30/06/2015

Sugestões de leitura de 2015: Maio - Junho

Tô preocupantemente devagar. Não sei por quê, mas não ando conseguindo me concentrar em muita coisa, ultimamente. :(

Segue tudo o que li nos dois últimos meses. Tem de tudo um pouquinho, como sempre. Vamos lá?


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Stonehenge
Bernard Cornwell - Record - 2008 (2000) - 503p.

Livro que eu já tinha em casa há um tempão e que resolvi ler agora por ter sido recomendado (sim, eu levo suas recomendações a sério, por mais que eu demore :B). Os pontos que me fizeram gostar muito dele: 1) é de Bernard Cornwell, autor das Crônicas Saxônicas, que devorei ao longo dos últimos meses. O homem escreve ficções históricas como poucos, inserindo História naturalmente durante os romances, sem entediar o leitor com listas de datas e eventos. 2) É um volume só, o que anda me ganhando com facilidade, ultimamente. 3) É ambientado numa época da História da qual pouco ou nada se sabe e muito se especula: 2000 a.C., quando o homem neolítico estava entrando na Idade do Bronze. Stonehenge é um dos grandes mistérios do mundo; mas, quanto mais se estuda e pesquisa, menos se sabe sobre ele. Algumas das teorias mais difundidas, como se tratar de um templo druida, já foram derrubadas (os druidas vieram bem depois de sua construção e, provavelmente, preferiam fazer seus rituais nas florestas, não num descampado cheio de pedras). Sabe-se que o monumento foi construído bem antes do que se imagina, com várias reformas ao longo dos séculos seguintes, e até hoje estão encontrando evidências históricas nele ou na região; existem monumentos parecidos por toda a costa da Grã-Bretanha, mas o seu propósito talvez nunca seja descoberto. Neste livro, o autor sugeriu o aparecimento de um tesouro que só trouxe desgraças para o povoado de Ratharryn; a disputa pelo poder deste e outros povoados vizinhos; e o delírio de um homem a respeito da construção de um templo que traria a harmonia de volta aos deuses e, consequentemente à humanidade. Apesar de sugerir eventos sobrenaturais, é tudo muito crível e, até que se prove o contrário, essa versão pode muito bem ser bem próxima ao que realmente aconteceu. Por ser uma história que se passa ao longo de vários anos, acompanhamos bem o desenvolvimento dos personagens, e algumas vezes gostamos do que vemos, nos divertimos com alguns desígnios do destino (Saban agora me é referência de vida), nos entristecemos, surpreendemos e até detestamos outras coisas (e pessoas, especialmente pessoas). E é muito interessante ver os costumes e tradições e cultos que o autor inventou para o povo da época só a partir dos poucos pedaços de coisas que os arqueólogos encontraram por lá. Especialmente a explicação que ele dá para a viagem das pedras, que vieram de tão longe do local de construção, todo o processo de modelagem e polimento delas, a construção do monumento e como raios eles fizeram pra colocar os linteis lá em cima sem guincho! 




Star Wars: A trilogia
George Lucas, Donald F. Glut e James Kahn - Darkside - 2014 (1976, 1980, 1983) - 528p.


