30/06/2015

Sugestões de leitura de 2015: Maio - Junho

Tô preocupantemente devagar. Não sei por quê, mas não ando conseguindo me concentrar em muita coisa, ultimamente. :(

Segue tudo o que li nos dois últimos meses. Tem de tudo um pouquinho, como sempre. Vamos lá?


▼▼▼▼▼

Stonehenge
Bernard Cornwell - Record - 2008 (2000) - 503p.

Livro que eu já tinha em casa há um tempão e que resolvi ler agora por ter sido recomendado (sim, eu levo suas recomendações a sério, por mais que eu demore :B). Os pontos que me fizeram gostar muito dele: 1) é de Bernard Cornwell, autor das Crônicas Saxônicas, que devorei ao longo dos últimos meses. O homem escreve ficções históricas como poucos, inserindo História naturalmente durante os romances, sem entediar o leitor com listas de datas e eventos. 2) É um volume só, o que anda me ganhando com facilidade, ultimamente. 3) É ambientado numa época da História da qual pouco ou nada se sabe e muito se especula: 2000 a.C., quando o homem neolítico estava entrando na Idade do Bronze. Stonehenge é um dos grandes mistérios do mundo; mas, quanto mais se estuda e pesquisa, menos se sabe sobre ele. Algumas das teorias mais difundidas, como se tratar de um templo druida, já foram derrubadas (os druidas vieram bem depois de sua construção e, provavelmente, preferiam fazer seus rituais nas florestas, não num descampado cheio de pedras). Sabe-se que o monumento foi construído bem antes do que se imagina, com várias reformas ao longo dos séculos seguintes, e até hoje estão encontrando evidências históricas nele ou na região; existem monumentos parecidos por toda a costa da Grã-Bretanha, mas o seu propósito talvez nunca seja descoberto. Neste livro, o autor sugeriu o aparecimento de um tesouro que só trouxe desgraças para o povoado de Ratharryn; a disputa pelo poder deste e outros povoados vizinhos; e o delírio de um homem a respeito da construção de um templo que traria a harmonia de volta aos deuses e, consequentemente à humanidade. Apesar de sugerir eventos sobrenaturais, é tudo muito crível e, até que se prove o contrário, essa versão pode muito bem ser bem próxima ao que realmente aconteceu. Por ser uma história que se passa ao longo de vários anos, acompanhamos bem o desenvolvimento dos personagens, e algumas vezes gostamos do que vemos, nos divertimos com alguns desígnios do destino (Saban agora me é referência de vida), nos entristecemos, surpreendemos e até detestamos outras coisas (e pessoas, especialmente pessoas). E é muito interessante ver os costumes e tradições e cultos que o autor inventou para o povo da época só a partir dos poucos pedaços de coisas que os arqueólogos encontraram por lá. Especialmente a explicação que ele dá para a viagem das pedras, que vieram de tão longe do local de construção, todo o processo de modelagem e polimento delas, a construção do monumento e como raios eles fizeram pra colocar os linteis lá em cima sem guincho! 




Star Wars: A trilogia
George Lucas, Donald F. Glut e James Kahn - Darkside - 2014 (1976, 1980, 1983) - 528p.


