03/09/2010

3 de Setembro, Dia do Biólogo.

Ano passado eu fiz um post especial pros meus colegas de pseudo profissão, explicando a origem do dia e a nossa importância no mundo (me achei). Porém, todos aqui sabem que sou uma desertora. Mas nem por isso me sinto menos no direito de comemorar o dia — eu estudei, tenho o meu diploma e carrego comigo tudo o que aprendi nos últimos anos, mesmo não ganhando nada por isso.

Gostaria de fazer o post deste ano desabafando um pouco. Sintam-se à vontade para ignorar essa parte ou seguir em frente.



Não é segredo pra ninguém que acabei cursando Biologia por, praticamente, falta de opção. Meu sonho desde que me conheço por gente era ser escritora, mas, perto da hora de decidir meu futuro, algumas pessoas aparentemente entendidas no assunto tiraram essa ideia da minha cabeça e me aconselharam a procurar algo que desse dinheiro. 17 anos, desesperada com a pressão, vestibular a 4 meses, o que fazer? Escolher a matéria favorita da escola que não fosse Português ou Inglês. Ciências e Biologia. Legal, tem Biologia na cidade. Se inscreve, presta o vestibular, passa em terceiro lugar (tendo estudado só História, eu sou um mito, haha), faz 4 anos de faculdade e se forma sem ter reprovado em nem uma única matéria. Legal, e cadê o dinheiro?

A Ciência é uma carreira tanto apaixonante quanto frustrante. Apesar de nunca ter sido um sonho meu ser uma bióloga, eu sou apaixonada, sim, pela minha formação, mesmo que não atue nela. Nesses anos de faculdade eu aprendi muito mais do que foi ensinado em sala de aula. Passei a ver a vida como algo muito mais complexo do que a julgamos, e por isso muito mais bela e muito mais digna de respeito. Não falo apenas da vida humana, mas de toda forma de vida. Sei que não aconteceu só comigo, mas desde então não consigo ao menos matar um inseto sem que seja caso de vida ou morte. E a frustração da profissão entra aí, porque, infelizmente, eu percebo que esse respeito só vem de quem teve um contato melhor com o estudo da Vida.

Toquei no assunto porque ainda essa semana eu passei por três experiências de barbarismo contra animais (no mesmo dia, diga-se de passagem), e me senti ao mesmo tempo tão triste quanto impotente. De que me adiantou estudar tanto, me apaixonar pela carreira que escolhi e não poder fazer nada? Todos aqui sabem os motivos pelos quais não continuei estudando na área e porque não trabalho nela também, e embora eu me chame de "desertora" por ter escolhido um outro caminho, ele também foi em decorrência da falta de opção! O Jornalismo vai me levar (assim eu espero) por aquele caminho que eu quis desde o começo, de ser escritora. Mas eu sinceramente não sei por quanto tempo mais vou conseguir ignorar meus pensamentos que insistem em me dizer, sempre que vejo coisas como vi essa semana, "Emmanuella, você DEVIA fazer algo, você fez o juramento na sua formatura". E embora seja tudo muito bonito, meu realismo sabe que isso não passa de utopia. Eu não posso fazer nada. Eu sozinha não vou impedir os motoristas de atropelarem de propósito os animais de rua porque por algum motivo eles acham que esses bichos merecem morrer. Eu sozinha não vou convencer as pessoas de que não é normal afogar filhotes porque ninguém os quer. Eu sozinha não vou fazer ninguém entender que não é engraçado ver animais mutilados lutando pela vida, nem que touradas ou rodeios não são divertidos. Eu me tornando vegetariana não vai impedir que as vacas sejam fatiadas vivas e conscientes. E nem que eu me junte ao Greenpeace pra enfiar meu barquinho na frente ao um baleeiro, isso também não vai convencê-los a parar de matar baleias, e nem que a gente vá com nossas plaquinhas pra Noruega, eles também não vão parar com a "prática esportiva" de dilacerar focas. Abraçar as árvores não vai impedir ninguém de desmatar ou queimar nada, com a gente junto ainda.

