Pular para o conteúdo principal

Vier Mauern



ABERTURA.

"Alguma coisa existe que não aprecia o muro."



A PRIMEIRA PAREDE.

Tento imaginar quem construiu a primeira parede. O que ele tinha em mente. Ou ela. Proteção? Privacidade? Ou outra coisa.

Construímos nossas civilizações com paredes, que nos dão abrigo e fortaleza. Mantêm distantes "os outros": as intempéries, os animais selvagens, as pessoas que são diferentes. Ao nos dividirem, as paredes nos definem.

As paredes separam as pessoas; e não só as paredes que construímos. Talvez as mais assustadoras sejam aquelas que não somos capazes de ver, mas em cuja existência acreditamos.



A SEGUNDA PAREDE.

Eu tive um sonho a respeito disso quando era pequeno.

No meu sonho havia uma nota, uma nota musical, um som; e quando ela era tocada todas as paredes começavam a ruir. E todas as pessoas de todos os lugares podiam ver...

Podiam ver umas às outras, fazendo as coisas que as pessoas fazem entre quatro paredes. Ninguém tinha mais onde se esconder.

Então acordei, e nunca soube se não ter nenhuma parede era uma coisa boa ou ruim. Não ter onde se esconder, poder ir a qualquer lugar, sem fingimento, sem proteção, sem segredos.



A TERCEIRA PAREDE.

Disseram-me que a Grande Muralha da China é a única construção humana na superfície da Terra que pode ser vista do espaço.

Eu nunca vi a Terra do espaço. Não conheço ninguém que tenha feito isso.

Só vi as fotografias.

Disseram-me que, daquela distância, é muito difícil diferenciar um país do outro. Era de esperar que eles fossem coloridos, como nos velhos mapas da escola.

Assim todos diferenciariam.



A QUARTA PAREDE.

Quando ouvi dizer que o muro de Berlim caíra, minha primeira reação foi de alívio; mas então pensei: e se existisse uma jovem que passou anos - metade de sua vida - pintando naquele muro?

Pintando uma mensagem, ou uma imagem.

Se todas as manhãs ela se levantasse bem cedo, fosse até lá e pintasse um ou dois traços no muro. Todos os dias, na chuva, no frio, às vezes até no escuro. Era o seu grito contra a opressão. Seu protesto contra o muro.

Ela estava quase terminando quando tudo foi demolido.
As pessoas poderiam ir e vir livremente. O muro contra o qual ela protestava não existia mais, assim como sua criação, desfeita em pedaços, vendida a um colecionador particular...

Tento imaginar como ela se sentiu. Espero que não tenha ficado desapontada.

Eu teria ficado.



ENCERRAMENTO.

Talvez devêssemos olhar além das paredes.

Escutem: pintores, escritores, músicos, cineastas e grafiteiros que pintam frases que brotam como flores luminosas nas laterais de construções abandonadas - todos vocês.

Existe uma quarta parede a ser demolida.
Governos e autoridades vivem afirmando que boas cercas fazem bons vizinhos, e aumentam a vigilância nas fronteiras em um esforço para nos deixar felizes da maneira como estamos.

Mas alguma coisa existe que não aprecia o muro, e seu nome é humanidade.





► Neil Gaiman (com arte de Dave McKean, no original). Publicado originalmente em Breakthrough (1990); retirado aqui de Sinal e Ruído (2011, Conrad), traduzido por Alexandre Boide.

Postagens mais visitadas deste blog

O Dia dos Namorados e a visão de romance por uma assexual arromântica

Vejo que isso vem mudando lentamente, mas, como regra geral, todo mundo é naturalmente criado e tratado como heterossexual (e, consequentemente, heterorromântico). Eu, claro, cresci com essa absoluta certeza e não questionei isso até meados dos meus 20 anos. Até então, achei que eu só era mais "devagar" pra certas coisas, mesmo. Mas vamos ter que voltar um pouco e compartilhar informação demais.
Como expliquei na página de educação e visibilidade, o fato das orientações sexual e romântica serem coisas separadas e muitas vezes não serem correspondentes é o que mais confunde quem demora a "sair do armário". Eu mesma ainda me vejo questionando ambas, embora esteja convencida de que estou, ao menos, em algum espectro de ambas (confira a página mencionada). Não posso falar por todos os assexuais arromânticos porque, obviamente, cada pessoa é diferente da outra e as coisas são diferentes pra todo mundo. Então vou falar por mim.
Embora só tenha percebido isso recentement…

... e ainda mais livros interativos!

2014 está sendo um ano muuuito esquisito... Não sei se tá todo mundo com essa impressão, ou se eu só estou prestando atenção nas coisas esquisitas, mesmo.
De qualquer forma, comentei em alguma postagem anterior sobre a necessidade da terapia que não vou fazer, e como esses livros interativos que tanto estão na moda andam me ajudando a aguentar toda a esquisitice desse ano.
Depois de Destrua Este Diário, que não vou terminar, e Termine Este Livro, que já terminei, peguei outros dois lançamentos: Listografia, de Lisa Nola, e 1 Página de Cada Vez, de Adam J. Kurtz.


O Listografia eu havia visto pelo Pinterest e achei a proposta atrativa pra mim: listar a vida de acordo com os mais variados tópicos. Os temas vão desde coisas simples, como os lugares em que você já morou, o nome de todos os animais de estimação que você já teve, seus programas de TV favoritos, as cidades que você conhece, até assuntos mais reflexivos, como as coisas sobre você que quase ninguém sabe, seus maiores atos de b…

As curiosas origens de 4 famosos jogos de tabuleiro

Adaptado do artigo original do Mental Floss.



Jogos de tabuleiro são uma forma de entretenimento criada pelos egípcios há 5 mil anos e nunca saíram de moda, mesmo que atualmente tenham sido adaptados em vídeo games ou jogos para o celular. Aqui vão as origens de alguns dos sucessos mundiais favoritos:

Monopoly / Banco Imobiliário

Embora seja considerado um jogo que glorifica o capitalismo (tendo sido banido de países como a China e a antiga União Soviética), este clássico foi inventado para representar justamente a ideia oposta. A americana Elizabeth Magie era ativista contra o pagamento de impostos imobiliários, no fim do século 19. Segundo ela e outros simpatizantes, deveria haver apenas um imposto de propriedade, diminuindo assim a diferença de riqueza entre os senhorios e os inquilinos. Para demonstrar de uma maneira fácil como as coisas aconteciam na época, Lizzie patenteou, em 1904, um jogo chamado The Landlord's Game ("O jogo do senhorio"), cujo objetivo era acumula…