É mais uma encadernação lindíssima da Darkside e, por ela, vale cada centavo pra quem quer tê-la na estante ou na coleção Star Wars - mas, por mais que eu goste da saga e esteja empolgada com o novo filme, como todo mundo está, esse foi um livro que eu "empurrei com a barriga" até chegar à terceira parte. O volume reúne os roteiros lançados em livro na ocasião do lançamento de cada um dos filmes da trilogia clássica (Episódio IV: Uma Nova Esperança, Episódio V: O Império Contra-Ataca e Episódio VI: O Retorno de Jedi), então não é como acontece quando um filme é baseado em um livro - ou seja, não tem nada diferente aqui: não tem novidade, não tem nada que tenha ficado de fora, até os diálogos são os mesmos. Ainda, por não se tratar de literatura propriamente dita, fica sempre aquela sensação de que algumas coisas poderiam ter sido narradas de jeito diferente - a impressão constante que eu tive lendo ele é que tudo é simplesmente a narração exata do que está acontecendo nos filmes: fulano pegou isso e fez aquilo no lugar tal, e aí falou algo pro beltrano e eles juntos foram fazer tal coisa". Com exceção da terceira parte, que diferencia bastante das outras duas (até se deram ao trabalho de colocar as "falas" do Chewbacca e do R2-D2 :P), não tem desenvolvimento de narrativa, não tem um vislumbre do que eles estão pensando, não tem nem uma descrição melhor de algumas coisas - ou seja, pra quem não chegou a ver os filmes, só a menção a algumas criaturas e lugares pode dar uma ideia bem vaga de como eles são. E, pra finalizar, um detalhe de formatação que talvez só tenha irritado a mim: os diálogos com aspas em vez de travessões. Não sei se é padrão da editora ou se foi escorregão dos tradutores e duplo-escorregão dos revisores, mas, aqui no Brasil, a norma para diálogos é travessão. As aspas são usadas em outros países, mas, aqui, somente quando é continuação de diálogo em parágrafo diferente ou quando indica pensamento (gente, eu sou tradutora, eu preciso saber dessas coisas). Até eu me acostumar que os diálogos todos começavam por aspas, eu não conseguia evitar pensar que os personagens conversavam por telepatia. Pra quem tá acostumado a ler tanto há tantos anos, simplesmente terrível. A Força não esteve comigo o tempo todo, mas espero que esteja com vocês.




O Homem Bicentenário
Isaac Asimov - L&PM - 2003 (1985) - 118p.

Na década de 1970, Asimov foi convidado a escrever outra antologia sobre robôs para a comemoração do bicentenário da independência dos Estados Unidos. Desde que publicou os contos de Eu, Robô ele nunca realmente parou, e, a cada conto que escrevia, seus robôs iam ficando mais e mais complexos. O que era pra ter 7.500 palavras acabou rendendo o dobro, mas o projeto acabou sendo cancelado. Ainda assim, Asimov nos presenteou com O Homem Bicentenário, a emocionante história do autômato Andrew que, por uma falha na fabricação do cérebro positrônico, descobriu que tinha sensíveis habilidades artísticas. Andrew é propriedade da família Martin, com quem ficou por duzentos anos, e de quem sempre recebeu afeição e respeito. Mas, quanto mais os anos passavam e os membros queridos da família iam partindo, mais Andrew decidiu que queria ser humano. Vamos, então, acompanhando o autômato ao longo das décadas em busca da sua humanidade, vemos suas transformações e suas lutas em busca de direitos e justiça, suas contribuições e suas perdas. Tão breve e tão emocionante...! Essa edição ainda conta com o conto Círculo Vicioso, também presente em Eu, Robô, que é o que nos apresenta as famosas Três Leis da Robótica e os sensacionais testadores de protótipos, Mike Donovan e Greg Powell.



Os Intemporais
Robert Silverberg - Panorama - 1968 (1967) - 175p.

Um presente do querido amigo Edison, que o leu, releu e recomendou por conhecer meu gosto por ficção científica e viagens no tempo. Obrigada mais uma vez, Edison, acertou em cheio! A Terra do século XXV está superlotada e em caos absoluto. A vida está tão insustentável - ditadura, desemprego, racionamento, apatia - que a solução que algumas pessoas encontraram foi, através de um procedimento ilegal envolvendo uma máquina do tempo, voltar a séculos passados para conhecer outras épocas e viver uma vida mais fácil. Quellen, nosso protagonista, é funcionário do Governo e está encarregado de investigar os Saltadores (como são chamadas as pessoas que fizeram a viagem), quem está no comando dessa operação e, sempre que possível, impedir que essas pessoas viajem. Entretanto, sua vida no presente também é insatisfatória e ele mesmo tem segredos perigosos que podem ser usados contra ele. No decorrer das investigações de Quellen, somos impelidos a refletir sobre o possível impacto que uma pessoa fora de sua época pode exercer na história da humanidade. Enquanto alguns Saltadores viveram e morreram no passado sem grande alarde, alguns usaram de conhecimento avançado do futuro para alterar ou introduzir aspectos à História que foram responsáveis por grandes realizações da humanidade e que não podem ser, portanto, impedidas ou desfeitas. Os vislumbres do autor sobre o século XXV também são interessantes, apesar de bem pessimistas (realistas?); especialmente no que concerne a divisão hierárquica da classe trabalhadora e os costumes culturais e religiosos da humanidade de então. Reflexivo, tenso e também emocionante - passo adiante a recomendação.



