07/04/2011

Mitos comuns sobre os Beatles, desmitificados.

Tentarei ser o mais coerente possível neste post altamente explicativo, e espero boa-vontade de quem lê. Esta postagem será mais um esclarecimento sobre ideias pré-concebidas que muitos de vocês têm sobre a maior banda de rock de todos os tempos. APOSTO como já torceram o nariz aqui, mas vou explicar isso também.



E, repetindo o que eu sempre digo: a intenção não é fazer ninguém GOSTAR, nem virar FÃ, mas CONHECER antes de falar. O que esses quatro fizeram nunca foi repetido por ninguém, por menos que vocês gostem disso.


1. Os Beatles não nasceram em berço de ouro

Nenhum deles sequer veio de uma família com dinheiro. Dos quatro, quem teve uma infância e adolescência um pouco mais fácil, por incrível que pareça, foi John Lennon. Isso porque foi criado pelos tios, e eles tinham uma condição financeira estável. Paul McCartney morava literalmente em um morro; sua mãe era enfermeira e ia trabalhar de bicicleta, e trabalhou até finalmente morrer por conta de um câncer no estômago. O pai de Paul trabalhava na indústria de algodão, que era a única coisa que movia o comércio de Liverpool, na época, por ser uma cidade portuária. A família de George Harrison sempre passou por dificuldades - o pai era da Marinha Mercante, até estourar a Segunda Guerra, então acabou se tornando motorista de ônibus. A mãe de George era acendedora de lampiões (sim, os postes não acendiam sozinhos, naquela época!); e o próprio George trabalhava como entregador de um açougue. Já a família do Ringo... Essa sim veio de um ambiente miserável. Ringo morava com a mãe e o padrasto (seu pai abandonou a família e ele nunca o conheceu) em uma espécie de "favela" em Liverpool, que servia de lar para todas as pessoas desempregadas. Era um ambiente superpopulado e infestado de doenças, que invariavelmente abateram o franzino Richard, que sempre foi muito fraco. (Ringão rende um post só pra ele, farei um dia!)

"mais sorte na próxima, galera"


Mesmo depois de todo o sucesso que os Beatles estavam fazendo e com todo o monte de dinheiro que eles ganhar- OPA, monte de dinheiro? Eles estavam, sim, fazendo muito dinheiro, mas... nem tanto ganhando. Devido a um acordo malfeito com uma empresa americana, a banda lucrava apenas 10% das vendas de produtos com o nome deles (bonecos, lancheiras, perucas e trocentas outras bizarrices). Das vendas dos discos, 95% era convertido em impostos para a Rainha. Do que restava para eles, tudo ficava trancafiado no banco aos cuidados do empresário Brian Epstein, e eles só poderiam retirar o que fosse necessário para as suas aquisições. Lógico que, quando Epstein morreu repentinamente, eles ficaram em posse do dinheiro, e aplicaram tudo muito mal; de forma que, quando a banda acabou, saíram todos sem um centavo no bolso.

2. Os Beatles não eram "caretas"

Aquela imagem que temos da época da beatlemania, dos rapazes sorridentes de terninho, foi uma estratégia de marketing do empresário Brian Epstein para que a banda conquistasse também os pais dos jovens fãs da banda. Por quê? Porque os quatro eram terrivelmente indisciplinados, e foram amplamente considerados como "um mau exemplo para a juventude". Os cabelos eram "muito longos", as letras das músicas eram "escandalosas" e John Lennon era terrivelmente sarcástico em público. Além de ferir todo o moralismo inglês da época, os quatro bebiam, fumavam demais e usavam, sim, todas as drogas que apareciam em seu caminho. Começando pelas anfetaminas que eram obrigados a usar em Hamburgo (quando precisavam tocar por 7 horas seguidas, todas as noites), passando pela maconha apresentada por Bob Dylan, e então o LSD (introduzido sem que eles soubessem por um dentista que quis fazer "uma brincadeira"), eles descobriram que estas substâncias na verdade os ajudavam a ser mais criativos, e as usavam sem pudor. E mais: os quatro raramente dispensavam groupies (inclusive John, que já era casado).

