28/05/2015

Internado



Às vezes eu tento fazer coisas e elas não funcionam como eu queria.
Eu fico muito frustrado e me esforço para fazê-las, não tenho pressa e mesmo assim não funciona como eu queria.
É como se eu me esforçasse muito mesmo e não funcionasse.
Tudo o que eu faço e tudo o que eu tento nunca dá certo.
É só que eu preciso de tempo pra entender as coisas.
Mas sempre tem alguém lá dizendo:

"Ei, Mike
Sabe, a gente tem notado que você está passando por alguns problemas ultimamente.
Sabe, talvez você devesse sair um pouco e talvez falar sobre isso, talvez você vá se sentir bem melhor."

E eu digo:

"Não, tudo bem, sabe, eu vou entender como se faz, só me deixem em paz que eu vou conseguir.
Sabe, eu consigo sozinho."

E eles dizem:
"Bem, sabe, se você quiser falar sobre isso eu estarei aqui, sabe, e você provavelmente vai se sentir bem melhor se falar sobre isso."

E eu digo:
"Não, eu não quero, estou bem, eu consigo sozinho" e eles ficam me enchendo o saco e enchendo o saco e isso vai acumulando e acumulando.

E aí você vai internado
Você sai de lá com o cérebro apagado e os olhos injetados
Não vai ter razão sobre nada
Vão te fazer uma lavagem cerebral até que você veja as coisas como eles.

Eu não sou louco! (em uma clínica psiquiátrica)
Você que é louco! (em uma clínica psiquiátrica)
Vocês estão me enlouquecendo (em uma clínica psiquiátrica)
Eles me trancaram em uma clínica psiquiátrica
Disseram que era a única solução
Me conseguir a ajuda de um profissional
Pra me proteger do inimigo - eu mesmo.

Eu estava no meu quarto só olhando para a parede e pensando sobre tudo
Mas ao mesmo tempo não pensando em nada
E aí minha mãe entrou e eu não percebi que ela estava ali, ela me chamou mas eu não ouvi
Então ela começou a gritar: MIKE! MIKE!
E eu disse:
O que foi?
E ela disse:
Qual o seu problema?
E eu:
Nenhum, mãe.
E ela:
Não vem com essa, você está usando drogas!
E eu:
Não, mãe, eu não estou usando drogas, eu estou bem, só estava pensando se, sabe, você poderia me trazer uma Pepsi.
E ela:
NÃO! Você está usando drogas!
E eu:
Mãe, eu tô bem, só tava pensando.
E ela:
Não, você não estava pensando, você está drogado! Pessoas normais não agem assim!
E eu:
Mãe, só me traz uma Pepsi, por favor.
Tudo o que eu quero é uma Pepsi, mas ela não queria me trazer.
Tudo o que eu queria era uma Pepsi, só uma Pepsi, e ela não queria me trazer.
Só uma Pepsi.

Eles te dão uma camisa branca de mangas longas amarradas às suas costas
Você é tratado como um bandido
E te drogam porque são preguiçosos
Dá muito trabalho ajudar um louco

[...]

Eu estava sentado no meu quarto e meus pais entraram e puxaram uma cadeira, sentaram e disseram:
Mike, a gente precisa falar com você.
E eu:
Ok, qual o problema?
E eles:
Sua mãe e eu estamos percebendo ultimamente que você tem tido alguns problemas, você tem se irritado sem motivo e nós estamos com medo de que você vá machucar alguém. Estamos com medo que você vá se machucar.
Então decidimos que seria do seu interesse se a gente te mandasse pra algum lugar onde você recebesse a ajuda que precisa.
E eu:
Peraí, do que vocês estão falando, "nós decidimos"?!
Meu interesse? Como vocês podem saber qual é o meu interesse?
Como vocês podem saber qual é o meu interesse? O que vocês querem dizer, que eu sou louco?
Sendo que eu fui às suas escolas, fui às suas igrejas
Fui às suas instituições de escolha?! Como vocês podem dizer que eu sou louco?