É mais uma encadernação lindíssima da Darkside e, por ela, vale cada centavo pra quem quer tê-la na estante ou na coleção Star Wars - mas, por mais que eu goste da saga e esteja empolgada com o novo filme, como todo mundo está, esse foi um livro que eu "empurrei com a barriga" até chegar à terceira parte. O volume reúne os roteiros lançados em livro na ocasião do lançamento de cada um dos filmes da trilogia clássica (Episódio IV: Uma Nova Esperança, Episódio V: O Império Contra-Ataca e Episódio VI: O Retorno de Jedi), então não é como acontece quando um filme é baseado em um livro - ou seja, não tem nada diferente aqui: não tem novidade, não tem nada que tenha ficado de fora, até os diálogos são os mesmos. Ainda, por não se tratar de literatura propriamente dita, fica sempre aquela sensação de que algumas coisas poderiam ter sido narradas de jeito diferente - a impressão constante que eu tive lendo ele é que tudo é simplesmente a narração exata do que está acontecendo nos filmes: fulano pegou isso e fez aquilo no lugar tal, e aí falou algo pro beltrano e eles juntos foram fazer tal coisa". Com exceção da terceira parte, que diferencia bastante das outras duas (até se deram ao trabalho de colocar as "falas" do Chewbacca e do R2-D2 :P), não tem desenvolvimento de narrativa, não tem um vislumbre do que eles estão pensando, não tem nem uma descrição melhor de algumas coisas - ou seja, pra quem não chegou a ver os filmes, só a menção a algumas criaturas e lugares pode dar uma ideia bem vaga de como eles são. E, pra finalizar, um detalhe de formatação que talvez só tenha irritado a mim: os diálogos com aspas em vez de travessões. Não sei se é padrão da editora ou se foi escorregão dos tradutores e duplo-escorregão dos revisores, mas, aqui no Brasil, a norma para diálogos é travessão. As aspas são usadas em outros países, mas, aqui, somente quando é continuação de diálogo em parágrafo diferente ou quando indica pensamento (gente, eu sou tradutora, eu preciso saber dessas coisas). Até eu me acostumar que os diálogos todos começavam por aspas, eu não conseguia evitar pensar que os personagens conversavam por telepatia. Pra quem tá acostumado a ler tanto há tantos anos, simplesmente terrível. A Força não esteve comigo o tempo todo, mas espero que esteja com vocês.




O Homem Bicentenário
Isaac Asimov - L&PM - 2003 (1985) - 118p.

Na década de 1970, Asimov foi convidado a escrever outra antologia sobre robôs para a comemoração do bicentenário da independência dos Estados Unidos. Desde que publicou os contos de Eu, Robô ele nunca realmente parou, e, a cada conto que escrevia, seus robôs iam ficando mais e mais complexos. O que era pra ter 7.500 palavras acabou rendendo o dobro, mas o projeto acabou sendo cancelado. Ainda assim, Asimov nos presenteou com O Homem Bicentenário, a emocionante história do autômato Andrew que, por uma falha na fabricação do cérebro positrônico, descobriu que tinha sensíveis habilidades artísticas. Andrew é propriedade da família Martin, com quem ficou por duzentos anos, e de quem sempre recebeu afeição e respeito. Mas, quanto mais os anos passavam e os membros queridos da família iam partindo, mais Andrew decidiu que queria ser humano. Vamos, então, acompanhando o autômato ao longo das décadas em busca da sua humanidade, vemos suas transformações e suas lutas em busca de direitos e justiça, suas contribuições e suas perdas. Tão breve e tão emocionante...! Essa edição ainda conta com o conto Círculo Vicioso, também presente em Eu, Robô, que é o que nos apresenta as famosas Três Leis da Robótica e os sensacionais testadores de protótipos, Mike Donovan e Greg Powell.



Os Intemporais
Robert Silverberg - Panorama - 1968 (1967) - 175p.

Um presente do querido amigo Edison, que o leu, releu e recomendou por conhecer meu gosto por ficção científica e viagens no tempo. Obrigada mais uma vez, Edison, acertou em cheio! A Terra do século XXV está superlotada e em caos absoluto. A vida está tão insustentável - ditadura, desemprego, racionamento, apatia - que a solução que algumas pessoas encontraram foi, através de um procedimento ilegal envolvendo uma máquina do tempo, voltar a séculos passados para conhecer outras épocas e viver uma vida mais fácil. Quellen, nosso protagonista, é funcionário do Governo e está encarregado de investigar os Saltadores (como são chamadas as pessoas que fizeram a viagem), quem está no comando dessa operação e, sempre que possível, impedir que essas pessoas viajem. Entretanto, sua vida no presente também é insatisfatória e ele mesmo tem segredos perigosos que podem ser usados contra ele. No decorrer das investigações de Quellen, somos impelidos a refletir sobre o possível impacto que uma pessoa fora de sua época pode exercer na história da humanidade. Enquanto alguns Saltadores viveram e morreram no passado sem grande alarde, alguns usaram de conhecimento avançado do futuro para alterar ou introduzir aspectos à História que foram responsáveis por grandes realizações da humanidade e que não podem ser, portanto, impedidas ou desfeitas. Os vislumbres do autor sobre o século XXV também são interessantes, apesar de bem pessimistas (realistas?); especialmente no que concerne a divisão hierárquica da classe trabalhadora e os costumes culturais e religiosos da humanidade de então. Reflexivo, tenso e também emocionante - passo adiante a recomendação.