Sandman: O livro dos sonhos
V.A. - Conrad - 2004 (2001) - 180p.

Aproveitando-se do vasto Universo e a gama de personagens criados por Neil Gaiman para Sandman, vários autores (conhecidos ou nem tanto) lançaram suas histórias para, de alguma forma, complementar a obra. A coletânea de nove contos foi organizada pelo próprio Gaiman, que nos introduz aos autores e nos situa em que parte de Sandman a história se ambienta. O clima é geralmente surreal, como todos que lemos os quadrinhos estamos familiarizados. Há, inclusive, uma nota na aba com uma recomendação dizendo que não é necessário ter lido Sandman para acompanhar este livro, do que discordo. Justamente por ser meio surreal, não ter familiaridade com a obra ou os personagens pode tornar tudo bem confuso. Não obstante, meus favoritos foram Mais Forte que o Desejo, uma bela história sobre uma aposta com o andrógino Eterno, cuja moral muito me agradou; o perturbado Cada Coisa Úmida, com Caim e Abel e uma boa visão do funcionamento do Sonhar; o tenso Derramamento, que se ambienta em Sandman 14: Colecionadores, um dos meus favoritos; e Um Pouco Mais de Eternidade, com a sensacional Wanda e um final que foi sacanagem, hahah. Como ponto baixo, só reclamo (novamente) dos diálogos com aspas...



As Esganadas
Jô Soares - Companhia das Letras - 2011 - 262p.

Uma amiga o leu, gostou muito e me emprestou com suas recomendações. Até então eu nunca tinha lido nada do Jô, por mais recomendado que já me tivesse sido, e li As Esganadas rapidinho. A trama é ambientada em 1938, no começo do Estado Novo de Getúlio Vargas. Um serial killer está à solta no Rio de Janeiro, e suas vítimas não têm nenhuma ligação a não ser dividirem o padrão do tipo físico bem acima do peso. O assassino de gordas e sua motivação já são apresentados logo no começo da história, então vamos acompanhando sua caçada, seus métodos de execução, e a investigação atrapalhada do mal-humorado delegado Mello Noronha e do ex-policial lusitano Tobias Esteves, que foi amigo de Fernando Pessoa e há anos é dono de uma rede de confeitarias no Rio. As partes cômicas do livro ficam por conta justamente desses dois e mais o simplório auxiliar Calixto, que mal e mal se entendem por causa das interessantes diferenças linguísticas entre um Português e o outro. A história também é permeada por acontecimentos históricos da época, que acrescentam algo ao enredo. É uma leitura fácil e bem divertida, com um final um tanto previsível, mas que garante umas risadas.




e-book:


Eu e Outras Poesias
Augusto dos Anjos - Nostrum - 2014 (1912) - 344p.

[...] 
A cor do sangue é a cor que me impressiona 
E a que mais neste mundo me persegue! 

Essa obsessão cromática me abate. 
Não sei por que me vêm sempre à lembrança 
O estômago esfaqueado de uma criança 
E um pedaço de víscera escarlate.
[...]

- As Cismas do Destino

Aproveito o Kindle para dar atenção especial a clássicos e poesias. Bom, falar em poesia sempre remete a versos de amor, mas acho que vocês já perceberam que tipo de poesia eu acabo escolhendo pra ler. Augusto dos Anjos foi um poeta pré-modernista paraibano, daqueles que a gente foi obrigado a estudar na escola e nunca deu a devida atenção. Ele chocou muita gente com seus versos pessimistas e violentos sobre morte e desumanização, e o uso de palavras e expressões bastante tétricas - tanto que só começou a vender de fato após sua morte precoce, aos 30 anos, graças a uma pneumonia. Suas primeiras poesias são pesadas e um tanto complicadas, especialmente porque o poeta usa muita terminologia científica para suas metáforas e rimas. Entretanto, sua obra posterior, embora ainda melancólica, lida com mais leveza acerca dos mesmos assuntos, e até existem poesias sobre o amor e os bons sentimentos da vida. De todas, as minhas favoritas são Psicologia de um Vencido, talvez sua mais conhecida; Soneto (um dos muitos de mesmo nome), uma poesia perturbadora escrita para seu filho natimorto; Versos Íntimos (o famoso "Apedreja essa mão vil que te afaga/ Escarra nessa boca que te beija!"); À Mesa; e várias outras. 