Eles dizem que vão consertar meu cérebro
Aliviar meu sofrimento e dor
Mas até eles consertarem minha cabeça
Vou estar mentalmente morto

[...]

Mas não importa, eu provavelmente vou ser atropelado, mesmo.


Institutionalized
Suicidal Tendencies
Suicidal Tendencies (1983)


A música mais popular dessa banda de crossover (estilo que mistura hardcore e metal). Foi regravada em 1993 e indicada ao Grammy de melhor performance de Metal. Foi a primeira música de hardcore a ganhar espaço em canais como a MTV. Ela também está incluída na trilha sonora de vários jogos e filmes (a original ou alguma versão de outras bandas).




26/05/2015

Solipsist, página 37



"Se o mundo te deixa triste, se você acorda no meio da noite sentindo ondas de medo e um pânico inconsciente abatendo sobre você, sou seu amigo. Se você está dominado por uma desesperança que faz sua boca abrir em um grito que nunca sai mas congela seu rosto em desespero mudo, então nós dois temos algo em comum. Se você não consegue entendê-los por nada nessa vida, mesmo que tenha tentado tanto, quando aquele deslocamento o faz se sentir como se fosse o único da espécie no planeta todo, eu sei que posso confiar em você. Se esse infindável gueto de mentiras e decepções, essa fileira eterna de cercas e sinais piscantes de neon, sudorese noturna e desejos suicidas te fazem querer parar, só parar, tipo parar de respirar, espere. Espere. Você não precisa me dizer o seu nome. Você não tem que provar nada para mim. Eu te aceito. Se você acha que é a vida que está tentando te matar, eu quero que você continue vivo para levantar com o sol e revidar."


- Henry Rollins

22/05/2015

Sugestão de Leitura: "A Hora da Tormenta", de Luis Maldonalle

Há um tempo compartilhei aqui com vocês uma resenha sobre o livro Sete Noites em Claro, de Luis Maldonalle, composto por sete histórias de terror. Aquele havia sido seu livro de estreia, lançado apenas em formato digital. Mas o Luis tomou gosto pela coisa e já lançou, em seguida, o thriller A Hora da Tormenta, sobre o qual vou falar agora:



(clique para aumentar)


Eu não sei se já cheguei a comentar com algum de vocês, mas uma das coisas de que mais tenho medo na vida são ciclones. Eu costumava ter pesadelos recorrentes a respeito de tufões, ciclones ou tornados me perseguindo, como se fossem coisas conscientes e com sede de Emmanuella. Não sei, exatamente, de onde veio esse medo todo, e não faz muito sentido tê-lo, morando em um país que, felizmente, não é assolado por essas coisas. A questão é que, quando o Luis me falou sobre o novo livro e eu descobri do que se tratava, respirei fundo e pensei: "Isso vai me dar mais medo que o Sete Noites...".

E é aqui que entra o ponto sobre Tormenta: o tornado F5 que foi dar um passeio na cidade não é o mais assustador na fictícia Brave Rock.









Num estilo que lembra Sob a Redoma, de Stephen King, somos apresentados a uma cidadezinha habitada pelas mais variadas personalidades - de gente normal com problemas normais e gente aparentemente normal que esconde segredos terríveis, a gente que não se esforça em parecer normal ou esconder as coisas terríveis que faz. 

Até que o tornado finalmente chegue, o curso desses personagens se entrelaça e nos mostra in loco como pode ser viver em uma cidadezinha controlada tiranicamente por uma panelinha desprezível, onde todos se envolvem, se hostilizam e, em uma demonstração do quanto o ser humano pode ser negativamente surpreendente, tomam ações extremas quanto aos seus sentimentos. Há, lógico, gente de bem em meio a tudo isso, de atitudes nobres e boas intenções. E há gente redimida, gente com uma missão, e gente disposta a deixar tudo melhor. Nada disso faz diferença, entretanto, quando Sodoma chega.