Sandman: O livro dos sonhos
V.A. - Conrad - 2004 (2001) - 180p.

Aproveitando-se do vasto Universo e a gama de personagens criados por Neil Gaiman para Sandman, vários autores (conhecidos ou nem tanto) lançaram suas histórias para, de alguma forma, complementar a obra. A coletânea de nove contos foi organizada pelo próprio Gaiman, que nos introduz aos autores e nos situa em que parte de Sandman a história se ambienta. O clima é geralmente surreal, como todos que lemos os quadrinhos estamos familiarizados. Há, inclusive, uma nota na aba com uma recomendação dizendo que não é necessário ter lido Sandman para acompanhar este livro, do que discordo. Justamente por ser meio surreal, não ter familiaridade com a obra ou os personagens pode tornar tudo bem confuso. Não obstante, meus favoritos foram Mais Forte que o Desejo, uma bela história sobre uma aposta com o andrógino Eterno, cuja moral muito me agradou; o perturbado Cada Coisa Úmida, com Caim e Abel e uma boa visão do funcionamento do Sonhar; o tenso Derramamento, que se ambienta em Sandman 14: Colecionadores, um dos meus favoritos; e Um Pouco Mais de Eternidade, com a sensacional Wanda e um final que foi sacanagem, hahah. Como ponto baixo, só reclamo (novamente) dos diálogos com aspas...



As Esganadas
Jô Soares - Companhia das Letras - 2011 - 262p.

Uma amiga o leu, gostou muito e me emprestou com suas recomendações. Até então eu nunca tinha lido nada do Jô, por mais recomendado que já me tivesse sido, e li As Esganadas rapidinho. A trama é ambientada em 1938, no começo do Estado Novo de Getúlio Vargas. Um serial killer está à solta no Rio de Janeiro, e suas vítimas não têm nenhuma ligação a não ser dividirem o padrão do tipo físico bem acima do peso. O assassino de gordas e sua motivação já são apresentados logo no começo da história, então vamos acompanhando sua caçada, seus métodos de execução, e a investigação atrapalhada do mal-humorado delegado Mello Noronha e do ex-policial lusitano Tobias Esteves, que foi amigo de Fernando Pessoa e há anos é dono de uma rede de confeitarias no Rio. As partes cômicas do livro ficam por conta justamente desses dois e mais o simplório auxiliar Calixto, que mal e mal se entendem por causa das interessantes diferenças linguísticas entre um Português e o outro. A história também é permeada por acontecimentos históricos da época, que acrescentam algo ao enredo. É uma leitura fácil e bem divertida, com um final um tanto previsível, mas que garante umas risadas.




e-book:


Eu e Outras Poesias
Augusto dos Anjos - Nostrum - 2014 (1912) - 344p.

[...] 
A cor do sangue é a cor que me impressiona 
E a que mais neste mundo me persegue! 

Essa obsessão cromática me abate. 
Não sei por que me vêm sempre à lembrança 
O estômago esfaqueado de uma criança 
E um pedaço de víscera escarlate.
[...]

- As Cismas do Destino

Aproveito o Kindle para dar atenção especial a clássicos e poesias. Bom, falar em poesia sempre remete a versos de amor, mas acho que vocês já perceberam que tipo de poesia eu acabo escolhendo pra ler. Augusto dos Anjos foi um poeta pré-modernista paraibano, daqueles que a gente foi obrigado a estudar na escola e nunca deu a devida atenção. Ele chocou muita gente com seus versos pessimistas e violentos sobre morte e desumanização, e o uso de palavras e expressões bastante tétricas - tanto que só começou a vender de fato após sua morte precoce, aos 30 anos, graças a uma pneumonia. Suas primeiras poesias são pesadas e um tanto complicadas, especialmente porque o poeta usa muita terminologia científica para suas metáforas e rimas. Entretanto, sua obra posterior, embora ainda melancólica, lida com mais leveza acerca dos mesmos assuntos, e até existem poesias sobre o amor e os bons sentimentos da vida. De todas, as minhas favoritas são Psicologia de um Vencido, talvez sua mais conhecida; Soneto (um dos muitos de mesmo nome), uma poesia perturbadora escrita para seu filho natimorto; Versos Íntimos (o famoso "Apedreja essa mão vil que te afaga/ Escarra nessa boca que te beija!"); À Mesa; e várias outras. 




