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Uma espiadinha no meu trabalho

Minha mesa de trabalho também é a minha mesa de lazer. Passo mais tempo nela do que em qualquer outro lugar da casa ou do mundo.



Acho que, a essas alturas, todos vocês sabem que eu venho trabalhando com tradução. Sou freelancer, o que significa que a demanda é inconstante, os prazos são apertados e a questão financeira é imprevisível. Além disso, trabalhar por conta própria não se resume a simplesmente fazer o seu trabalho, mas ainda administrá-lo (procurar e manter clientes, elaborar e negociar orçamentos e cobranças, investir em material e ferramentas, etc.). Entretanto, não vou falar aqui sobre a profissão ou o mercado de trabalho, mas só lhes dar uma ideia de como funciona minha rotina de trabalho.


Ao receber o material para traduzir, tenho que torcer para ser em arquivo de Word ou ao menos um PDF desbloqueado para cópia (ou qualquer outro formato que eu possa copiar e colar no Word). Se eu não der essa sorte, já começo tendo que me virar nos 30 pra converter o arquivo para um formato com o qual eu possa trabalhar. Na verdade, posso trabalhar com qualquer formato de texto (afinal, teoricamente, é só ler o texto e reescrevê-lo em outra língua), mas assim leva muito mais tempo e dá muito mais trabalho do que o necessário. Utilizo ferramentas para otimizar o meu trabalho e permitir que eu o entregue dentro do prazo (geralmente absurdo) que me pedem, então facilitar pra amiga aqui é sempre preferível (pô, sério, serviço ingrato copiar PDF de trocentas páginas e depois formatar tudo no Word). Aí faço a contagem de palavras e elaboro o orçamento para o cliente.

Feito isso, começa a aventura.




Dei uma disfarçada nos amigos ali caso alguém estivesse ouvindo um guilty pleasure, vai saber


Trabalhar em casa é complicado. Principalmente porque casa não é ambiente de trabalho, então as distrações são muitas: o movimento das outras pessoas, os animais de estimação, os vizinhos, outras obrigações domésticas. Somado a isso, tenho que lidar com o meu déficit de atenção e hiperatividade; então, como costumo ouvir música pra fazer isso, fecho a porta, coloco meus fones e recorro ao Spotify e sua linda playlist Deep Focus.


Uma regra que me imponho para lidar com o TDAH, também, é definir pontos de intervalo. Se eu parar toda vez que tenho vontade de parar, o serviço não rende; então me proíbo de interromper o trabalho até completar tantas páginas ou parágrafos (aí, sim, posso levantar pra esticar as pernas, comer, ir ao banheiro, brincar com os gatos, e depois voltar). Pra isso, tenho a maravilhosa ajuda do Wordfast Classic:


Quem disse que o trabalho do tradutor é emocionante?


Eu demorei um bom tempo pra aprender a mexer nessa ferramenta, mas, depois que aprendi, não vivo mais sem. ♥ O Wordfast Classic é uma CAT tool que funciona junto com o Microsoft Word. CAT tools são ferramentas de tradução assistida por computador, ou seja: não é um tradutor automático, mas uma ferramenta que ajuda a otimizar a tradução manual. Ela faz isso primeiro ao dividir o texto em segmentos menores pra que a gente não veja o volume total do trabalho e se desespere, haha pra tradução ficar mais confortável. Ao mesmo tempo, salva uma memória automática do que vamos fazendo (podemos classificar essas memórias por assunto) para que, se posteriormente formos trabalhar com um texto similar ou da mesma área, a ferramenta identifique segmentos parecidos e já sugira uma tradução para aquele segmento. E também há como montar um glossário de terminologias, pra gente não ter que digitar de novo toda vez que aparecer um termo específico que já sabemos que vai aparecer muito.