A Hora da Tormenta é uma leitura tensa e envolvente. Uma experiência que me proporcionou odiar as pessoas certas, me preocupar com o destino de outras, me indignar com injustiças e, por vezes, torcer pro tornado chegar logo. 














Abaixo, vocês conferem o book trailer:




  • Para adquirir o livro:




Encaram?

.

Mais detalhes sobre o livro no blog do autor: https://maldonalleblog.wordpress.com/ e na sua página do Facebook, com links para outras resenhas.

09/05/2015

10 músicas que me trazem lembranças da adolescência

(tema retirado de uma lista de propostas)

A adolescência é uma fase sinistra. Talvez a adolescência nos anos 2000 tenha sido tão bizarra quanto qualquer outra, e as músicas que me acompanharam então são uma bagunça digna de qualquer revolução hormonal.

Bom, são MUITAS as que marcaram essa fase. Vou listar as que lembrei primeiro e que me trazem lembranças específicas:


1. Everybody Get Up, Five


Ensaiei essa coreografia durante meses, para uma apresentação em uma gincana da escola, mas acabei sendo chutada do grupo de dança porque não tinha a calça skatista para a apresentação...


2. Wherever You Will Go, The Calling


Minha equipe da gincana de inglês na escola foi a vencedora graças à última tarefa: a de organizar a letra desta música em menos tempo!


3. Jahu, Lulu Santos



Essa música tava num CD que eu ouvia enquanto estudava pro vestibular, e acredito piamente que muito do que não consegui estudar direito veio da minha cabeça tentando descobrir o que diabos era um jahu. (e desculpa, Lulu, mas os Mamonas Assassinas rimaram "Van Damme" com "andaime" bem antes)


4. Um Anjo Veio me Falar, Rouge


Gente, a gente tinha um grupo cover do Rouge na escola. E essa era a única que todas nós sabíamos de cor. HASHUASUHSUHAUHSAHUASHUHUAS


5. Nada a Declarar, Ultraje a Rigor


Porque era o ápice da revolta adolescente cantar esse refrão em voz alta dentro do transporte escolar cheio de criancinhas.


6. Inesquecível, Sandy & Junior


Primeira vez que peguei um vírus no computador foi quando uma amiga me emprestou um disquete com as letras das músicas de Sandy & Junior (talvez eu tenha pedido por isso)... O que também é inesquecível (trocadilho levemente intencional) nessa música é o excelente final: "Se eu não tiver você, agora e sempre vai estar... O QUÊ?... Preso em meus olhooo- JUNIOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOR!!!! -oooos... Inesquecível em miiiiiim!".


7. Perdi Você, Twister


Como todo mundo, odiei o Twister quando surgiu com aquela coisa esquisita da 40 Graus. Mas aí a lavagem cerebral midiática foi fazendo efeito e eu até comecei a gostar deles (comprei a fita K7 e tudo), e cheguei até ao ponto de escolher um favorito do grupo - que no caso é o que canta essa música (não lembro mais o nome da criatura), então essa aí era a minha favorita deles por este motivo bem besta. Pqp.


8. Imitation of Life, R.E.M.



Eu não sei exatamente que lembranças essa música me traz, mas, sempre que a ouço, uma mistura de sensações adolescentes acontece e me deixa meio confusa. Ela estava na trilha sonora de uma novela da época e, embora eu não a assistisse, tinha o CD e o sabia de cor. Essa era uma das minhas favoritas e provavelmente me acompanhou em algum drama adolescente, porque ouvi-la me faz me sentir sozinha, pensar em coisas que não podem ser, e até chego a ver chuva...


9. Jeito Sexy, Fat Family


Desculpa, humanidade, mas treinei tanto na época pra conseguir fazer esse movimento de pescoço que sei fazer até hoje.


10. Eu Me Apaixonei Pela Pessoa Errada, Exaltasamba


Afinal, QUEM NUNCA?

