11/04/2015

"Sozinho, adj. Em má companhia."



Em minhas muitas leituras a respeito da depressão, li certa vez (infelizmente, não guardei o link) que o ser humano não foi evolutivamente adaptado para viver em sociedade. Parece não fazer sentido, mas é uma questão de pensar melhor sobre o assunto: afinal, qual é a reação normal de um ser humano em relação ao outro quando forçados a conviver? Alguma entre qualquer uma destas:

- Isolamento. Introvertidos, como eu, se isolam de grupos maiores e procuram não chamar a atenção para si mesmos. O convívio com outras pessoas, mesmo que por um breve período de tempo, é física e emocionalmente exaustivo.

- Competição. A tendência natural do ser humano, como de qualquer ser vivo, é sobreviver. Ainda que a situação em que o grupo de pessoas se encontra não seja questão de vida ou morte, a competição estará sempre presente: preciso ganhar mais, preciso me vestir melhor, preciso saber mais, preciso contar as melhores piadas, preciso desencalhar primeiro, minha casa precisa ser mais bonita, preciso ter o corpo mais sarado, preciso postar essas fotos todas no Facebook... para que todos saibam que estou vencendo na vida.

- Violência. Não necessariamente em situação selvagem, mas os seres humanos se tratam violentamente entre si sempre que dada a oportunidade. Por comportamento violento, entendamos toda ação que resulte em prejudicar ao próximo em qualquer nível: abuso físico e psicológico, abandono, exclusão, traição, fofoca, comentários maldosos em redes sociais.

Dada a ocorrência dessas reações quando comparadas a outras reações menos naturais, como a cooperação e o respeito (que são coisas maravilhosas mas, infelizmente, forçadas ao nosso comportamento graças a leis de ética e bons costumes criadas para "domar" nossos instintos primitivos), fica fácil perceber o quanto somos criaturas solitárias.

Entretanto,

sermos solitários nem sempre significa que gostemos de ficar sozinhos (sempre ou quase).

Não vou entrar aqui em pormenores psicológicos a respeito disso, mas me permitir uma (talvez não muito breve) introspecção. Isso vai ser completamente pessoal e provavelmente não fará sentido pra muita gente, mas é algo que gostaria de ventilar.

Como mencionei acima e já transpareci diversas vezes, sou introvertida. Por ser algo que me atrapalhava na infância e adolescência, passei muitos anos tentando "consertar" isso, ou disfarçar o melhor que podia, me forçando a situações que me deixavam desconfortável só para que eu pudesse me sentir mais "normal" entre os outros e evitar as piadas. A chegada da idade adulta e as experiências normais da vida me ajudaram muito nos termos da timidez, que superei bem, mas a introversão é uma parte da minha personalidade que é imutável. Nos últimos anos, tenho convivido bem com ela e aceitado os modos como ela molda meu caráter e meu comportamento. Se não gosto de frequentar lugares cheios de gente estranha é porque não gosto de frequentar lugares cheios de gente estranha, eles me dão dor de cabeça e saudade de casa - parei de dar desculpas a respeito disso e tá tudo bem.

O grande problema estar ok com quem se é, porém, é que as pessoas que nos cercam supõem coisas sobre nós no nosso lugar. A gente para de receber convites para as coisas, por exemplo, porque as pessoas já imaginam que a gente não vá. Peraí. Eu não me importo de ir a festas, desde que tenha alguém lá pra me fazer companhia. Todos os introvertidos são assim? Não, mas eu sou. E as pessoas só têm como saber se perguntarem e, não sei, talvez me convidarem. Seu convite não é importante pela perspectiva do evento, mas pelo convite em si!

Da mesma forma, pessoas assumem que eu goste de ficar sozinha por ser assexual. Entendo que o conceito de assexualidade seja complicado de entender (até por isso fiz questão de abrir uma página de conscientização e educação aqui no blog), e que uma breve noção da definição do termo seja aparentemente o suficiente pra pensar "bom, ela não é chegada nem em homem nem em mulher, então não vou nem perder meu tempo". Gente, orientação sexual não é tudo o que determina as necessidades de um ser humano. Todo relacionamento deve começar e se manter com comunicação, e não há maneira absoluta de ninguém saber o que eu quero sem me perguntar.

Ambas características da minha personalidade me fazem me sentir constantemente sozinha. Traços de personalidade são coisas que nós disfarçamos o melhor que podemos, mas que não conseguimos efetivamente mudar; portanto, aquele sermão todo de "seja mais flexível", "tá se sentindo assim porque quer", "saia mais de casa" não funciona. Situações forçadas não são mentalmente saudáveis, podem resultar em traumas e realmente piorar uma situação já ruim o suficiente. Gente como eu geralmente procura companhia de pessoas que estão longe, e isso também não é completamente saudável porque uma "companhia" distante jamais vai preencher as necessidades humanas de proximidade. Tenho pouco mais de 300 amigos no Facebook, e conheço todos eles (quem não é meu amigo ou parente foi aluno meu, colega de trabalho ou de estudo, ou é/foi cliente). Ainda assim, nem 10% dessas pessoas interage no meu dia a dia - de que maneira for. O restante delas nunca visitou meu blog, não me segue de volta em outras redes sociais, não me felicita no meu aniversário (ou responde às minhas felicitações) e, definitivamente, não entende e nem tenta entender o que eu posto por lá. Trezentos conhecidos.

É como eu disse lá no começo da postagem, sobre o comportamento do ser humano. É normal, é de ser esperado, e não deveria importar. Mas chateia e, apesar de eu ser como sou, sou também incapaz de ignorar a tristeza que isso me dá. E, por pensar tanto nisso, me torturo com coisas que não deveriam me atingir. Saio catando motivos pra alimentar minhas neuras e me chateando mais e chateando os outros no processo. E, claro, nada disso interessa a ninguém.

Isso aqui não vai mudar nada no comportamento das pessoas. Mas, pelo menos, finalmente botei pra fora.




*o título é a tradução de um trecho do genial The Devil's Dictionary, de Ambrose Bierce.