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Caminhando com zumbis

E não é que meus coleguinhas estão em alta?

Com todo o sucesso que a série baseada na HQ The Walking Dead está fazendo, há quem diga que os zumbis logo serão o que os vampiros são hoje: monstros da moda. Embora eu ainda ache difícil alguém querer escrever um romance zumbinesco, visto que necrofilia não é lá muito pop. Enfim.

Como grande simpatizante dos mortos-vivos que sou, hoje vou contar pra vocês algo sobre essa galera apreciadora de uma boa massa... cinzenta.


Depois de clicar aqui, ó:


Vejamos, o que realmente sabemos sobre zumbis?

  1. São humanos que morreram e de alguma forma voltaram. Ok.
  2. São lentos e burros, não têm nenhum reflexo e parece que não pensam. Confere.
  3. Têm muita, muita fome por cérebros...

Hm, não exatamente. Zumbis famintos por cérebros foram criação do cinema, a partir do tão popular "A Noite dos Mortos-Vivos", de George Romero (1968).

Mas, peraí Manu, você então tá dizendo que nem todos os zumbis foram criações do cinema?

É, foi o que eu quis dizer.

Muito, vejam bem, muito antes de George Romero assustar a sua geração e as seguintes com mortos que voltam a viver querendo comer os cérebros das pessoas, já haviam alguns zumbis passeando por aí, alguns assustando as pessoas, e outros... bom, trabalhando no campo.

Mas hein?

Bokor, prazer.

A tradição de "invocar zumbis" apareceu na África e foi levada ao Haiti por escravos, nos séculos XVII e XVIII (17 e 18, pra quem não manja). Este tipo de ritual faz parte do vodu, e quem o executa é chamado de bokor, um feiticeiro que usa de magia com intenções ruins. As intenções de um bokor para invocar um zumbi podem ser várias, mas geralmente ele usa zumbis como escravos — criados ou trabalhadores do campo. Alguns bokors mais perversos, porém, preferiam usar os seus zumbis para coisas mais feias, como destruir a propriedade de inimigos ou até mesmo cometer assassinatos por ele. E tem ainda outros bokors que acreditam que, ao invocar um zumbi, podem aprisionar a alma do falecido e a) usá-la para incrementar os seus poderes de bokor, b) vendê-la engarrafada para outras pessoas, dizendo que traria sorte, cura para doenças ou sucesso nos negócios.





Mas como um bokor invoca um zumbi?

Sou zumbi, mas ainda to vivo.
Hm, não sei se vou ensinar isso pra vocês... Brincadeira. Dizem que eles podiam fazer um zumbi a partir de um cadáver ou mesmo de uma pessoa vivinha da silva. No último caso, uma pessoa se transformaria em zumbi através da introdução de dois tipos de pó em sua corrente sanguínea: um deles contém uma certa neurotoxina, fortíssima e geralmente fatal (encontrada na carne do baiacu), chamada tetrodoxina. O outro pó é uma droga dissociativa (que causa inconsciência) derivada das plantas do gênero datura. Estes dois pós combinados levam a pessoa a um estado de semi-morte, em que ela não mais está consciente de seus atos e obedece a ordens de outros — no caso, do bokor. São sintomas desta intoxicação também uma paralisia muscular e do diafragma, o que explica o andar peculiar e a respiração e gemidos típicos dos zumbis, como os conhecemos. Outros estudos relatam variações no ritual, em que o bokor dá uma certa poção à sua vítima, fazendo com que ela entre em coma. Sua família a enterra, pensando que está morta, e então o bokor a desenterra logo em seguida. Dá, então, uma segunda poção, que faz a vítima falar, andar e respirar novamente, porém ainda num estado inconsciente que a deixa sob o controle do bokor.

No caso dos que já morreram...

A tal garrafa com alma de zumbi.
Não pode ser qualquer morto. Tem que ser um morto calouro. Segundo a crença vodu, a alma permanece no corpo ainda por um curto período de tempo após a morte. Então, o bokor se apossa da alma e realiza um tipo de feitiço para que o corpo volte a funcionar. Os métodos nunca foram descobertos, mas a prática é crime no Haiti. Pela lei, a "criação de zumbis" é considerada assassinato, e o ofensor é sujeito às mesmas penas de qualquer outro tipo de homicídio.

Puxa, isso tudo é realmente legal, mas o que eu faço se encontrar um zumbi na minha frente?!

Se livrar de um zumbi não é lá muito fácil. O fato deles serem lentos e burros faz parecer fácil nos filmes, mas a verdade é que, se um zumbi for muito bem feito por um bokor, ele será exatamente igual a um ser humano e obedecerá às ordens do seu criador rapidamente. Mas, tem uma boa notícia: apenas os zumbis do cinema exigem um tiro no meio da testa. Nós, pobres mortais desarmados, podemos nos livrar de um zumbi simplesmente jogando sal nele. Dizem que isso basta pra que ele volte para o seu túmulo (ou voltar à sua forma humana normal, no caso das vítimas vivas). Para os religiosos, rezar também ajuda. Diz a lenda que Ghede, o deus haitiano dos mortos, repudia os zumbis e pode ser persuadido a lhes devolver a alma. Se nada disso funcionar, tem outro jeito: matar o bokor que o criou.



Hoje em dia, o mito em torno dos zumbis se tornou menos um aspecto religioso e mais um problema de natureza científica. Se antigamente se acreditava em zumbis surgindo de rituais e rezas brabas, hoje os zumbis são resultado de algum desastre de natureza virótica vinda de alguma pesquisa mal intencionada do governo americano em busca de armas biológicas. O fato é que há muitos anos não se tem mais notícias de zumbis andando pelo Haiti, o que na verdade não tira completamente o medo do povo. Algumas famílias mais tradicionais ainda enterram os seus mortos com facas, para que ele ataque um possível bokor querendo usar o seu corpo.

E não pensem que este post acabou aqui. No próximo, trarei uma história real perturbadora. De verdade.

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Ah, sim. A nível de curiosidade:

  • A palavra zumbi vem do Kikongo (língua africana) nzambi, que significa, pasmem... "deus".

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FONTES: 1 | "O Manual do Bruxo", de Allan Zola Kronzek e Elizabeth Kronzek (2003)

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