Didáticos:

Comportamento Animal: Uma introdução à ecologia comportamental
Kleber Del-Claro - Conceito - 2004 - 132p.

Quando entrei para a faculdade de Biologia, há 10 anos, meu interesse maior no estudo da vida era a Genética. Entretanto, depois de me familiarizar com as demais ramificações, me descobri apaixonada por Zoologia e Evolução. Ambas disciplinas lidam com comportamento animal, então decidi que voltaria meu estudo pós-acadêmico a isso - o que, infelizmente, não deu, mas fiz alguns cursos de curta duração a respeito e nunca realmente perdi o interesse pelo assunto. Recentemente, voltei a buscar informações sobre cursos e material e acabei encontrando este guia de introdução, que achei bem conveniente e suficiente pra minha vontade de aprender mais. O autor é um etologista de destaque no nosso país e compilou aí tudo o que um iniciante, amador ou profissional, precisa saber, ter e fazer para observar o comportamento animal - tudo de maneira bem simples de acompanhar, divertida e incentivadora. Ele lista e explica o passo-a-passo da observação em campo, nos recomenda a literatura básica e o tipo de equipamento e ferramentas que precisamos dominar, exemplifica casos e ensina os termos corretos. Aprendi muito e fiquei com ainda mais vontade de me jogar de volta na biologia!



O Jeito Que a Gente Diz
Stella E. O. Tagnin - Disal - 2013 - 222p.

Comprei há um tempo como material de consulta, mas resolvi pegar esse material de consulta pra ler de cabo a rabo porque, afinal, preciso saber exatamente onde consultar. Este é um livro de linguística que compila e explica muitas expressões consagradas em inglês e português (com alguns exemplos, ainda, em espanhol, alemão, italiano e francês). O domínio das expressões idiomáticas é importante para quem deseja adquirir fluência em uma língua estrangeira e também para quem trabalha com elas - como nós, professores e tradutores. Há, ainda, um capítulo muito instrutivo sobre a Linguística de Corpus, que é uma ferramenta utilíssima para tradutores (embora ainda me seja uma espécie de inferno pessoal). Cada capítulo é encerrado por sugestões de exercícios trabalhosos, voltados a aprimorar ainda mais o que foi aprendido. Finalmente, o livro termina com um apêndice bastante abrangente com as expressões inglesas e portuguesas em ordem alfabética para consulta rápida; um vocabulário de termos linguísticos; um anexo com exemplos nas outras línguas citadas; e a bibliografia recomendada para mais estudos - afinal, engana-se quem pensa que alguns anos de cursinho deixa qualquer um fluente...



HQ:

Eternos, de Neil Gaiman e John Romita Jr. Baseados nas mitologias antigas, os Eternos foram personagens criados por Jack Kirby para a Marvel ainda nos anos 1970, mas a ideia não pegou e o título foi cancelado ainda no começo. Talvez a premissa de "deuses astronautas" tenha sido demais para o público da época, então Eternos, Celestiais e Deviantes foram engavetados por mais de 30 anos - até Neil Gaiman chegar e resolver dar uma trabalhada nisso. Esse volume da Salvat reúne as 7 edições da minissérie escrita por Gaiman e começa apresentando o estudante de medicina Mark Curry, que tem sua rotina interrompida pelo aparecimento de um misterioso homem que não podia morrer. Logo, somos apresentados à informação de que a humanidade foi instruída durante a História por cem Eternos, seres imortais, poderosos e milenares. Tais seres foram criados pelos Celestiais, extraterrestres que têm acompanhado a evolução da Terra por motivos incertos, e que também criaram os Deviantes - seres monstruosos e muito mais numerosos, que se disfarçam entre nós. Entretanto, por motivos até então desconhecidos, os Celestiais não se lembram mais de quem são e estão na Terra vivendo entre os humanos e levando vidas ordinárias... Só que eles precisam se lembrar, porque algo terrível está para acontecer. Muito legal e quero mais.

