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Uma breve declaração de amor ao Streetlight Manifesto

Em agosto de 2012, o Streetlight Manifesto abriu a pré-venda para seu novo álbum, The Hands That Thieve, pela loja independente RISC Store. Como sempre, havia várias opções de aquisição: apenas o CD, o CD + o CD com as versões acústicas gravadas pelo Toh Kay, ou um bundle CD + pôster + camiseta, ou então o vinil. Enfim, tudo muito lindo e pelos preços simbólicos de sempre. Bom, por causa do alto preço do dólar, na época, e as taxas de IOF que me matam na farofa, acabei comprando só o CD, mesmo, e aguardei ansiosamente pelo lançamento, como todos os outros.

Porém,

numa treta eterna com a então gravadora, Victory, a banda não recebeu os CDs para entregar as pré-vendas. A Victory vinha aprontando com eles havia algum tempo (por exemplo, proibindo-os de postar seus vídeos no YouTube), e não entendi muito bem por que, mas entendi que a gravadora os proibiu de vender os CDs pela loja independente (os CDs foram lançados e estavam sendo vendidos por preços exorbitantes em algumas lojas especializadas). De toda forma, todos que compramos o álbum na pré-venda recebemos um longo e-mail explicando, como puderam, o porquê do que aconteceu, mas que o álbum seria eventualmente liberado para nós no ano seguinte, até abril.

E abril chegou e os CDs, novamente, não puderam ser entregues.

Recebemos novamente um e-mail por parte da banda, pedindo desculpas e explicando que aquela era uma batalha perdida. Eles, então, nos autorizaram a conseguir esse álbum por "qualquer meio que quiséssemos". Óbvio que a maioria já havia baixado os mp3 há muito tempo, mas agora tínhamos o aval da banda, que é sempre desejado.

Um tempinho depois, após confirmação de que nossos sonhos estavam destruídos, a banda anunciou que estava deixando a gravadora, mas que isso geraria uma multa por quebra de contrato bastante pesada (além dos processos todos). Quem ainda não havia pedido o reembolso poderia optar por deixar o dinheiro como doação para ajudá-los com isso, e como eram só 10 dólares, deixei e fiz meu papel de fã e ajudei.

Este ano, a banda entrou em contato com quem resolveu deixar o dinheiro como doação para agradecer, dizer que estava dando tudo lentamente certo, e que nós seríamos recompensados com um presente pela dedicação, espera, fidelidade, e apoio nas horas difíceis - seria apenas uma lembrança, que eles esperavam ser tão boa quanto o CD que esperávamos receber mas não poderíamos, mas ainda era segredo.

Meses depois, revelaram o que nós receberíamos. Nas palavras deles: "uma embalagem de CD em formato digipack, um CD em branco para que vocês gravem nele o que bem entenderem, e um encarte com fotografias e 10 poemas. A embalagem não tem código de barra, nada escrito na capa ou no CD, não tem logos com um cachorro malvado [símbolo da gravadora], nada. É só um CD em branco com um livrinho de fotos e poemas". Então, o que eles estavam fazendo, basicamente, era nos dando o que compramos - só que sem a capa original e sem as músicas, por determinação legal dos processos e cláusulas contratuais do escambau, tudo muito dentro da lei e satisfatório pra todo mundo.



escrevi os nomes à mão, como deveria ser feito



Recebi o meu esses dias. É realmente o que todos sabíamos que era: a embalagem completa - capa (com arte diferente), o CD em branco (onde já gravei o álbum), e o encarte com as fotos que eles fizeram durante as turnês e as letras das músicas. Não há o nome da banda, nem do álbum, em lugar nenhum, nem logos ou qualquer outra coisa. Nos informaram de que aquilo era um presente e, portanto, uma edição limitadíssima, que só quem doou o reembolso recebeu.

[quanto ao álbum, já falei aqui]

Vejam, o meu amor pela banda vem de anos, por motivos que já contei aqui em diversas ocasiões. Mas eu acredito que, mais do que a música, o que ganha o respeito e o amor dos fãs e aqueles que deram força (e dinheiro, claro!) para que o sucesso viesse é a maneira como o artista ou a banda os retribui. Enquanto eu vejo bandas e artistas cobrando pequenas fortunas por um lugar melhor no show, me lembro do The Clash se recusando a tocar quando souberam que isso estava acontecendo, e só subindo ao palco quando souberam que o dinheiro seria doado a instituições de caridade. Enquanto eu vejo bandas e artistas cobrando outras pequenas fortunas pelo "privilégio" de ter uma foto tirada (sem contato físico) com o fã que, além de pagar, esperou horas em uma fila e teve que passar por um sorteio, me lembro novamente do The Clash deixando fãs entrarem pela janela do camarim. Enquanto eu vejo bandas e artistas cobrando a mais por shows "exclusivos" para poucas pessoas, me lembro de Joe Strummer tocando seu violão na porta da estação de rádio para fãs na calçada porque chegou atrasado a uma entrevista (pois resolveu ir até o estúdio a pé) e teria de esperar mais algumas horas até o próximo horário livre. E enquanto eu vejo bandas lançando álbuns exclusivos que "não são pra qualquer um" por quantias fabulosas, me lembro do Streetlight Manifesto nos retribuindo (do próprio bolso!) da melhor maneira que puderam por uma doação de 10 dólares, como agradecimento pela nossa fidelidade.

Copyright © MCK-Photography


Embora eu saiba que muitos dos atos ali descritos não dependam mais do artista do que dependem da gravadora ou produtora ou organização dos shows, o artista tem SEMPRE a opção de ser contra. Citei bastante o The Clash, mas sei que existem outros, e serão sempre esses que terão o meu respeito e o meu dinheiro. O Streetlight Manifesto está longe de ter a quantidade de fãs que as bandas e artistas populares têm, mas o consenso geral entre nós sempre foi que eles nunca decepcionam. Nos referimos à música - que nos diverte e nos faz pensar, mas hoje sabemos que esse pequeno ato de respeito apertou ainda mais os nossos laços.

Minha declaração de amor acabou não sendo breve, mas foi necessária. E continuo firme na esperança de que outras tantas bandas de que gosto não se tornem no que outras tantas bandas de que já gostei se tornaram.



If Only For Memories
and I believe that every broken bone was meant to be,
and when it heals it will be stronger than it was before.

uma música importante

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