31/01/2016

Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, 
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideus!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



Álvaro de Campos 
(Fernando Pessoa, 1930)

21/01/2016

Sobre quando eu me perdi em uma caverna

(tema retirado de uma lista de propostas)





Até hoje me lembro com certa ansiedade a respeito de um passeio de escola que fiz quando estava na antiga sexta série. Fizemos uma excursão bem grande ao Parque Estadual de Campinhos, próximo de Curitiba, onde visitaríamos algumas das muitas grutas e cavernas do Paraná (essa foto não é de lá; pego em domínio público porque, né).


- Aula gratuita -
grutas têm apenas uma entrada; cavernas, ao menos duas.


Faríamos três paradas durante o passeio: a primeira foi a Gruta das Fadas. Me lembro de que precisávamos andar em fila indiana pela maior parte do trajeto, pois havia uma espécie de penhasco lá dentro. A caminhada foi bem tensa porque, além da constante ameaça da queda (o penhasco era provavelmente protegido por alguma espécie de corrimão, mas meu cérebro infantil não deve ter dado o devido valor a ele), tínhamos que passar por sobre rochas que bloqueavam o caminho e nos abaixar pra desviar das estalactites. Pra piorar, tinha um momento em que precisávamos nos arrastar de barriga no chão para passar por uma abertura. Quando chegamos ao fundo da gruta, me lembro dos guias pedindo para que apagássemos nossas lanternas e prestássemos atenção ao redor, porque era possível "ver as fadas". Eu queria muito, muito mesmo acreditar que eu estava vendo fadinhas, mas não demorou muito para um colega quebrar a magia do momento ao acender a maldita lanterna.


- Segunda aula gratuita -
macete para nunca mais confundir estalactites com estalagmites:
estalactites - teto


A segunda parada era o Abismo das Fadas. Era uma entrada para outra gruta, só que subterrânea. Literalmente, um buraco no chão. Teríamos que descer de alguma forma que não me lembro como era naquela escuridão cheia de mato por cima. Não participei dessa parte do passeio porque, sério, era um buraco no chão.





E então, por último, vinha a atração principal: a Gruta dos Jesuítas - na verdade uma caverna com uma trilha de 550 metros lá dentro. O passeio lá dentro era muito mais tranquilo do que o na Gruta das Fadas; apesar da abundância de estalactites e estalagmites, os salões eram amplos e não havia penhascos. Mas havia uma corrente de água que corria por grande parte da caverna, então passamos a maior parte do tempo com água até os joelhos durante a caminhada.

Pois bem, estava tudo muito legal, estávamos curtindo muito, o lugar era lindo mesmo (só não estávamos tirando muitas fotos porque era 1999, e ser um estudante de escola pública com uma câmera era ostentação demais), e íamos conversando, cantando, rindo, olhando pra cima, olhando pra baixo, até a nossa panelinha finalmente olhar pros lados, também, e perceber que tinha se perdido do guia e do resto da excursão.

Bom, o problema das cavernas é esse, né: tem mais de um acesso e mais de uma trilha a seguir. Chamamos por um tempo mas não escutávamos os outros, esperamos alguns minutos e ninguém apareceu. Nosso pequeno grupo era formado pelas minhas professoras de Inglês e Artes, três ou quatro alunos que não eram meus colegas de sala, e uma Manu jacu de 12 anos.

Tentamos refazer o caminho pelo qual tínhamos vindo, mas cavernas tendem a ser meio confusas, e logo começamos a ficar nervosos. Lembro: era 1999, ninguém tinha celular (e, mesmo que tivesse, se tivesse sinal e wi-fi dentro da caverna seria sensacional). E foi aí que, pela primeira e talvez única vez na vida, eu me senti útil por ser nerd e CDF: me lembrei de todos os filmes de gente perdida na floresta que eu já tinha assistido até então (já falei que cresci vendo filmes de terror e acho que não tive nenhum problema psicológico resultante disso) e da informação útil para uma situação dessa: É SÓ SEGUIR O RIO.

E aí a gente seguiu o rio. Já tava todo mundo perdido mesmo, fui na frente dentro da água e os outros foram me seguindo. Eventualmente, vimos o guia nos procurando, vindo na direção contrária, já perto de uma saída da caverna e o resto do povo lá fora visivelmente nervoso, porque já estava escurecendo. Levamos uma senhora bronca do guia e foi isso, essa foi a aventura.

