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Então, a tal da Síndrome de Asperger...



Não vou saber dizer com exatidão quando foi que eu comecei a desconfiar de que tinha algum grau de autismo rolando no meu cérebro, mas aconteceu mais ou menos assim.

Quando, por curiosidade, refiz o teste Myers-Briggs (sobre o qual falei aqui), entrei para um grupo no Facebook onde INTJs do mundo todo se reúnem pra conversar sobre opiniões impopulares e compartilhar artigos interessantes sobre psicologia. Nisso, foi levantado várias vezes que as características que distinguem os INTJs são exatamente as mesmas das pessoas diagnosticadas com a Síndrome de Asperger; mas isso sempre gera algumas discussões com argumentos infundados e acabam deixando o assunto de lado.

De qualquer forma, eu sempre paro pra ler quando algo assim surge e percebi que, realmente, eu conseguia me identificar facilmente com tudo aquilo. A ideia do autismo já estava me preocupando havia um tempo, mas eu nunca consegui me identificar completamente com os sintomas do autismo clássico (que se caracteriza, especialmente, pela dificuldade de aprendizado e demora no desenvolvimento da comunicação verbal, coisas que nunca me foram problema). Foi aí que, lendo mais sobre o Asperger, finalmente encontrei o que estava procurando.

A Síndrome de Asperger, embora não seja atualmente considerada uma condição à parte e nem chamada mais assim (desde 2013, a comunidade psiquiátrica engloba esta e outras síndromes como espectros do Autismo), compartilha muitos dos sintomas do autismo clássico, mas se diferencia dele justamente pela ocorrência oposta dos sintomas principais que mencionei antes, ou seja: as pessoas que a têm apresentam grande facilidade de aprendizado e não têm dificuldade no desenvolvimento da comunicação verbal. Por isso, é considerada um tipo de autismo brando e de alta funcionalidade.

Não posso usar este espaço para ajudar na diagnose da síndrome, pois não sou profissional, mas gostaria de aproveitar para compartilhar os sinais que me ajudaram a descobrir a condição e indicar as melhores fontes para que outros interessados pesquisem.

Primeiro de tudo:

É complicado identificar a síndrome depois de adulto. Isso acontece porque, por se caracterizar principalmente em relação ao comportamento social, adultos já aprenderam (bem ou mal) a lidar com essas dificuldades. Por exemplo: pessoas com Asperger entendem tudo literalmente, por isso são tidas como ingênuas e fáceis de manipular. É fácil ver quando uma criança não entende sarcasmo, piadas, trocadilhos, "críticas construtivas", elogios ou mentiras; mas adultos, embora ainda possam ter dificuldade em lidar, já aprenderam ao menos a identificar cada uma dessas coisas. Grande parte do aprendizado de relações sociais para quem tem Asperger é imitar o que os outros fazem sem realmente entender por que as coisas têm de ser daquela forma. Outra coisa que dificulta o diagnóstico em adultos é que eles acabam sendo tratados pelos sintomas isolados (depressão, ansiedade, TDAH, distúrbios alimentares, etc.), já que há um despreparo geral a respeito da identificação da síndrome por profissionais.

E, também:

Os sintomas entre homens e mulheres são diferentes. Grande parte do que encontramos sobre o diagnóstico é baseado em estudos feitos com meninos porque, até há pouco tempo, acreditava-se que as meninas não tinham isso. O que acontece é que algumas das características da Síndrome de Asperger são aspectos considerados normais no comportamento feminino: ingenuidade, timidez, introversão, melhor desempenho na escola. Só que meninos e meninas com a síndrome reagem diferentemente a alguns estímulos. Por exemplo, uma das características do Asperger é a necessidade absoluta de seguir regras, ordens, rotina, listas e programações. Quando acontece algum imprevisto e o plano que já estava cuidadosamente formulado precisa ser repentinamente alterado, ou mesmo quando a rotina é quebrada por algum acontecimento inesperado qualquer, a pessoa com Asperger fica fortemente irritada; só que, enquanto os meninos ficam agressivos (o que levava a crer, antigamente, que a síndrome era uma condição que tornava as pessoas violentas), as meninas se isolam e se tornam pouco comunicativas.

É importante lembrar que o autismo (ou qualquer um de seus espectros) não é uma doença e não é uma deficiência mental. Autistas têm processos mentais diferentes do convencional, ou seja, a maneira de pensar, interpretar e expressar são diferentes. Eles podem ser caracterizados tanto como o aluno que vai muito mal nas aulas como o aluno que vai muito melhor do que os outros.