Nenhum biólogo nem um grupo de biólogos ou todos os biólogos do mundo juntos conseguirão mudar o pensamento dessas 6 bilhões e trocentas tantas pessoas. E embora eu saiba que a gente deve, sim, tentar ser a mudança que queremos ver, saber quantas pessoas morreram sem conseguir não anima viv'alma. Por isso eu digo que é frustrante. Às vezes eu penso que seria realmente muito melhor nunca ter sabido de nada disso e levar a vida como a maioria das pessoas que conhecemos leva. Sendo apática a todas essas atrocidades que acontecem debaixo do meu nariz e achando graça no sofrimento desses "seres inferiores".

Mas eu não consigo, e sei que por mais que isso me deixe doente e furiosa e completamente frustrada, me recuso a pensar de outra maneira. Eu só realmente queria que houvesse uma revolução coletiva, que muitas, mas muitas pessoas mesmo, se revoltassem contra tudo isso e todos juntos fizéssemos algo acontecer. Mas a gente não luta nem pelos nossos próprios direitos, quem dirá pelos direitos dos pobres bichos. Tá tudo tão errado.

Enfim. Eu espero que seguindo esse outro caminho da vida eu consiga fazer algo. Se eu um dia tiver a felicidade de poder atingir a um público de número considerável e puder usar essa influência e unir a ela a minha alma de bióloga, quem sabe dá pra começar algo. Acho que será a minha missão nessa Terra tão negligente, ou pelo menos um objetivo que procurarei alcançar.

Feito o desabafo, feliz dia a todos nós que vemos além. Obrigada pra quem leu até aqui.

5 comentários:

  1. Ahhh, você tá no caminho certo sim! Tanto pra ser escritora - aliás, tinha um professor meu que dizia que escritor é quem escreve e não quem publica, então, né... -, quanto pra poder, de fato, cumprir o juramento que fez na sua formatura da biologia.

    A comunicação social, na qual está nosso querido (ou não) jornalismo, pode ser o instrumento mais eficiente e abrangente pra mudar esse tal desse mundão aí. Daí pode ser que eu tenha uma visão muito idealizada de tudo isso, mas se eu não acreditasse que é possível mudar a sociedade com o que eu tô fazendo ou com o que eu quero fazer acho que nem tava mais aí vivendo e tal.

    Enfim, talvez minha opinião não conte muito, mas o seu texto é muito bom, escritora você já é e, com certeza, vai conseguir mudar o pensamento de muuuita gente por aí mais além. Uhul.

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  2. Acho que todos que se preocupam com o rumo atual das coisas, em alguma momento tem este sentimento de impotência. Acredito que o que resta, é no final ter a consciência tranquila de que fez o seu máximo para que as coisas mudassem.

    Como disse e já disseram aqui, nessa profissão vc passa a ser uma formadora de opiniões (seja em menor ou maior escala), e seus conhecimentos em Biologia serão importantes nessa influência.

    Enfim, é difícil dar opinião nesses assuntos, mas torço pelo seu sucesso. =)

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  3. Bom, parabéns primeiro! Por ser bióloga, (pq vc é!) e pelo texto inspirador!

    Olha, não sei se podemos fazer diferença, mas vc não está só! Rejeito qqr tipo de barbárie contra qqr ser vivente, não mato nem formigas por saber o quanto são importantes na cadeia e acho absurdo o modo como as plantas são tratadas!

    Vc já está alcançando algumas pessoas e onde eu puder ajudar, vou espalhar essa semente por aí!

    Vc não está só! Tbm quero acreditar num mundo melhor! =D

    Bjoooo ilustre! ;D

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  4. Legal esse desabafo, Manu. Mitou!

    E que bom que você tem a oportunidade de tentar outro caminho, espero que se dê bem nele.

    Em todo caso, feliz Dia do Biólogo! Bjs.

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  5. Em tempo, talvez o jornalismo lhe forneça mais ferramentas para lutar por tudo isso em que você acredita do que a biologia.

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Bom senso, respeito e educação são esperados e sempre bem-vindos nos comentários. Obrigada pela visita!