05/05/2015

5 coisas que você provavelmente não sabia sobre ornitorrincos (e vai querer saber)

(talvez mais ou menos de cinco, dependendo do conhecimento geral de quem tá lendo :B)

história real


Aqui está o que todo mundo já sabe sobre ornitorrincos:


  • são mamíferos
  • que botam ovos
  • e têm bico de pato
  • dedos com nadadeiras
  • e cauda de castor


Ornitorrincos são bichos tão zoados pela genética que, por muito tempo, os cientistas do resto do mundo achavam que sua existência era só um boato australiano bem bizarro (inclusive, o primeiro espécime analisado por eles foi considerado um trabalho complexo de taxidermia. Este espécime ainda está em exibição no Museu de História Natural de Londres, com as marcas das tentativas deles de "desmentir o embuste"). Bom, se tem uma coisa de que a Austrália entende bem é de animais bizarros, e o ornitorrinco está facilmente no topo dessa lista.

mas não é uma coisa superfofa?


Porém, além do que já sabemos, existem curiosidades ainda MAIS estranhas a respeito deles. Apesar de mamíferos, ornitorrincos têm mais características répteis, tais como a estrutura dos ovos, vários aspectos do esqueleto e da fisiologia. Vejamos algumas delas:


  • São mamíferos sem tetas.


Os filhotes mamam, claro - afinal, são mamíferos. Mas as mamães não têm tetas, apesar de possuírem glândulas mamárias; então elas secretam o leite pelos poros da pele e os filhotes se alimentam por lambidas.


  • Os filhotes nascem com dentes e depois os perdem pra sempre.


Bico e dentes, já pensaram? Após o desmame, os dentes caem e resta uma estrutura queratinosa (como as "serrinhas" das tartarugas), que é o que eles usam pra mastigar, já que são carnívoros.


  • Ornitorrincos localizam presas e percebem o ambiente subaquático por eletrorrecepção.


Ou seja, pelo campo elétrico gerado pelas coisas. Exceto pelos monotremados (que são os ornitorrincos e as parentes equidnas) e por uma única espécie de golfinhos, essa não é uma característica dos mamíferos mas sim de peixes - e, pasmem, baratas. Os receptores ficam na parte de baixo do bico, e é o único sentido que eles usam para caçar: quando submergem, fecham os olhos, as narinas e os ouvidos, não podendo, portanto, usar visão, olfato ou audição para tal. 


ANT Photo Library/Photo Researchers, Inc.
  • Os machos têm esporas com veneno.


As fêmeas também têm as esporas na parte de trás dos tornozelos, mas só os machos têm veneno. Tal veneno é suficiente para matar pequenos animais mas não é letal para humanos - embora cause dor excruciante que pode durar dias ou até meses.


  • Eles não sobrevivem por muito tempo em nenhum cativeiro fora da Austrália.


Estes animais respondem bem ao cativeiro, porém, só dentro da Austrália, onde vivem até 17 anos (e, ainda assim, não em qualquer região do país). Em tentativas de levá-los para fora do país, o máximo que um espécime sobreviveu, mesmo com todas as características ambientais adaptadas, foi dois anos. Mesmo assim, não é vantajoso mantê-los em cativeiro, pois eles precisam consumir cerca de 20% do seu peso em comida todos os dias - e eles comem por mais ou menos 12 horas contínuas, o que torna a criação dispendiosa.


aqui vocês podem ver ornitorrincos sendo ornitorrincos



Ornitorrincos estão extintos em algumas regiões da Austrália, por motivos ainda não muito bem compreendidos, mas estudos sugerem a poluição dos rios e a predação por crocodilos e raposas como as causas mais prováveis. Eles também não têm muitas habilidades para a vida terrestre (gastam muita energia para caminhar, por causa das pernas curtas, e enxergam mal), mas também não têm tudo o que precisam para uma vida puramente aquática (não respiram debaixo d'água, por exemplo). Além disso, ornitorrincos foram muito caçados até o comecinho do século XX por causa de sua pele de pelos impermeáveis. De forma geral, entretanto, estão fora da área de risco de extinção total por causa das leis rigorosas de preservação em vigor no país. 