Entre várias outras que são muitas para listar, aqui vão algumas das características que me ajudaram a perceber a presença da síndrome de Asperger:

  • Dificuldade em fazer amigos. Segundo muito do que li, autistas de todos os espectros não sentem necessidade de interagir, desprezam o convívio social e ficam nervosos com a presença de muitas pessoas ou muita proximidade. Amigos e pessoas mais próximas costumam ser de idades diferentes. Podem inventar relacionamentos.
  • Dificuldade de comunicação e expressão de sentimentos. Ao contrário do autista clássico, que tem atraso no desenvolvimento da fala e, em crise, se comunica não verbalmente, a pessoa com Asperger é capaz de se comunicar normalmente, mas não sabe como usar essa capacidade socialmente; ou seja, não sabe quando deve se expressar ou não (rindo, compartilhando informações pessoais, brincando, exteriorizando opiniões), se mostrando muito expressiva ou muito introvertida. Da mesma maneira, não sabe demonstrar ou identificar demonstrações de afeto, o que os deixa confusos e nervosos.
  • Exclusividade de interesses. O que os interessa, os fascina a ponto de memorizar detalhes desimportantes a respeito do assunto e falar frequentemente apenas sobre aquilo (pode ser uma descoberta, uma celebridade, um programa de TV, um objeto, um animal, uma tecnologia, literalmente qualquer coisa), transformando um simples hobby em objeto de obsessão. O que não os interessa, entretanto, provoca completa apatia.
  • Muita facilidade de aprendizado. Indivíduos com Asperger têm QI mediano ou acima da média, aprendem assuntos de interesse com muita facilidade e frequentemente se mostram autodidatas. São talentosos com números, com música ou com línguas. Suas habilidades de aprendizado compensam a falta de habilidade social, o que os faz serem vistos como "caxias" pelos colegas e os torna vítimas de bullying em potencial.
  • Má coordenação motora e postura, cacoetes. Sentam-se "largados", dormem em posições desconfortáveis, andam ou correm sem muita habilidade (tropeçam/esbarram, estão sempre se machucando, têm dificuldade com sapatos de salto), têm dificuldade com instrumentos musicais, alguns esportes, digitação/escrita, controles de videogame e direção de veículos. Apresentam manias diversas (cutucar feridas, brincar com o cabelo, gestos aleatórios, caretas).
  • Alta sensibilidade a estímulos externos. Alguns sons, cheiros, gostos, texturas ou estímulos visuais específicos desencadeiam crises de ansiedade. Costumam comer e vestir sempre as mesmas coisas.
  • Maturidade emocional atrasada em relação aos demais. São comumente tidos como adolescentes "infantis" para a idade e adultos ingênuos ou imaturos.
  • Maior propensão a distúrbios psicológicos. Indivíduos com Asperger quase sempre apresentam quadros de depressão, ansiedade, bipolaridade, hiperatividade e déficit de atenção, TOC, DPA (déficit do processamento auditivo), distúrbios alimentares e/ou outros.
  • Inflexibilidade de rotina, obsessão pela ordem, rituais pessoais e baixa tolerância à frustração. Como comentei mais cedo, a rotina e a ordem são levadas em alta conta, e a perturbação delas provoca ansiedade e irritação (que podem levar a acessos de raiva).

Ao identificar os sintomas, recorri aos testes para confirmação. Respondi a dois dos indicados (os colocarei ao fim da postagem, com as demais fontes) e ambos confirmaram a probabilidade da síndrome. O indicado é que, se a pessoa sente que isso a afeta negativamente na vida (pessoal e profissionalmente), procure um profissional e faça as terapias aplicáveis. 

No entanto, tendo descoberto a síndrome quase aos 30 anos, sinto que não há necessidade de trabalhar nisso. É sempre um alívio saber que há explicação para as minhas "esquisitices" mas, como eu disse, o adulto geralmente aprende a lidar com as próprias dificuldades ao longo da vida, com ou sem ajuda. Enquanto não for algo que me impeça de funcionar como um ser humano capaz, fico contente em saber que há um nome pra isso e muita gente passando pelo mesmo sem maiores problemas.


O que ajuda:

De maneira geral, ter um amigo próximo que não tenha a síndrome ajuda na parte de interação social e expressão emocional. Ajuda, também, quando as pessoas não apontam nossas "esquisitices" como coisas erradas e, principalmente, nos avisam com certa antecedência quando alguma alteração de rotina precisa ser feita (pegar um autista de surpresa nunca, nunca é uma boa ideia). Não subestimar a nossa inteligência e nem tratar a gente com condescendência também ajuda. Autistas não são retardados. Não seja esse tipo de pessoa.



deixa eu fazer um textão no blog


Sinto que há bem mais pra se falar, mas tô evitando uma aula. Pesquisem mais, se quiserem saber mais. Minhas fontes estão quase todas em inglês, mas tem muita coisa em português pela internet. Estou com um PDF sobre o assunto aqui para traduzir e, assim que terminar, disponibilizo para todos aqui no blog.


Para listas maiores de características e recomendações de tratamento, consulte:


  • Fontes:

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