05/09/2011

Sobre Punks e Skinheads

Fiquei sabendo ontem pela internet, e hoje cedo pelo jornal, sobre uma briga babaca entre "punks" e "skinheads" antes do show da banda Cock Sparrer, em São Paulo, neste fim de semana, que resultou em uma morte.

Prato cheio pra mídia sensacionalista, povão ouve falar e fica todo cheio de medinho: "Ai meu Deus, esses Punks são tão violentos mimimi Skinheads racistas nojentos socorro". Gente. Perae. Deixa eu explicar uma coisa.

Essa briga babaca entre Punks e Skinheads já data desde os anos 70. Pra vocês entenderem melhor porque isso acontece, vou dar uma aulinha de história bem rápida ("Ah, mas o que eu tenho a ver com isso?". Muito, se é um desses ignorantes que generalizam tudo o que veem na televisão).

Os Skinheads apareceram primeiro, lá pro final da década de 60, na Inglaterra. Originalmente, eles eram caras brancos que curtiam a música negra e gostavam de frequentar os mesmos lugares que seus amigos, imigrantes jamaicanos. Se orgulhavam da sua origem proletária, bebiam cerveja e adoravam futebol, e também gostavam de andar sempre bem vestidos, com o que podiam comprar. Os Punks surgiram na década seguinte, mas nos Estados Unidos. A intenção inicial do Movimento Punk era trazer de volta a atitude rocker dos anos 50, e nada mais do que isso. A década de 60 tinha se perdido em psicodelia e experimentação, então os Punks estavam lutando em trazer a simplicidade e descomplicação da música dos anos 50 de volta. Nesse meio tempo, desenvolveram toda uma identidade visual que se tornou característica, e a única intenção do visual chocante dos Punks era chamar a atenção.

Porém, logo o Punk foi para a Inglaterra, e foi aí que o movimento tomou outra direção. O que foi criado para trazer à tona a música que eles tanto gostavam se deparou com a triste realidade da Inglaterra, na década de 60: A política estava um caos, o povo não tinha dinheiro, muita gente passava fome e se via obrigada a roubar para sobreviver. A juventude não tinha futuro e estava largada na sarjeta. Então as músicas despreocupadas dos Ramones não se encaixavam com o que os jovens queriam ouvir, e foi nisso que os ingleses criaram os seus próprios Punks: surgiram bandas como o The Clash, cuspindo na cara das autoridades e falando tudo o que estava entalado na garganta daquelas pessoas. Não que essa super safra de bandas politizadas tenha ajudado em algo. Apanharam, foram presos, reprimidos, ou simplesmente ignorados, mas se uniram e deram uma nova estima à "geração sem futuro".

A essas alturas, o movimento Skinhead já andava meio fora de moda, mas alguns skins remanescentes gostaram dessa ideia do Punk e se uniram a eles. Mas alguns skins mais tradicionais desprezavam o Punk, e foi aí que a briga começou, sabem por quê?

Porque os Punks usavam as mesmas roupas que os Skinheads!

Percebem agora por que eu digo que essa briga é babaca? O desentendimento tradicional entre esses dois grupos de jovens nada tinha a ver com visão política ou ideológica, e nem mesmo por preferência musical. Eles brigavam porque os punks gostavam de usar alfinetes e rasgar as roupas que os skins tanto tinham orgulho de vestir!

Foi nesse contexto que surgiu, no fim dos anos 70, uma galera que percebeu que tanto Punks quanto Skinheads eram farinha do mesmo saco. Tava todo mundo pobre, sem emprego, passando fome e de saco cheio da política local. Skins e Punks se uniram e daí surgiu o Oi!, uma saudação bem normal entre os jovens da época e local, denominando uma comunidade amigável entre as duas tribos. Entre as bandas do estilo está o próprio Cock Sparrer.

Com isso, o movimento Skinhead ganhou uma nova força e voltou a chamar a atenção. Infelizmente, chamou a atenção para o lado errado também. Todos sabemos que, quando uma grande massa se envolve com política, a tendência é dar confusão, e foi isso o que aconteceu. Era época de eleições, e um certo candidato da National Front (a National Front era um partido de extrema-direita, o que a gente conhece por fascista) usou a imagem do jovem moderno para disseminar a sua visão política. Colocaram na cabeça da população que a Inglaterra deveria "se livrar" de todos os imigrantes para que voltasse a ser um "país limpo". Como era de se esperar, alguns jovens cabeças-de-bagre acharam a ideia bem legal e se subdividiram em um grupo chamado White Power ("Poder Branco"), que, gosto sempre de ressaltar, NÃO É SKINHEAD, visto que negaram a origem multirracial do movimento e foram banidos pelos demais. Embora tivessem grande repercussão, eram minoria absoluta; mas seu surgimento foi o suficiente para unir Punks e Skinheads tradicionais em um festival de música batizado "Rock Against Racism", que buscava convencer os jovens de que aquela visão sobre a sociedade estava errada. O festival contou com muitas bandas e teve repercussão mundial. Geralmente Punks não se envolvem com política, preferindo uma visão anárquica (que nada tem a ver com bagunça!), mas alguns tendem à Esquerda, que é mais liberal e igualitária, o que é compartilhado pela maior parte dos Skinheads.



Mas isso foram os anos 1970. Estamos em 2011. BEM LONGE DA INGLATERRA. E tem gente que ainda briga e chega ao ponto de se matar por motivos que não entendem! Galera que quer ser Punk ou Skinhead hoje em dia tem que fazer a lição de casa. A violência gratuita não é a atitude esperada, seja de que tribo for. Punks e Skins superaram suas diferenças há décadas, e é sabido que ambos os movimentos surgiram em prol da música. Sair espancando negros, orientais ou homossexuais nunca fez parte da cartilha. Se você é contra qualquer uma dessas pessoas, classifique-se como racista ou homofóbico, mas não aja em nome de pessoas que nada têm a ver com a sua visão doente sobre o mundo. Isso também vale pra Imprensa, mas essa não tem mais jeito. Estão há 40 anos generalizando os dois grupos e espalhando um monte de informações falsas sobre eles (graças, também, às pessoas que se autodenominam seguidoras de tais grupos e não entendem patavinas do que estão fazendo). Mas cabe a nós que lemos e ouvimos tantas barbaridades sabermos diferenciar a verdade do sensacionalismo.


.



Blame the teachers, blame the school
Blame the parents, come on blame one and all
Blame the coppers, blame the drugs
Blame the system, but don't blame us!

Cock Sparrer | Don't Blame Us

.

Embora sempre tenhamos notícia de Skinheads fazendo arruaça por aqui no Brasil, quero lembrar a todos que esses caras NÃO são Skinheads, embora gostem de achar que são. Eles são um grupo chamado Carecas, que são um braço do White Power aqui no Brasil (meio babaca ser White Power num país onde a mistura racial é gritante, mas...). Porém, embora nunca divulgado, temos no país um grande movimento SHARP ("Skinheads Contra o Preconceito Racial", em português), que é forte em toda a cultura ocidental. Lembro mais uma vez que a ramificação racista/fascista do "skinhead" é minoria absoluta no mundo, mas a parte que faz estrago sempre chama mais atenção, não é?

Visitem o blog da SHARP BR

p.s.: Se tiverem dúvidas e quiserem saber se devem ter medo ou não quando encontrarem um Skinhead na rua, eu ensino a diferenciar um Careca de um SHARP. Pra quem mora no interior, como eu, não tem que se preocupar porque provavelmente não vai encontrar um (eu nunca vi nenhum aqui).