Seu inseparável Preludin. Pete Best à esquerda, primeiro baterista da banda.


3. Os Beatles foram, sim, uma banda de rock

Se o que você ouve nos Beatles não tem nada a ver com o rock que você conhece atualmente, significa que o rock de hoje em dia não tem mais a ver com o que era, há 50 anos atrás. Todas as bandas atuais se inspiraram em bandas mais antigas que elas, e elas invariavelmente se inspiraram nos Beatles. Na época, o rock era predominantemente americano, liderado por Elvis Presley. Do outro lado do oceano não havia nada tão ousado. Os Beatles foram os primeiros a se inspirar no rock americano que ouviam no rádio (a muito custo) e dos discos que roubavam e montar sua própria banda, na Inglaterra. Antes de começarem as fazer suas próprias composições, a banda tocava covers dos artistas americanos: Elvis Presley, Chuck Berry, Gene Vincent. Eles usavam topetes e vestiam couro, e sua performance era explosiva. Tudo isso foi remodelado para o padrão "educado" pelo empresário, anos mais tarde, como forma de "chocar menos" e "vender mais" (visual que eles sempre odiaram, aliás).

Hamburgo, Alemanha - 1961


4. As baladas até podiam ser "músicas bobas" e as músicas até podiam parecer "todas iguais", mas não foi por falta de talento

As primeiras músicas, principalmente, soam bastante parecidas porque este era o padrão do rock da época: os três mesmos acordes, com pequenas variações. Todas as bandas de rock faziam assim, até surgir a época da psicodelia (e depois o padrão foi trazido de volta pelo movimento punk, que um dia vou explicar também). Quanto às baladas, cantar sobre um amor não-correspondido sempre rendeu pano pra manga, e esta era uma temática muito comum da época. A maior parte dos rocks da época levam o nome de uma mulher. Isso é porque, na época, a música em geral falava sobre o amor, a tristeza, a felicidade, a frustração pessoal. Cantar sobre o governo, a sociedade e todo tipo de descontentamento filosófico só se tornou popular na década de 70 (embora já houvesse quem fizesse isso, no folk americano ou no ska e o reggae, mas estes estilos não eram comerciais até então). Os Beatles começaram a variar sua temática com o passar dos anos, que se tornou bastante pessoal e cheia de apologias à drogas, fobias, desejos ou mensagens positivas.



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Espero que eu tenha conseguido esclarecer alguns pontos e tirar da cabeça de alguns estes preconceitos (palavra genialmente definida como "opinião sem conhecimento") a respeito da banda. Os Beatles não foram só mais uma banda, eles foram a primeira banda. Nenhuma outra banda conseguiu o que eles conseguiram e com certeza não conseguiu tantos fãs, curiosos e pesquisadores sobre sua história quanto eles. "Ah, mas existem tantas outras bandas da época melhores do que eles e não receberam tanta atenção". Uma banda ser "melhor" que a outra é mais uma questão de gosto do que de fato. Por que as tais "bandas melhores" não recebem metade dessa atenção? Uma banda não é feita apenas de boas músicas. É feita também pela interação entre seus membros e deles com o seu público. Os Beatles foram quatro rapazes muito diferentes que trabalharam por mais de dez anos em perfeita harmonia criativa, mesmo quando já se odiavam. Eles nunca tiveram medo de inovar e inventar tendências, e deixaram muita gente louca pra conseguirem o que queriam. Coisas assim contribuem para mitificar uma simples banda de rock.

Pretendo fazer outro post, mais pra frente, citando alguns motivos muito especiais para a história do Rock pelos quais os Beatles merecem um mínimo de respeito de quem não curte.

Que venham os haters, agora.


p.s.: Me controlei pra não dar o título: "Comentários cretinos sobre os Beatles que já cansei de ouvir".