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Que língua a gente falaria se não aprendesse língua nenhuma?

Pensar muito profundamente sobre o assunto resultaria em uma pesquisa bem extensa sobre as origens da linguagem; mas as teorias são muitas e nenhuma concorda com a outra (são todas interessantíssimas, pra quem curte o assunto. Chequem as fontes ao fim do texto).

Então, vamos pensar apenas no seguinte: Primeiro, o ser humano eventualmente desenvolveu a língua falada porque vem praticamente junto com a linguagem gestual. Depois, sabemos que todas as línguas que aprendemos (nossa própria e outras posteriores) são adquiridas por imitação. Porém, se não tivéssemos a quem imitar, que língua falaríamos?

e agora você está pensando nisso também.


A pergunta se passou pela cabeça de algumas pessoas no decorrer da história da Humanidade. Algumas delas resolveram descobrir, e certas experiências que realizaram são dignas do respeito de qualquer médico nazista.

O registro mais antigo é de Heródoto, que escreveu que o faraó egípcio Psamético I (por volta de 600 a.C.) entregou dois recém-nascidos a um camponês, e lhe deu ordens de não falar com as crianças ou perto delas, mas deveria alimentá-las e se manter por perto para ouvir qual seria a primeira palavra delas. A ideia era que elas eventualmente se comunicariam na "língua original da humanidade". Um dia, uma delas disse algo que eles entenderam como "bèkos", palavra da língua frígia que significa "pão". E aí eles concluíram que a língua original da humanidade era esta, já que o povo frígio era mais antigo que o egípcio. Claro que não sabemos se a criança realmente pediu pão em uma língua de um povo tão distante, ou se foi apenas o que eles entenderam, então o experimento não tem validade.

Um curioso mais drástico foi o Sacro Imperador Romano Frederico II (no século XIII), que era ávido por conhecimento e não tolerava nada que não pudesse explicar pela razão. Apesar de ser um homem brilhante e mestre em muitas artes, tendia a ser cruel em suas experiências. Uma de suas dúvidas era qual seria a língua que Adão e Eva usavam entre eles: se o hebraico, o grego, o latim ou o árabe. Para tal, selecionou alguns bebês para serem criados sem a companhia de qualquer outra pessoa (salvo ocasionais visitas de amas para banhá-los e amamentá-los, mas proibidas de falar perto deles ou interagir comunicativamente com eles de qualquer modo). O experimento, porém, foi em vão: o contato físico nessa fase da vida é fundamental para o desenvolvimento saudável do ser humano, e, da maneira como estavam, todos os bebês acabaram morrendo antes que pudessem pronunciar qualquer palavra.



Dois séculos depois, o rei Jaime IV da Escócia queria saber se a língua era uma coisa que a gente aprendia ou era uma característica inata do ser humano, então colocou dois bebês sob a criação de uma mulher muda em uma ilha isolada para ver o que aconteceria. As histórias dizem que as crianças conversavam em hebraico, embora não se saiba como ou por quê; mas é de consenso geral que essas crianças provavelmente se comunicavam com sons rústicos (como os grunhidos dos homens primitivos) ou através de gestos.

No século seguinte, o Imperador Mogol Akbar, da Índia, também realizou um experimento parecido, para provar seu ponto de vista de que a língua era algo que aprendíamos por imitação. Bebês foram criados por mulheres mudas; depois de mais velhos, foram todos reunidos em um local aonde os sons da civilização não chegavam. Guardas de confiança cuidavam do local, e enfermeiras com voto de silêncio cuidavam das crianças. Quando Akbar foi visitá-las, diz-se que não foi ouvido o menor ruído de nenhuma delas, articulados ou esboçados. Ele então concluiu que crianças criadas por mudos seriam também mudas.

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Fontes:

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