E, para fechar com uma última curiosidade, o nome "ornitorrinco" vem do seu nome científico, Ornithorhynchus anatinus, que significa "focinho como o de pássaro".





Fontes: Wikipedia | HICKMAN, ROBERTS, LARSON. Princípios Integrados de Zoologia | Australian Museum | Platypus Facts

01/05/2015

Sugestões de leitura de 2015: Março - Abril

Os dois últimos meses foram bem lentos nas leituras... Me deixei desanimar pra algumas coisa que amo fazer (como ler e assistir às séries), mas é só uma fase boba e espero logo voltar à programação normal.

Ainda estou pensando em uma maneira mais original/interessante de apresentar estas recomendações, sem que pareça plágio de quem faz isso melhor. As visitas também andam caindo a cada relatório, então talvez eu volte a fazer anual - 'cês gostam de me ver sofrer, né?


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O Mistério da Estrela - Stardust
Neil Gaiman - Rocco - 2008 (1999) - 268p.

O amor pode ser uma coisa meio idiota... Especialmente quando faz a gente prometer coisas idiotas para pessoas um tanto idiotas que não querem realmente que você faça coisas idiotas para elas, mas o forçam mesmo assim. Tristran Thorn era um idiota apaixonado, que prometeu buscar para Victoria Forrester uma estrela que havia acabado de cair. Só que a tal estrela caiu na Terra Encantada - divisa com o lugarejo de Muralha, na Inglaterra, e ninguém simplesmente atravessa o muro para lá. Mas, determinado, o rapaz deu adeus à sua vida comum e partiu atrás de sua estrela, e, pelo caminho, descobriu coisas surpreendentes a respeito do lugar, da própria estrela, e de si mesmo. Infelizmente, o jovem Tristran não era o único que buscava tal tesouro, e teve que enfrentar perigos estranhos e fazer aliados incomuns. A história é bem divertida, cheia de reviravoltas, uma atmosfera típica de contos-de-fadas (com bruxas, criaturas, reis e príncipes, maldições e piratas voadores) e um epílogo que arranca algumas lágrimas. Premiado como o melhor conto-de-fadas para todas as idades (embora eu não necessariamente o recomende para crianças, devido a algumas cenas bem explícitas), O Mistério da Estrela - Stardust virou filme em 2007 com algumas adaptações e um elenco fantástico. 



O Pacto
Joe Hill - Arqueiro - 2010 - 319p.

(Reeditado posteriormente com a capa e o nome do filme baseado nele, Amaldiçoado)
Ig Perrish não está no seu melhor momento. Apesar de ser um cara de bom coração e boas intenções, vir de uma família privilegiada e ter encontrado o amor da sua vida ainda bem cedo, um dia as coisas simplesmente deram errado. A mulher da sua vida foi estuprada e assassinada, todo mundo na cidadezinha de Gideão acha que foi ele, seus amigos e familiares o tratam com frieza; e aí um dia, como se essas desgraças todas ainda não fossem o suficiente, ele simplesmente acorda após uma noite de bebedeira e descobre que está com um protuberante par de chifres na cabeça. Mais estranho que isso, ele logo descobre que os chifres influenciam as pessoas a contarem seus segredos mais obscuros e agirem das maneiras mais improváveis. Após perceber que ninguém que ele achava conhecer era realmente o que ele pensava, Ig se aproveita da bizarra situação para solucionar o assassinato da namorada. Este livro está, facilmente, entre as coisas mais bizarras que já li na vida. É complicado não comparar o estilo de Joe Hill ao do pai, Stephen King (e ele provavelmente odeia isso), mas ao menos o talento pro vocabulário chulo ele tem... Trivialidades a parte, a história é bem original e é narrada de uma maneira difícil de interromper a leitura. Apesar de ser um thriller sobrenatural, a narrativa é divertida e chega a arrancar risadas em diversos pontos. Talvez seja um tanto confuso que os flashbacks sejam inseridos fora de cronologia durante toda a história, mas eles fazem parte das várias surpresas a respeito dos personagens.