17/06/2015

Vier Mauern



ABERTURA.

"Alguma coisa existe que não aprecia o muro."



A PRIMEIRA PAREDE.

Tento imaginar quem construiu a primeira parede. O que ele tinha em mente. Ou ela. Proteção? Privacidade? Ou outra coisa.

Construímos nossas civilizações com paredes, que nos dão abrigo e fortaleza. Mantêm distantes "os outros": as intempéries, os animais selvagens, as pessoas que são diferentes. Ao nos dividirem, as paredes nos definem.

As paredes separam as pessoas; e não só as paredes que construímos. Talvez as mais assustadoras sejam aquelas que não somos capazes de ver, mas em cuja existência acreditamos.



A SEGUNDA PAREDE.

Eu tive um sonho a respeito disso quando era pequeno.

No meu sonho havia uma nota, uma nota musical, um som; e quando ela era tocada todas as paredes começavam a ruir. E todas as pessoas de todos os lugares podiam ver...

Podiam ver umas às outras, fazendo as coisas que as pessoas fazem entre quatro paredes. Ninguém tinha mais onde se esconder.

Então acordei, e nunca soube se não ter nenhuma parede era uma coisa boa ou ruim. Não ter onde se esconder, poder ir a qualquer lugar, sem fingimento, sem proteção, sem segredos.



A TERCEIRA PAREDE.

Disseram-me que a Grande Muralha da China é a única construção humana na superfície da Terra que pode ser vista do espaço.

Eu nunca vi a Terra do espaço. Não conheço ninguém que tenha feito isso.

Só vi as fotografias.

Disseram-me que, daquela distância, é muito difícil diferenciar um país do outro. Era de esperar que eles fossem coloridos, como nos velhos mapas da escola.

Assim todos diferenciariam.



A QUARTA PAREDE.

Quando ouvi dizer que o muro de Berlim caíra, minha primeira reação foi de alívio; mas então pensei: e se existisse uma jovem que passou anos - metade de sua vida - pintando naquele muro?

Pintando uma mensagem, ou uma imagem.

Se todas as manhãs ela se levantasse bem cedo, fosse até lá e pintasse um ou dois traços no muro. Todos os dias, na chuva, no frio, às vezes até no escuro. Era o seu grito contra a opressão. Seu protesto contra o muro.

Ela estava quase terminando quando tudo foi demolido.
As pessoas poderiam ir e vir livremente. O muro contra o qual ela protestava não existia mais, assim como sua criação, desfeita em pedaços, vendida a um colecionador particular...

Tento imaginar como ela se sentiu. Espero que não tenha ficado desapontada.

Eu teria ficado.



ENCERRAMENTO.

Talvez devêssemos olhar além das paredes.

Escutem: pintores, escritores, músicos, cineastas e grafiteiros que pintam frases que brotam como flores luminosas nas laterais de construções abandonadas - todos vocês.

Existe uma quarta parede a ser demolida.
Governos e autoridades vivem afirmando que boas cercas fazem bons vizinhos, e aumentam a vigilância nas fronteiras em um esforço para nos deixar felizes da maneira como estamos.

Mas alguma coisa existe que não aprecia o muro, e seu nome é humanidade.





► Neil Gaiman (com arte de Dave McKean, no original). Publicado originalmente em Breakthrough (1990); retirado aqui de Sinal e Ruído (2011, Conrad), traduzido por Alexandre Boide.

11/06/2015

O Dia dos Namorados e a visão de romance por uma assexual arromântica



Vejo que isso vem mudando lentamente, mas, como regra geral, todo mundo é naturalmente criado e tratado como heterossexual (e, consequentemente, heterorromântico). Eu, claro, cresci com essa absoluta certeza e não questionei isso até meados dos meus 20 anos. Até então, achei que eu só era mais "devagar" pra certas coisas, mesmo. Mas vamos ter que voltar um pouco e compartilhar informação demais.