Com esse relato cheio de emoção e adrenalina, acho que todo mundo aprendeu ao menos cinco coisas:


  1. A diferença entre grutas e cavernas;
  2. Como parar de confundir estalactites com estalagmites;
  3. Em caso de se perder na natureza, É SÓ SEGUIR O RIO;
  4. Não tirem os olhos do guia. Nem por um minuto. Não. Tirem. Os. Olhos. Do. Guia.
  5. Eu não entro em buracos no chão. Não insistam.







Caso alguém aí esteja nas proximidades de Curitiba ou pensando em visitar cavernas, o Parque Estadual de Campinhos é um passeio bem legal! Saibam mais sobre ele aqui.

15/01/2016

Cover: "Eleanor Rigby"

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?


Essa é uma das minhas canções favoritas, conforme já postei aqui, então vou falar mais sobre ela, hoje.



Eleanor Rigby foi composta Paul McCartney (creditada a Lennon-McCartney) e lançada no álbum Revolver, em 1966. A canção fala sobre uma mulher solitária que acompanha casamentos na igreja local, cujo padre também era uma pessoa solitária. 

McCartney estava com a música na cabeça há muito tempo, com a melodia e a história quase prontas, mas não conseguia pensar em um nome adequado para seus protagonistas. Uma olhada nas lápides do cemitério lhe trouxe "Eleanor" (há quem diga que a inspiração tenha vindo de Eleanor Bron, atriz que trabalhou com a banda em Help!, mas há controvérsias), uma fachada comercial lhe deu "Rigby", e o "padre McKenzie" veio da lista telefônica. Sem saber o que fazer com o final da história, um amigo sugeriu que ele unisse as duas pessoas solitárias; e assim Paul o fez, mas não como se esperava: com o padre McKenzie conduzindo o solitário funeral de Eleanor, sozinho ao lado de seu túmulo. 

Eleanor Rigby foi uma das músicas do grupo que desviou mais explicitamente da temática romântica, e chocou alguns ouvintes com seu teor depressivo. Mesmo assim, está entre as "500 melhores canções de todos os tempos" segundo a revista Rolling Stone.

A canção chegou ao topo das paradas britânicas, mas não alcançou o top 10 na América. Ainda assim, ao longo dos anos, recebeu centenas de versões em tudo que é estilo (mais de 300, segundo o SecondHandSongs), algumas das quais vou compartilhar a seguir:




Em 1968, Ray Charles lançou uma versão rhythm & blues como single e em álbum.



No ano seguinte, Aretha Franklin lançou em álbum uma versão soul toda animadinha.



Artistas brasileiros também se renderam a versões. Caetano Veloso, em 1975, em ritmo de bossa nova; e Cassia Eller, em 1990, em ritmo de reggae.



Em 2005, o Thrice lançou como b-side o que considero a minha versão favorita, a mais pesada.




Por último, mas não menos importante, Alice Cooper lança uma ótima versão, mais parecida com a original, para um álbum de tributo de vários artistas a Paul McCartney, em 2014.


Para conhecer outras versões, confiram o primeiro link abaixo.

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Fontes: SecondHandSongs | Wikipedia | The Beatles: A história por trás de todas as canções (TURNER, Steve. Cosac Naify, 2009)

06/01/2016

Desafio de Leitura para 2016

Em vista de aproveitar melhor tudo o que já tenho para ler aqui em casa, variar minhas leituras e conseguir montar uma lista de metas mais organizada, procurei por um desafio que me obrigasse a isso. Achei este e pretendo segui-lo o melhor que puder durante o ano (deixando sempre alguns espaços para que eu possa ler também os inesperados que surgem - continuações, presentes, empréstimos).

Traduzi o desafio e vou postá-lo aqui. É grande e eu sei que é mais do que a gente pode se comprometer a fazer, mas alguns livros podem se encaixar em várias dessas categorias. E, também, não precisa ser na ordem. Não precisa nem ser tudo, não tem problema.

Se alguém mais topar fazer, vamos juntos! No fim do ano, a gente marca o que conseguiu fazer e comenta a respeito. Não vejo a hora de começar!


tentei de todo jeito deixar no tamanho original, mas o Blogger deve ter limite de tamanho :(