Didáticos:

Comportamento Animal: Uma introdução à ecologia comportamental
Kleber Del-Claro - Conceito - 2004 - 132p.

Quando entrei para a faculdade de Biologia, há 10 anos, meu interesse maior no estudo da vida era a Genética. Entretanto, depois de me familiarizar com as demais ramificações, me descobri apaixonada por Zoologia e Evolução. Ambas disciplinas lidam com comportamento animal, então decidi que voltaria meu estudo pós-acadêmico a isso - o que, infelizmente, não deu, mas fiz alguns cursos de curta duração a respeito e nunca realmente perdi o interesse pelo assunto. Recentemente, voltei a buscar informações sobre cursos e material e acabei encontrando este guia de introdução, que achei bem conveniente e suficiente pra minha vontade de aprender mais. O autor é um etologista de destaque no nosso país e compilou aí tudo o que um iniciante, amador ou profissional, precisa saber, ter e fazer para observar o comportamento animal - tudo de maneira bem simples de acompanhar, divertida e incentivadora. Ele lista e explica o passo-a-passo da observação em campo, nos recomenda a literatura básica e o tipo de equipamento e ferramentas que precisamos dominar, exemplifica casos e ensina os termos corretos. Aprendi muito e fiquei com ainda mais vontade de me jogar de volta na biologia!



O Jeito Que a Gente Diz
Stella E. O. Tagnin - Disal - 2013 - 222p.

Comprei há um tempo como material de consulta, mas resolvi pegar esse material de consulta pra ler de cabo a rabo porque, afinal, preciso saber exatamente onde consultar. Este é um livro de linguística que compila e explica muitas expressões consagradas em inglês e português (com alguns exemplos, ainda, em espanhol, alemão, italiano e francês). O domínio das expressões idiomáticas é importante para quem deseja adquirir fluência em uma língua estrangeira e também para quem trabalha com elas - como nós, professores e tradutores. Há, ainda, um capítulo muito instrutivo sobre a Linguística de Corpus, que é uma ferramenta utilíssima para tradutores (embora ainda me seja uma espécie de inferno pessoal). Cada capítulo é encerrado por sugestões de exercícios trabalhosos, voltados a aprimorar ainda mais o que foi aprendido. Finalmente, o livro termina com um apêndice bastante abrangente com as expressões inglesas e portuguesas em ordem alfabética para consulta rápida; um vocabulário de termos linguísticos; um anexo com exemplos nas outras línguas citadas; e a bibliografia recomendada para mais estudos - afinal, engana-se quem pensa que alguns anos de cursinho deixa qualquer um fluente...



HQ:

Eternos, de Neil Gaiman e John Romita Jr. Baseados nas mitologias antigas, os Eternos foram personagens criados por Jack Kirby para a Marvel ainda nos anos 1970, mas a ideia não pegou e o título foi cancelado ainda no começo. Talvez a premissa de "deuses astronautas" tenha sido demais para o público da época, então Eternos, Celestiais e Deviantes foram engavetados por mais de 30 anos - até Neil Gaiman chegar e resolver dar uma trabalhada nisso. Esse volume da Salvat reúne as 7 edições da minissérie escrita por Gaiman e começa apresentando o estudante de medicina Mark Curry, que tem sua rotina interrompida pelo aparecimento de um misterioso homem que não podia morrer. Logo, somos apresentados à informação de que a humanidade foi instruída durante a História por cem Eternos, seres imortais, poderosos e milenares. Tais seres foram criados pelos Celestiais, extraterrestres que têm acompanhado a evolução da Terra por motivos incertos, e que também criaram os Deviantes - seres monstruosos e muito mais numerosos, que se disfarçam entre nós. Entretanto, por motivos até então desconhecidos, os Celestiais não se lembram mais de quem são e estão na Terra vivendo entre os humanos e levando vidas ordinárias... Só que eles precisam se lembrar, porque algo terrível está para acontecer. Muito legal e quero mais.