Como expliquei na página de educação e visibilidade, o fato das orientações sexual e romântica serem coisas separadas e muitas vezes não serem correspondentes é o que mais confunde quem demora a "sair do armário". Eu mesma ainda me vejo questionando ambas, embora esteja convencida de que estou, ao menos, em algum espectro de ambas (confira a página mencionada). Não posso falar por todos os assexuais arromânticos porque, obviamente, cada pessoa é diferente da outra e as coisas são diferentes pra todo mundo. Então vou falar por mim.

Embora só tenha percebido isso recentemente, desde a adolescência eu mal tive interesse em acompanhar as amigas e colegas nos dramas hormonais comuns da idade. Achei que era porque eu demoraria mais um pouco, o que é perfeitamente natural, então vê-las se desesperando pelos meninos, matando aula pra encontrá-los, fazendo listas de quem já tinham "pegado" e as comparando entre elas me parecia esquisito e avançado demais pra minha cabeça. E aí, ao ver que isso me excluía cada vez mais das panelinhas, eu comecei a inventar "estar a fim" de alguém, só pra ter assunto com elas. Mal sabia eu que ficaria inventando isso por um bom tempo.




O passar dos anos não mudou muita coisa. Passei pelo malfadado ensino médio na mesma e terminei a escola finalmente achando que tinha algo errado comigo. Já na faculdade, um professor, tentando se enturmar com os alunos, começou a perguntar quais características físicas do sexo oposto mais atraíam cada um, e eu não consegui responder. Eu certamente achava muita gente bonita, mas nunca conseguia achar certo tentar ver corpos como coisas a serem conquistadas. Ver os outros fazendo parecia muito natural, mas era como se eu estivesse assistindo a uma novela, em que tudo é muito normal do outro lado da tela, mas que não tivesse possibilidade de acontecer do lado de cá, como se fosse um roteiro escrito pra outras pessoas e eu fosse só espectadora. E, tal como novelas, não me interessava.




Então fui adotando desculpas pra justificar meu comportamento. Eu dizia que estava me dedicando a coisas que precisavam de toda a minha atenção, ou que eu não gostava de ninguém que se interessava por mim, ou que eu já estava comprometida com alguém de outra cidade (!!). E então começaram a dizer que eu era exigente demais e que ia morrer sozinha, e eu pensava que isso era absurdo, porque o "problema" era eu não ter absolutamente exigência nenhuma!



É importante esclarecer (caso alguém que me conheça esteja lendo e estranhe algumas coisas) que, apesar de inventar grande parte das situações, já achei estar realmente ~apaixonada~. Na verdade, como descobri posteriormente, eu tinha pelos caras o que a comunidade arromântica chama de squish (não tem termo em português): o desejo de que alguém seja mais próximo, ou o desejo de intimidade sem romance.


E foi a essas alturas que começaram a rolar boatos, pelas minhas costas, de que eu seria homossexual. Quando eventualmente descobri, a primeira reação foi ficar bem ofendida. Não que haja qualquer coisa errada em ser homossexual, mas porque aquilo não fazia o menor sentido (as pessoas achavam que a minha irmã era minha namorada!) e ninguém, absolutamente ninguém tem o direito de rotular outra pessoa de acordo com os próprios conceitos. Só que passei anos seguintes ouvindo a mesma teoria de um monte de conhecidos e acabei me questionando. Talvez o meu "bloqueio" com relacionamentos fosse porque eu realmente não ligasse de verdade pra homens e só achasse que deveria. O que é 50% da verdade porque, após breve retrospectiva e introspecção, eu percebi que nunca me interessei por mulheres, também.

Bom, ter percebido isso não tornou nada mais fácil. Me convenci de que havia realmente algo de errado comigo e comecei a me odiar e pensar as piores coisas a meu respeito. E aí, bem por acaso, tropecei em um artigo sobre assexualidade. Pra ser bem clichê, foi como se tivessem tirado um véu da frente dos meus olhos. Por mais que eu já soubesse como me sentia e tivesse isso bem definido, eu não sabia que eu podia ser desse jeito e que milhões de outras pessoas também são assim!




A partir daí, li e entendi muitas coisas a respeito de mim mesma, e, pela primeira vez em anos, me senti aliviada e normal.

Entretanto...



... Ainda não ficou mais fácil.

