11/06/2015

O Dia dos Namorados e a visão de romance por uma assexual arromântica



Vejo que isso vem mudando lentamente, mas, como regra geral, todo mundo é naturalmente criado e tratado como heterossexual (e, consequentemente, heterorromântico). Eu, claro, cresci com essa absoluta certeza e não questionei isso até meados dos meus 20 anos. Até então, achei que eu só era mais "devagar" pra certas coisas, mesmo. Mas vamos ter que voltar um pouco e compartilhar informação demais.

Como expliquei na página de educação e visibilidade, o fato das orientações sexual e romântica serem coisas separadas e muitas vezes não serem correspondentes é o que mais confunde quem demora a "sair do armário". Eu mesma ainda me vejo questionando ambas, embora esteja convencida de que estou, ao menos, em algum espectro de ambas (confira a página mencionada). Não posso falar por todos os assexuais arromânticos porque, obviamente, cada pessoa é diferente da outra e as coisas são diferentes pra todo mundo. Então vou falar por mim.

Embora só tenha percebido isso recentemente, desde a adolescência eu mal tive interesse em acompanhar as amigas e colegas nos dramas hormonais comuns da idade. Achei que era porque eu demoraria mais um pouco, o que é perfeitamente natural, então vê-las se desesperando pelos meninos, matando aula pra encontrá-los, fazendo listas de quem já tinham "pegado" e as comparando entre elas me parecia esquisito e avançado demais pra minha cabeça. E aí, ao ver que isso me excluía cada vez mais das panelinhas, eu comecei a inventar "estar a fim" de alguém, só pra ter assunto com elas. Mal sabia eu que ficaria inventando isso por um bom tempo.




O passar dos anos não mudou muita coisa. Passei pelo malfadado ensino médio na mesma e terminei a escola finalmente achando que tinha algo errado comigo. Já na faculdade, um professor, tentando se enturmar com os alunos, começou a perguntar quais características físicas do sexo oposto mais atraíam cada um, e eu não consegui responder. Eu certamente achava muita gente bonita, mas nunca conseguia achar certo tentar ver corpos como coisas a serem conquistadas. Ver os outros fazendo parecia muito natural, mas era como se eu estivesse assistindo a uma novela, em que tudo é muito normal do outro lado da tela, mas que não tivesse possibilidade de acontecer do lado de cá, como se fosse um roteiro escrito pra outras pessoas e eu fosse só espectadora. E, tal como novelas, não me interessava.




Então fui adotando desculpas pra justificar meu comportamento. Eu dizia que estava me dedicando a coisas que precisavam de toda a minha atenção, ou que eu não gostava de ninguém que se interessava por mim, ou que eu já estava comprometida com alguém de outra cidade (!!). E então começaram a dizer que eu era exigente demais e que ia morrer sozinha, e eu pensava que isso era absurdo, porque o "problema" era eu não ter absolutamente exigência nenhuma!



É importante esclarecer (caso alguém que me conheça esteja lendo e estranhe algumas coisas) que, apesar de inventar grande parte das situações, já achei estar realmente ~apaixonada~. Na verdade, como descobri posteriormente, eu tinha pelos caras o que a comunidade arromântica chama de squish (não tem termo em português): o desejo de que alguém seja mais próximo, ou o desejo de intimidade sem romance.


E foi a essas alturas que começaram a rolar boatos, pelas minhas costas, de que eu seria homossexual. Quando eventualmente descobri, a primeira reação foi ficar bem ofendida. Não que haja qualquer coisa errada em ser homossexual, mas porque aquilo não fazia o menor sentido (as pessoas achavam que a minha irmã era minha namorada!) e ninguém, absolutamente ninguém tem o direito de rotular outra pessoa de acordo com os próprios conceitos. Só que passei anos seguintes ouvindo a mesma teoria de um monte de conhecidos e acabei me questionando. Talvez o meu "bloqueio" com relacionamentos fosse porque eu realmente não ligasse de verdade pra homens e só achasse que deveria. O que é 50% da verdade porque, após breve retrospectiva e introspecção, eu percebi que nunca me interessei por mulheres, também.

Bom, ter percebido isso não tornou nada mais fácil. Me convenci de que havia realmente algo de errado comigo e comecei a me odiar e pensar as piores coisas a meu respeito. E aí, bem por acaso, tropecei em um artigo sobre assexualidade. Pra ser bem clichê, foi como se tivessem tirado um véu da frente dos meus olhos. Por mais que eu já soubesse como me sentia e tivesse isso bem definido, eu não sabia que eu podia ser desse jeito e que milhões de outras pessoas também são assim!




A partir daí, li e entendi muitas coisas a respeito de mim mesma, e, pela primeira vez em anos, me senti aliviada e normal.

Entretanto...



... Ainda não ficou mais fácil.

Por mais que eu tenha conhecido outras pessoas iguais a mim, tenha me aconselhado muito com gente sensacional e tenha desencanado da ideia de ter "obrigações" a cumprir perante a sociedade, ainda passo a maior parte do tempo incomodada. Não mais comigo, mas com tudo o que me cerca.

