27/01/2011

O Oráculo de Trofônio

Não vou falar sobre isso só porque Trofônio é um nome sexy, mas principalmente porque li a respeito há uns dias e achei muito interessante.


Oráculos são lugares para onde algumas pessoas iam (ainda vão, especialmente na Grécia) para conseguir respostas ou inspirações sobre o futuro, supostamente dadas pelas divindades consultadas. O mais conhecido deles certamente é o de Apolo, em Delfos. Hoje sabe-se que em tais lugares ocorrem determinados fenômenos naturais que explicariam as "manifestações divinas" responsáveis pelas alucinações dos que visitam os oráculos, mas não se pode negar a importância cultural que tais ocorrências deixaram.

Trofônio e seu irmão, Agamedes, eram arquitetos que construíram importantes monumentos gregos, como o templo de Apolo em Delfos, além da sala do tesouro do então rei Irieu. Mas os dois, apesar de notáveis profissionais, também eram notáveis ladrões. Na parede desta tesouraria, colocaram uma pedra solta que poderia ser retirada e assim, de tempos em tempos, poderiam ir roubando o tesouro lá guardado. Um dia, o rei Irieu ficou intrigado com o fato do seu tesouro estar diminuindo, apesar de todas as trancas estarem intactas, e armou uma cilada para pegar o ladrão. E Agamedes caiu na armadilha.

Segundo o que conta a história, Trofônio não teve como livrar o irmão e temeu que este o delatasse como cúmplice, em sessões de tortura. Então resolveu ser melhor cortar-lhe a cabeça (nota da editora: nunca mais reclame do seu irmão). Outra versão da lenda diz que Trofônio assim o fez para que não soubessem de quem era o corpo que encontrariam na armadilha. De qualquer modo, após isto, Trofônio fugiu e refugiou-se em uma caverna, para nunca mais ser encontrado (alternativamente, diz-se que a terra se abriu e o engoliu).

O local nunca foi encontrado, até que uma seca terrível se abateu sobre Lebadeia, na Beócia. Os beócios procuraram o oráculo de Delfos e pediram por ajuda, tendo sido advertidos que encontrassem o esconderijo de Trofônio, que estaria se "redimindo" de sua culpa atuando como oráculo a quem o procurasse. Muitas buscas foram feitas em vão, até que alguém notou um enxame de abelhas que se dirigia a uma fenda no chão, e resolveu seguir o sinal, encontrando assim o local procurado.

Tal fenda ficou então conhecida como o Oráculo de Trofônio, e, antes de consultá-lo, a pessoa deveria passar por um ritual peculiar, que incluía beber a água de dois rios que por ali passavam e oferecer sacrifícios a muitos deuses (descrito com detalhes aqui; o local é ponto turístico e até hoje pessoas do mundo inteiro vão até lá). Depois de feitos os preparativos, a pessoa entra na fenda estreita, o que só pode ser feito à noite. Ao terminar a consulta, a pessoa deveria sair de lá pelo mesmo caminho, mas andando de costas. Tais rituais eram tão cansativos e desgastantes que todos que de lá saíam se mostravam melancólicos e abatidos (reza a lenda que quem consulta o Oráculo de Trofônio "nunca mais encontra a felicidade"). Por conta desta lenda, surgiu uma expressão muito usada na Grécia: quando se encontra uma pessoa triste ou desanimada, diz-se que ela "esteve consultando o Oráculo de Trofônio".

.

FONTE: além do link já citado, também O Livro de Ouro da Mitologia, de Thomas Bulfinch (Ediouro, 2002).