Por mais que eu tenha conhecido outras pessoas iguais a mim, tenha me aconselhado muito com gente sensacional e tenha desencanado da ideia de ter "obrigações" a cumprir perante a sociedade, ainda passo a maior parte do tempo incomodada. Não mais comigo, mas com tudo o que me cerca.

Tudo à nossa volta nos diz que a vida se resume a encontrar a pessoa certa - o que fazer para encontrá-la, como fazer para mantê-la, como fazer para sê-la. Gostar de estar/ser solteiro é visto como medo de compromisso ou incapacidade de atrair alguém interessante. Filmes, livros, novelas, revistas, comerciais, tudo nos obriga a ver a conquista romântica e/ou sexual como uma passagem obrigatória na vida de todo ser humano - e, se uma dessas coisas não for alcançada, você está falhando como ser humano, deve se sentir mal a respeito e tentar mais.

É irritante. Ninguém gosta de se sentir errado e obrigado a fazer coisas que não tem interesse em fazer. É igual a quando Testemunhas de Jeová vêm bater à nossa porta. Sim, é exatamente igual. É uma comparação perfeita pra que vocês entendam como a gente se sente. É ter Testemunhas de Jeová batendo à sua porta todos os dias, o dia inteiro, se infiltrando na sua roda de amigos, na internet, na TV.




Meu sentimento a respeito de romance e sexo é fluido. Vai de curiosidade a vontade, mas na maior parte das vezes eu sou só indiferente a tudo. Entretanto, quando sou sobrecarregada por convivência ou informação, tendo à aversão - especialmente no que diz respeito a romance. Embora adore umas músicas melosinhas e brinque chamando alguns artistas de meus "maridos", evito os filmes e livros do estilo porque não tenho a menor paciência pra acompanhar o amor alheio. Nem pessoalmente gosto muito de acompanhar casais - até porque sou sempre quem segura a vela e, sinceramente, haja saco pra ficar de lado o tempo todo. Analiso relacionamentos de uma maneira diferente e, com base nos vários que já testemunhei e nos "interesses amorosos" que me apareceram, tenho uma visão um tanto pessimista a respeito deles. É o motivo pelo qual geralmente não os ambiciono.

Assim sendo, quando chega essa época de Dia dos Namorados, minha aversão sobe exponencialmente. Absolutamente tudo à nossa volta fica em função disso, então é como se eu estivesse dentro de uma convenção internacional de Testemunhas de Jeová. E, pior do que a irritação, bate também aquele momento de questionamento e frustração ("Será que eu não devia querer?"), tudo ao mesmo tempo.

As pessoas que convivem comigo já sabem que eu sempre fui assim, mas quem está sabendo agora deve pensar que eu odeio todo mundo. Eu não odeio todo mundo (sério, eu digo que sim, mas não odeio! hahahah). Eu sou, na verdade, bastante carinhosa e é isso que me complica um pouco. Gosto de estar por perto e fazer companhia, desejo proximidade de algumas pessoas que estão longe e companhia de quem está perto, sinto ciúme de quem me é próximo, sinto saudade de quem sumiu. Enfim, sou tipo um ser humano, mesmo.


"Ter seus amigos como prioridade, e eles terem seus parceiros como a deles"

Era isso. É assim que eu encaro a vida, o universo e tudo o mais. Como eu disse antes, nem todos nós vemos as coisas desse jeito (alguns assexuais arromânticos são casados há anos e conseguem lidar muito bem com tudo, e outros têm uma repulsa tão forte que receber um toque ou ver duas pessoas se beijando é o suficiente pra deixá-las fisicamente mal), e há também pessoas de outras orientações que têm o comportamento semelhante. E é tudo absolutamente normal e ninguém tem nada a ver com isso.


lembrete importante:

Orientação é ATRAÇÃO, não COMPORTAMENTO.



Não tenho intenção nenhuma de, com esse texto, ditar regras de boa convivência com as minorias. Eu não ligo se tiver que passar o resto da vida me irritando com as mesmas coisas que me irritam desde sempre - só preciso ser mais tolerante e tentar continuar indiferente. Mas, agora, quando vocês virem as capas das revistas anunciando técnicas para "enlouquecer o seu homem na cama", lembrem das Manus do mundo todo que batem o olho na mesma capa e pensam: "aposto como eles ficariam loucos se eu comesse na cama e deixasse os farelos por tudo"

Um Dia dos Namorados divertido a todos que vão comemorá-lo! Só me desculpem se eu não curtir as fotos e tal. 

