29/03/2016

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

[...]

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?

[...]

Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,

[...]

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.

[...]

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

[...]



Fernando Pessoa
1926



Entendedores provavelmente entenderão. A poesia só fala com a gente quando o coração pede por ela; ele a reconhece e a acolhe como a um igual. Se o seu coração não a reconheceu como um igual, talvez você esteja melhor assim. Quanto a mim, ainda estou procurando maneiras de provar que sou sublime...

27/03/2016

Meus 5 livros favoritos de não-ficção

Vi esta postagem no Momentum Saga e, como sempre, achei uma boa ideia e vim fazê-la, também. Nunca me canso de sugerir leituras e espero sempre inspirar alguém a aprender mais sobre assuntos interessantes. Por isso, aqui vão meus cinco livros favoritos de não-ficção:





A expressão das emoções no homem e nos animais, de Charles Darwin 

Sou grande entusiasta da etologia (estudo do comportamento), área em que quis me especializar após a faculdade, e este livro é tudo o que eu esperava ler sobre o assunto. Darwin, quando o escreveu, já não podia mais sair de casa devido a sua doença, então os métodos de pesquisa para ele foram bem criativos. E é ilustrado, o que ajuda bastante na compreensão das descrições.


As línguas do mundo, de Charles Berlitz

O ganhei de presente da minha mãe e tenho vontade de ficar abraçada nele pro resto da vida, de tão sensacional que é. Berlitz, mesmo, foi uma pessoa sensacional, cuja erudição admiro muito. Como amo aprender línguas, este livro traz tudo o que um curioso sobre elas quer saber: origens, peculiaridades, confusões, macetes, curiosidades, e tudo de um jeito bem fácil de entender e até divertido.


O professor e o demente, de Simon Winchester

Este é um que tenho há bastante tempo e não cheguei a fazer resenha dele aqui pro blog. O vi à venda esses dias pela Companhia das Letras (o meu é da Record, edição de 1999) e o nome foi alterado para O professor e o louco (caso alguém se interesse por ele e queira procurá-lo). É a interessantíssima história da criação do maior e mais respeitado dicionário do mundo, o Oxford; envolve loucura, assassinato, uma parceria improvável, milhares de colaboradores anônimos e setenta anos de muito, muito trabalho. Pra não ficar muito em tom de documentário, o autor romanceou um pouco a narrativa, o que torna o livro bem gostoso de ler.


Sapiens: Uma breve história da humanidade, de Yuval Noah Harari

O escolhi por indicação do amigo Edison e foi o livro mais abrangente sobre Evolução e Comportamento que já li. Ele é completíssimo: acompanha a história da humanidade desde que agraciou o planeta, passando por todas as revoluções e invenções e descobertas e atrocidades, com explicação pra tudo e uma visão nada parcial pra gente. Indispensável pra várias áreas.


Serial Killers: Histórias reais, assassinos reais, de Harold Schechter

E não é nem por ser uma edição lindíssima, toda ilustrada, bem encadernada, diagramada e ter vindo com brindes (aliás, o único defeito dele é não listar os assassinos no índice - que mancada!). É um apanhado muito abrangente dos principais assassinos em série da história - com mais foco nos EUA - suas histórias e motivações (ou completa falta delas), análise psicológica, métodos investigativos e dicas de entretenimento sobre o assunto. Leitura pesada, mas uma beleza pra quem se interessa.

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Tenho outros favoritos, mas acho que esses são os que gosto mais. Me indiquem os seus, vocês sabem que adoro aprender.

23/03/2016

6 coisas que entendemos errado sobre o mundo

Adoro desmitificar as coisas.




  • Não se pega resfriado por causa do frio


O resfriado é causado por infecção virótica e independe do clima. Como existem cerca de 200 vírus que causam o resfriado, ainda não existe uma cura ou vacina pra isso, então a gente fica a vida toda suscetível a pegar um resfriado de vez em quando. A razão pela qual parecemos ficar mais resfriados no inverno ou quando expostos a baixas temperaturas por longo tempo é que passamos esses momentos presos em lugares fechados, compartilhando o ar com outras pessoas que podem estar contaminadas. Ou seja, quando ficamos resfriados depois de um longa viagem, por exemplo, é porque alguém no ônibus ou avião já estava resfriado; não tem a ver com o ar-condicionado do transporte.



  • O chifre do narval não é um chifre


Foto de Ansgar Walk @ Wikipedia
É um dente, que nem os marfins do elefante. Esse dente do narval é um canino que atravessa o lábio superior e se estende de 1,5 m a três metros. É mais comum nos machos, embora algumas fêmeas talvez apresentem o marfim protuberante, e em uma ocorrência bem mais rara os machos podem apresentar dois marfins. Embora seja comum na natureza que chifres e marfins sejam usados para defesa ou ataque, o marfim do narval é um órgão sensorial: possui vários nervos conectados ao cérebro, que captam estímulos do ambiente. Acredita-se que, quando dois ou mais narvais estão esfregando seus marfins uns nos outros, estejam trocando informações. Outra curiosidade: apesar desse dentão, os narvais não possuem outros dentes!



  • O leão não é o rei da selva




O que deveria ser óbvio, porque leões não moram na selva! E nem perto da selva: o habitat dos leões é a savana, que é uma pradaria composta de poucas árvores espaçadas e muita grama e arbustos. Mas ele pode ser o rei da savana, sem problema com o título.



  • O polvo não tem 8 pernas


Wikipedia


Ele tem duas pernas e seis braços. Os tentáculos dos polvos são funcionais como os membros dos vertebrados: dois tentáculos traseiros servem para a locomoção e os demais são usados para coletar comida e levá-la à boca e para tatear o ambiente para reconhecimento. Polvos são muito inteligentes e também conseguem usar ferramentas para facilitar sua alimentação (como pedras para quebrar cascos e conchas).



  • Nem todo camaleão se camufla


Foto de Yosemite @ Wikipedia

Apenas algumas espécies de camaleão conseguem mudar a cor da pele, e a maioria delas nem faz isso para camuflagem. O principal motivo para a alteração da coloração é social: quando apresentam cores vibrantes, estão demonstrando hostilidade; quando apresentam cores mais escuras ou acinzentadas, é porque reconhecem submissão. Uma espécie que habita o deserto muda sua cor para regular a pele à temperatura: mais escuros de manhã para absorver mais calor, e mais claros à tarde para refletir a luz do sol e não sofrerem com o calor excessivo. 



  • Não dá pra ver a Grande Muralha da China da Lua


Esta imagem da Muralha foi tirada por um satélite ASTER em 2001. A Muralha é aquela linha preta que começa no canto inferior esquerdo e vai até o canto superior direito. A linha mais evidente, que por muito tempo acreditou-se ser o monumento, é um rio: o Grande Canal da China. Imagem da Wikipedia.


O mito começou no século 18 (muito, muito antes do homem sequer começar a criar tecnologia para chegar lá), quando foi escrito que o monumento é tão gigantesco que "com certeza poderia ser visto da Lua". Na verdade, a Grande Muralha não pode ser vista nem da Estação Espacial, que fica bem mais perto, e nenhum astronauta disse já ter conseguido vê-la. Apesar de ser gigantesca, precisaria ser 17 mil vezes maior pra ser distinguida de tão longe, e sua cor, próxima à do chão ao redor, também não ajuda (para uma comparação, ver a Grande Muralha da Lua seria como tentar enxergar um fio de cabelo a 3 km). 


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Postagem inspirada pela original em List25.