Eu, Robô
Isaac Asimov - Aleph - 2014 (1950) - 315p.

Eu sinceramente não esperava que este livro fosse ser tão divertido. Até mesmo eu, que sou tão acostumada a ler ficção científica e que a amo, tendo a esperar pelos termos difíceis e os enredos complexos e respirar fundo antes de começar. Entretanto, o que Asimov faz com seus robôs aqui é tão delicioso de se ler que não hesitei em acrescentar este livro aos meus favoritos. A obra compila nove contos escritos entre as décadas de 1940 e 1950 e lançados em fascículos pelo autor, na época. Todos se interligam pela personagem principal, Susan Calvin, psicóloga roboticista que esteve direta ou indiretamente envolvida em cada um dos casos de evolução dos robôs. Começando com a comovente história de Robbie, o robô-babá da geração que ainda não sabia falar, passando por robôs que foram programados com diferentes funções mais avançadas, desenvolveram personalidades e equipados com um cérebro positrônico capaz de coisas que nenhum humano jamais previu: robôs que leem mentes, robôs com complexo de deus, robôs destituídos da Primeira Lei da Robótica (aquela que os impede de machucar um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano venha a se machucar), até finalmente chegar ao futuro em que Máquinas controlarão com perfeição a economia e todo o funcionamento do planeta. É muito legal ver as previsões que Asimov tinha sobre o nosso presente (uma das histórias, inclusive, se ambienta em 2015) e imaginar como ele estaria surpreso com coisas que ele não previu, e bastante decepcionado por coisas que ainda não conseguimos. Os contos mais divertidos e os momentos mais engraçados ficam por conta de Mike Donovan e Greg Powell, funcionários da US Robots que são encarregados dos testes de protótipos. Garanto que não haverá um momento sequer de tédio nessa leitura - recomendadíssima!



Perdido em Marte
Andy Weir - Arqueiro - 2014 (2011) - 336p.

Já este é um exemplo de ficção científica com bastante ciência. O que não é ruim, em absoluto, especialmente porque ela é apresentada aqui de um jeito bem divertido, graças ao humor sensacional do protagonista, e o mais simples possível para que todos os leigos possam acompanhar. Ambientada em um futuro próximo, essa é a história do astronauta Mark Watney, tripulante de uma missão científica intencionada que durasse apenas alguns dias em Marte. Porém, uma tempestade pega a todos de surpresa, e a tripulação é obrigada a abandonar a missão. Na correria, Mark é atingido por destroços na tempestade e os outros o perdem de vista e todo o contato com ele. Certos de que ele estava morto, os demais voltaram à nave e traçaram o curso de volta para a Terra. Só que Mark estava vivo. E ficou pra trás. Sozinho. Em Marte. Graças às suas formações em Botânica e Engenharia, Watney conseguiu se virar com o que tinha a partir do equipamento que ficou pra trás e suas experiências de plantio em solo marciano. O astronauta precisa dar um jeito de sobreviver até a próxima missão chegar ao planeta, dali a quatro anos. É o tipo de livro que a gente lê e aprende muita coisa: desde tornar um solo árido em algo fértil o suficiente pra plantar batatas, passando por compor uma atmosfera respirável dispondo apenas de hidrogênio, até o processo de conseguir água para consumo e irrigação utilizando apenas os líquidos disponíveis. A história é narrada através do diário de Mark Watney e de breves interlúdios da Nasa. É uma leitura ao mesmo tempo tensa, didática e divertida. Seria interessante ter este livro em mãos na eventualidade de nos perdermos no planeta vermelho.



Os Livros Malditos
Jacques Bergier - Hemus - 1972 (1971) - 137p.