:*




p.s.: um pedido de desculpas às Testemunhas de Jeová pela falta de comparação melhor.

02/06/2015

Baratas não sobreviveriam a uma guerra nuclear. Tardígrados, sim.

"Tard- o quê?", vocês me perguntam.

Amigos: a partir desse momento, jamais ignorem a existência dos tardígrados. Esses bichos ainda vão dominar a Terra. E, talvez, toda a porcaria do Universo.


Copyright da imagem: Nicole Ottawa & Oliver Meckes / Eye of Science / Science Source Images


  • Ok. Nem é tão feio. Por que preciso ter medo dele?


Bom, versão resumida: porque ele é praticamente imortal.

Estudos comprovaram que os tardígrados sobrevivem bastante bem em qualquer ambiente, inclusive nos de condições mais extremas. Já se sabe que eles aguentam de boa desde o zero absoluto (que equivale a -272°C) até 151°C, bem como aguentam uma pressão até seis vezes maior do que a dos pontos mais fundos dos oceanos, e também níveis de radiação centenas de vezes maiores do que é letal para seres humanos. Ah, e também aguentam o vácuo do espaço sem qualquer tipo de proteção (sério, mandaram os bichos pro espaço). Foi após essa constatação que surgiu a teoria de que esse animal teria origem fora do planeta e se estabeleceu aqui.

E... Eles também aguentam ficar sem água e comida por mais de 10 anos (sim, você leu anos). Tardígrados preferem ambientes úmidos, mas aguentam bem os ambientes secos, também. Eles dão um jeito de se desidratar e entram em uma espécie de "hibernação", da qual acordam com uma única gota d'água (esse é truque que eles usam pra aguentar as baixas temperaturas e os níveis de radiação). Existe registro de um espécime que ficou nesse estado de hibernação por 120 anos. Pois é.


  • Certo, já tô com medo. Que tamanho tem esse bicho?!


Para nossa alegria, os tardígrados são basicamente microscópicos. Existem mais de mil espécies deles - a menor não passa de 0,1 mm e a maior atinge, no máximo 1,5 mm. Aquela imagem ali acima foi obtida com microscópio eletrônico - é um tardígrado passeando serelepe no musgo.


  • Musgo... Isso significa que eles comem plantinhas... Certo?


Bom... também. Eles se alimentam de células vegetais e algas, às vezes bactérias, mas algumas espécies são predatórias (elas só comem alguns invertebrados pequenos). Nós estamos provavelmente salvos de um apocalipse tardígrado, mas, se eles fossem maiores, imagino que a gente deveria se preocupar.


Fonte: Inquisitr


  • E onde eu encontro esses tardígrados, pra montar o meu exército?


Em todo lugar, literalmente. Eles estão no Himalaia (a 6 km de altitude), no fundo dos oceanos (a 4 km de profundidade), nos polos glaciais e nas regiões equatoriais. Procurem por eles em musgos e líquens, que é onde eles gostam mais de ficar pra comer, mas também dá pra encontrá-los em dunas, praias, em terra ou sedimentos de água salgada ou doce. 




pior que é até fofo



O nome tardígrado é um aportuguesamento do nome do filo a que os bichos pertencem, que, em latim, significa "passo lento"; mas também são conhecidos como ursos-d'água (porque se movem como ursos e até parecem com um... Se ursos tivessem oito patas). Foram descobertos em 1773, mas evidências fósseis os colocam na era Cambriana - 530 milhões de anos atrás. Se não estiverem no estado de hibernação mencionado mais acima, tardígrados só vivem algumas semanas. 














Fontes: Wikipedia | NASA: Astronomy Picture of the Day | Today I Found Out



*E, não, baratas não sobreviveriam a uma guerra nuclear. Elas aguentam 10 vezes mais radiação do que a gente, mas é só isso. Outros insetos, inclusive, aguentam bem mais.