Bom, a pesquisa dos termos específicos é o que mais me toma tempo. Não é sempre que eu dou sorte de traduzir um texto sobre um assunto que eu tenha um mínimo de domínio, então é frequente eu levar muitas horas pesquisando por termos relativamente simples, mas que não conheço. Pra isso, usa-se uma variedade de fontes. Os mais recomendados são os sites de corpora (que são sites de busca de termos que os listam em colunas comparativas no par de línguas desejado, inseridos em contexto textual), mas os acho muito, muito complicados de manipular (eu sei que, no fundo, eles não são, mas ainda tô tentando aprender). Então, recorro às outras opções.


O Linguee deveria ser evitado, mas ainda quebra um bom galho enquanto eu não aprender a mexer em sites melhores de corpora...


Ao topar com um termo desconhecido, então, primeiro recorro a uma busca no Google Acadêmico (scholar.google.com), que lista artigos acadêmicos e, portanto, tem as melhores chances de me mostrar os termos que procuro (já que traduzo principalmente artigos científicos). Caso o que eu encontre lá me gere muita dúvida, vou pro Linguee, que é um site de corpora, mas não muito especializado (por isso, geralmente não recomendado). Ainda havendo dúvida, recorro ao Google Tradutor (que pode ser uma ferramenta excelente para pesquisa de termos, desde que não seja usado para traduzir textos na íntegra) e então pego o que ele me der e pesquiso o resultado no Google, para conferir a frequência de uso (por exemplo, se eu tiver achado duas ou mais traduções pro mesmo termo, pesquiso no Google qual deles acusa maior frequência de uso). Dependendo do assunto do texto que estou traduzindo, até tenho acesso a glossários bilíngues prontos, mas não é sempre que tenho essa sorte.

Bom, dá pra perceber que isso dá muito trabalho e toma muito tempo (além de me fazer digitar o termo trocentas vezes em cada um dos sites, o que me obriga a deixar centenas de abas abertas no navegador e travar tudo), mas uma alma muito caridosa criou o Multifultor, uma ferramenta gratuita muito, muito sensacional. Ela trabalha em conjunto com o Microsoft Word e funciona da seguinte forma: na instalação (e em qualquer momento depois disso) cadastramos no programa todos os sites que usamos para a pesquisa de termos e determinamos um atalho pra cada um deles. Aí, quando estivermos trabalhando com o texto, selecionamos o termo desconhecido, digitamos o atalho desejado, e já pula uma janelinha com o resultado - sem precisar ir até o navegador, abrir o(s) site(s) e digitar lá. Calculando o volume total de texto a ser traduzido, olhem o tempo que isso poupa!


Possivelmente meus melhores amigos.

Claro que, antes de recorrer à internet para a busca de termos não-técnicos, eu corro pro abraço do meu surrado Collins. Esse velhinho raramente me deixa na mão e tem a grande vantagem de permitir que eu trabalhe quando estou sem internet. O tesauro foi uma aquisição mais recente e também me salvou muitas vezes ao me sugerir palavras melhores. E, além deles, ainda mantenho o costume de anotar minhas descobertas em glossários não muito organizados mas super salvadores. Ainda sou da geração que fazia os trabalhos de escola à mão e não tinha acesso garantido à internet até que entrei pra faculdade, então não confio 100% de tudo o que descubro ao meu computador. É muito reconfortante saber que tenho coisas por escrito, e pesquiso em tudo isso aí até mais rápido do que na internet, de tão habituada que estou.



Nem sempre é um trabalho recompensador e nem sempre é um trabalho interessante, mas é certamente um trabalho desafiador que me ensina muito a cada novo serviço. Tenho certo orgulho de conseguir desempenhá-lo satisfatoriamente e gostaria de ser cada vez melhor nele, mas é uma área que exige constante especialização, atualização e investimento, e ainda não há procura muito grande serviço para todos, então não é fácil se virar só com tradução para viver. Mas não pretendo estacar e vou continuar me dedicando como puder à profissão, até que finalmente consiga me especializar em tradução literária, que é o que realmente quero tentar!

Bom, é assim que eu trabalho. Como é o trabalho de vocês?

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