18/03/2012

Édipo, o cara que nem era complexado

A história de Édipo pode até não ser novidade pra muita gente, mas às vezes me sinto obrigada a falar sobre ela pra que as pessoas não o achem um grande pervertido, como a Psicologia nos faz acreditar (já ouviram falar no Complexo de Édipo, não? Aquela coisa toda do cara ser apaixonado pela mãe?).



Pra começar, temos que conhecer seus pais. Seu pai era Laio, rei de Tebas. Assim que se uniu a Jocasta, procurou um oráculo, como era costume dos gregos, para saber se o futuro de ambos seria feliz. O oráculo, porém, lhe disse que eles teriam um filho, e que este filho assassinaria o próprio pai.

Bom, não deu pra evitar a gravidez; então, assim que o bebê nasceu, Laio o entregou a um de seus guardas e ordenou que o matasse. O soldado, muito prático que era (só que não), levou o bebê até o monte Cíteron, que era já em outro reino, e o deixou pendurado em uma árvore, amarrado pelos pés.

Como era de se esperar, logo um pastor de rebanhos passou por ali e, atraído pelos gritos do bebê, o encontrou, desamarrou e levou-o até o rei de Corinto. Por sorte, a rainha de Corinto não podia ter filhos, então decidiu de imediato adotar o menino, batizando-o de Édipo (que, em grego, significa "pés inchados").

Quando mais velho, o rapaz, tomado pela curiosidade típica da idade, foi consultar um oráculo para saber o que seria do seu futuro. O oráculo, por sua vez, lhe confirmou a profecia que havia feito para seu verdadeiro pai, anos atrás: disse que ele assassinaria o próprio pai, e mais, se casaria com sua própria mãe.

O pobre Édipo, acreditando que o oráculo se referia aos seus pais adotivos (pois nunca soube que havia sido adotado), não teve coragem de voltar para o palácio, com medo de que a profecia se cumprisse. De tanto andar, acabou chegando em Tebas.



No caminho, cruzou com um senhor arrogante que lhe ordenou que saísse da sua frente para que ele passasse. Édipo se recusou, então o estranho o ameaçou. Mas, antes que pudesse fazer qualquer coisa, Édipo acabou golpeando-o com sua espada, o matando. Acontece que o estranho era Laio, seu verdadeiro pai, e assim a primeira parte da profecia havia se cumprido.

Não muito abalado com o incidente, Édipo continuou seu caminho. Ao chegar em Tebas, notou uma grande comoção na cidade. Lá do monte Cíteron, havia descido um monstro com cabeça e peito de mulher, patas e garras de leão, corpo de cão, cauda de dragão e asas nas costas: a Esfinge*. A criatura havia se postado na entrada da cidade e disse que só estava autorizado a passar por ali quem resolvesse o seu enigma. Quem errasse, seria devorado.

*Não confundir com a Esfinge egípcia! Ambas as culturas possuem sua própria Esfinge e, embora ambas sejam criaturas saídas de um liquidificador de animais, as histórias são diferentes.

A essas alturas, com o rei de Tebas morto, quem estava no governo era o cunhado de Laio, Creonte. Ele chegou a prometer o trono de Tebas e a mão de Jocasta pra quem conseguisse resolver o enigma da Esfinge e chutasse aquela coisa de lá! Bom, Édipo tava ali de passagem e não tinha nada a perder, então pensou: "Por que não?". E se aproximou da criatura.

A Esfinge, então, dita seu famoso enigma:

"Qual é o animal que de manhã anda com quatro patas, ao meio-dia com duas e à noite com três?"

Édipo era um cara esperto e sacou a resposta na hora:

"Pois prepare-se para ouvir a resposta e morrer: Este animal é o homem. No início da vida, que é de manhã, ele engatinha, usando as duas pernas e as mãos; quando cresce, que é o meio-dia, ele caminha com os dois pés; quando envelhece, à noite, precisa da ajuda de uma bengala, seu terceiro pé. Pronto!"

Gustave Moreau, 1888


A Esfinge, porém, não ficou lá muito feliz com a solução do enigma. Mas havia sido derrotada, então levantou voo e se jogou de um precipício, morrendo lá embaixo.

O povo de Tebas carregou Édipo em triunfo. Creonte cumpriu sua promessa. Édipo tornou-se rei de Tebas e marido de Jocasta - realizando-se, assim, a segunda parte da profecia.

Porém, anos depois, uma grande miséria abateu o reino. Pessoas e animais morriam sem motivo, as plantações secavam e a terra não produzia mais. Édipo volta a consultar o oráculo para saber o que estava causando tudo isso, e soube que o que está acontecendo é porque a morte de Laio ainda não foi vingada. O assassino deveria ser encontrado e punido.

Como não fazia ideia de que aquele estranho na estrada era o antigo rei de Tebas, Édipo manda chamar um adivinho famoso chamado Tirésias. Pra sua infelicidade, Tirésias lhe revelou a verdade: que o assassino era ele mesmo, e que sua esposa era, na verdade, sua verdadeira mãe.

"Édipo e Antígona", de Antoni Brodowski, 1828




Jocasta não suportou a descoberta e enforcou-se. Édipo não teve um destino melhor: se sentindo envergonhado demais para voltar a ver a luz do sol, furou os próprios olhos. E Creonte, seu tio, o expulsou de Tebas.

Cego e sem destino, Édipo vagou de cidade em cidade, guiado por sua filha Antígona. Mas, por onde quer que passasse, era rejeitado. Foi terminar seus dias no único lugar onde foi aceito: no alto do monte Cíteron.







 




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FONTE: "As Mais Belas Lendas da Mitologia", da Editora Martins Fontes