Sempre que bate aquela vontade de ler algo conspiratório e misterioso sobre o mundo, recorro aos livros da minha mãe; ela tem um bom estoque deles. Neste livro, Jacques Bergier (engenheiro químico, escritor, jornalista e espião) faz um ensaio sobre os principais livros que foram apagados da História: que livros eram, que tipo de informação perigosa continham, quem os escreveu ou de onde vieram, quem ordenou sua destruição e por quê, e no que mundo seria diferente se a humanidade tivesse acesso a eles - baseado em pesquisas de evidências e lendas. Alguns dos mais famosos são o Livro de Toth, que supostamente conteria a revelação de todos os segredos da humanidade; as publicações de John Dee, pretenso alquimista e consultor sobrenatural da família real britânica, que tinha um inexplicável conhecimento de línguas há muito mortas; as principais obras que foram perdidas com a destruição da Biblioteca de Alexandria, que foi atacada diversas vezes antes de ser finalmente obliterada do mundo; o misterioso e perigoso Excalibur, suposto livro em que se fundamenta a Cientologia; entre outros. Segundo o autor, há uma organização secular por trás da destruição de todas essas obras. O livro levanta uma certa vontade de ler tais obras e descobrir por que foram consideradas tão perigosas (algumas chegavam a enlouquecer quem as lia), mas é bastante didático e, ao mesmo tempo, bastante conspiratório. Uma leitura interessante.



E-books:

Poesia Completa de Álvaro de Campos
Fernando Pessoa - 247 S.A. - 2013 (1888-1935) - 160p.

"(...)
Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer.
(...)"  [Dactilografia]

Meu problema com Fernando Pessoa é que, sempre que leio algo dessa cabeça genial e triste, quero ser irritante e postar citações em todos os lugares. Tudo faz sentido. Tudo parece uma situação de "senta aqui, Manu, vamos conversar", enquanto uma mão me consola pela tristeza, com o discurso de "eu sei bem como é", e a outra aponta para o mundo e pragueja contra a humanidade pela sua indiferença e futilidade. Adoro Fernandão! Esta publicação reúne todos os poemas que ele escreveu sob a personalidade Álvaro de Campos, e tem quase todos os meus favoritos: Lisbon revisited (1923)Estou cansado, Na noite terrível, Poema em linha reta, Se te queres (mas esse é perigoso, cuidado com ele). Infelizmente, o texto do arquivo está corrido, e não separado em versos - apesar dos marcadores de quebra de linha; mas está em domínio público e pode ser adquirido gratuitamente em qualquer plataforma!




Poesia Completa de Alberto Caeiro
Fernando Pessoa - Nostrum- 2013 (1888-1935) - 264p.




Considera-se Alberto Caeiro a maior das personalidades de Fernando Pessoa: um homem simples, sem instrução, mas grande admirador da natureza pelo que ela é, sem qualquer associação filosófica à existência das coisas. Esta edição compila tudo o que Pessoa escreveu sob este heterônimo, principalmente O Guardador de Rebanhos, que compôs em uma única noite de insônia. Caeiro não é meu favorito (Álvaro de Campos está no topo, pra mim), mas alguns dos meus poemas favoritos de Fernando Pessoa foi escrito sob o nome dele: Se eu morrer novo; Falas de civilização, e de não dever ser e o capítulo XXIX do próprio O Guardador de Rebanhos.








HQ:


Os heróis mais poderosos da Marvel: Wolverine. Eu achando que a Panini tava me falindo, aí chega a Salvat e me quebra as pernas. Mal consigo pegar meus favoritos da coleção de clássicos, eles vão e lançam outra coleção de luxo! O primeiro fascículo foi dos Vingadores, bacana porque inclui a primeiríssima história deles e depois um arco com Ultron, já para preparar todo mundo para o filme. Este do Wolverine é o terceiro, e também conta com a primeiríssima aparição dele (naquele uniforme de gatinho contra o Hulk), e um arco pós-Complexo de Messias em que ele está à caça de Mística. Comprei o volume por causa desse arco, porque conta como ele conheceu a terrorista, há muitas décadas, e vai mostrando como o relacionamento entre eles foi se desenvolvendo enquanto ele morre algumas vezes no processo. Os volumes desta coleção também acrescentam um anexo com um resumão da história dos heróis em questão, apresenta o processo de criação e evolução dos personagens, e indica as leituras essenciais.