Tudo à nossa volta nos diz que a vida se resume a encontrar a pessoa certa - o que fazer para encontrá-la, como fazer para mantê-la, como fazer para sê-la. Gostar de estar/ser solteiro é visto como medo de compromisso ou incapacidade de atrair alguém interessante. Filmes, livros, novelas, revistas, comerciais, tudo nos obriga a ver a conquista romântica e/ou sexual como uma passagem obrigatória na vida de todo ser humano - e, se uma dessas coisas não for alcançada, você está falhando como ser humano, deve se sentir mal a respeito e tentar mais.

É irritante. Ninguém gosta de se sentir errado e obrigado a fazer coisas que não tem interesse em fazer. É igual a quando Testemunhas de Jeová vêm bater à nossa porta. Sim, é exatamente igual. É uma comparação perfeita pra que vocês entendam como a gente se sente. É ter Testemunhas de Jeová batendo à sua porta todos os dias, o dia inteiro, se infiltrando na sua roda de amigos, na internet, na TV.




Meu sentimento a respeito de romance e sexo é fluido. Vai de curiosidade a vontade, mas na maior parte das vezes eu sou só indiferente a tudo. Entretanto, quando sou sobrecarregada por convivência ou informação, tendo à aversão - especialmente no que diz respeito a romance. Embora adore umas músicas melosinhas e brinque chamando alguns artistas de meus "maridos", evito os filmes e livros do estilo porque não tenho a menor paciência pra acompanhar o amor alheio. Nem pessoalmente gosto muito de acompanhar casais - até porque sou sempre quem segura a vela e, sinceramente, haja saco pra ficar de lado o tempo todo. Analiso relacionamentos de uma maneira diferente e, com base nos vários que já testemunhei e nos "interesses amorosos" que me apareceram, tenho uma visão um tanto pessimista a respeito deles. É o motivo pelo qual geralmente não os ambiciono.

Assim sendo, quando chega essa época de Dia dos Namorados, minha aversão sobe exponencialmente. Absolutamente tudo à nossa volta fica em função disso, então é como se eu estivesse dentro de uma convenção internacional de Testemunhas de Jeová. E, pior do que a irritação, bate também aquele momento de questionamento e frustração ("Será que eu não devia querer?"), tudo ao mesmo tempo.

As pessoas que convivem comigo já sabem que eu sempre fui assim, mas quem está sabendo agora deve pensar que eu odeio todo mundo. Eu não odeio todo mundo (sério, eu digo que sim, mas não odeio! hahahah). Eu sou, na verdade, bastante carinhosa e é isso que me complica um pouco. Gosto de estar por perto e fazer companhia, desejo proximidade de algumas pessoas que estão longe e companhia de quem está perto, sinto ciúme de quem me é próximo, sinto saudade de quem sumiu. Enfim, sou tipo um ser humano, mesmo.


"Ter seus amigos como prioridade, e eles terem seus parceiros como a deles"

Era isso. É assim que eu encaro a vida, o universo e tudo o mais. Como eu disse antes, nem todos nós vemos as coisas desse jeito (alguns assexuais arromânticos são casados há anos e conseguem lidar muito bem com tudo, e outros têm uma repulsa tão forte que receber um toque ou ver duas pessoas se beijando é o suficiente pra deixá-las fisicamente mal), e há também pessoas de outras orientações que têm o comportamento semelhante. E é tudo absolutamente normal e ninguém tem nada a ver com isso.


lembrete importante:

Orientação é ATRAÇÃO, não COMPORTAMENTO.



Não tenho intenção nenhuma de, com esse texto, ditar regras de boa convivência com as minorias. Eu não ligo se tiver que passar o resto da vida me irritando com as mesmas coisas que me irritam desde sempre - só preciso ser mais tolerante e tentar continuar indiferente. Mas, agora, quando vocês virem as capas das revistas anunciando técnicas para "enlouquecer o seu homem na cama", lembrem das Manus do mundo todo que batem o olho na mesma capa e pensam: "aposto como eles ficariam loucos se eu comesse na cama e deixasse os farelos por tudo"

Um Dia dos Namorados divertido a todos que vão comemorá-lo! Só me desculpem se eu não curtir as fotos e tal. 

:*




p.s.: um pedido de desculpas às Testemunhas de Jeová pela falta de comparação melhor.

3 comentários:

  1. Li seu texto, e particularmente não entendo como assexualidade ou qualquer coisa que o valha, entendi mais como uma falta de vontade de seguir a bosta do "padrão". Infelizmente a sociedade meio que impõe e cobra que todos sigam modelos, nos quais ninguém se adéqua, mas todos fingem se encaixar perfeitamente. E quanto mais personalidade se tem, mais a gente contesta certos paradigmas. E é aí que as pessoas aparecem e dizem "nossa, como você é esquisito/a!", não é "esquisito" é diferente, é ter opinião própria, ter gostos próprios, ou seja, ser si mesmo. Enfim, como diria Jair Rodrigues: "deixe que digam, que pensem, que falem", mas nunca deixe de ser 'esquisita'! :P

    ResponderExcluir
  2. Me identifiquei com seu texto.
    Sociedade heteronormativa sempre acabando com a mente das pessoas. Não podendo ser um pouco diferente sem se tornar alvo de criticas.
    Mas saiba que existem pessoas que realmente não ligam pra rótulos. And that's what makes you you .

    ResponderExcluir
  3. Weeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee \o/

    ResponderExcluir

Bom senso, respeito e educação são esperados e sempre bem-vindos nos comentários. Obrigada pela visita!