprises, que, além de lançar os Beatles, cuidou de algumas outras bandas de Liverpool que não tiveram nem um terço tanto sucesso quanto eles.

Porém, haviam as cláusulas do contrato, e aqui eu acho que entra a parte engraçada da história. A primeira coisa que Brian os obrigou a fazer foi trocar seus jeans e couro por terno e gravata. Depois, parar de interromper as músicas pra atender pedidos do público. E, não menos importante, parar de fumar, beber, comer, conversar, xingar, dormir no palco. Esses garotos indubitavelmente tinham talento, mas não tinham disciplina alguma. E, pra fechar com chave de ouro, ao final de cada música, deveriam se curvar ao público como forma de agradecimento.


Brian remodelou os Beatles. Deu a eles o visual e comportamento no palco que conhecemos. Paul  McCartney gostou das mudanças, achou que assim realmente seria mais fácil agradar também às famílias do seu público. John Lennon odiou, nunca gostou de ninguém mandando nele. Mas aceitou. E admitamos: não importa quanto talento você tenha. Se você não tem disciplina...

Daí pra frente foi de vento em popa. Epstein conseguiu gravadora, apresentações na TV, shows internacionais e muitos inúmeros etcéteras. Foi padrinho do casamento de John e Cynthia e padrinho de batismo de Julian Lennon, e os ajudava financeiramente quando precisavam. Apesar de ser apenas 6 anos mais velho que John, era como um pai pra ele. Infelizmente, Brian também tinha seus demônios. Sua homossexualidade não foi tornada pública, embora os quatro Beatles soubessem mas "não ligassem". Houve um boato de que ele e John tiveram um "relacionamento" durante uma viagem de férias à Espanha, coisa que nunca foi confirmada ou desmentida por nenhuma das partes. Cynthia diz que Brian sempre foi meio apaixonado por John. Afora isso, Brian sempre se envolvia com as pessoas erradas. Arrumava uns namorados ladrões e violentos, vivia apanhando e sendo roubado, sendo ameaçado e extorquido. Como se não bastasse, Brian também era viciado em preludin, que na época era legal na Inglaterra. Tomava os estimulantes constantemente, com a desculpa de que era pra aguentar o ritmo das turnês, mas a coisa estava fora de controle. Depois veio a maconha. E então o jogo. Brian perdeu quantias exorbitantes de dinheiro em cassinos.

E então, em 1967, enquanto os Beatles estavam em seu momento espiritual zen na Índia, chega a má notícia: Brian Epstein foi encontrado morto em sua casa. Overdose de pílulas pra dormir. Alegaram morte acidental, mas a verdade é que não havia sido a primeira vez que tentava se matar. Brian vinha sendo constantemente ameaçado por um "ex-namorado" e isso estava influenciando em seus vícios e consequente saúde debilitada e insônia.

E foi neste ponto que a história defende que os Beatles acabaram. Esqueçam Yoko Ono, Let It Be, Show no Telhado. Sem Brian Epstein, aqueles quatro rapazes ricos, famosos, talentosos e indisciplinados não tinham como seguir em frente. As finanças sofreram rombos incalculáveis, eles não entendiam nada daquilo e muito menos conseguiram arrumar quem substituísse a mente brilhante de Brian Epstein. A partir de sua morte, os outros tomaram todas as decisões erradas.


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FONTE: SPITZ, Bob. The Beatles, a biografia.