01/11/2016

Desafio de Leitura 2016: Quinto relatório

É pela seção de não-ficção que vocês percebem a bagunça que é a minha vida.

O desafio completo está ali à direita da página. Confiram os demais relatórios pela tag "desafio de leitura". 


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Ficção:



1356
Bernard Cornwell - Record - 2013 (2012) - 419p.

Espécie de continuação da trilogia A Busca do Graal. Dez anos após os eventos da história anterior, o arqueiro inglês Thomas de Hookton é novamente incumbido de procurar por uma relíquia: dessa vez, la Malice, a espada de São Pedro. Thomas, agora, tem outros interesses na vida, mas acaba não tendo escolha quanto à sua missão. Como sempre, há muita gente interessada na posse da relíquia, mas nosso protagonista tem suas próprias ideias a respeito do serviço. O cenário ainda é a França, no que é considerado o pior ano da Guerra dos Cem Anos. A essas alturas, o país estava em grande parte tomado pela Inglaterra, mas o rei evitava lutar contra os invasores. A Inglaterra e a Escócia estavam em trégua, mas, com o rei escocês feito cativo, alguns senhores estavam bem dispostos a violá-la, aliando-se aos franceses. Não bastasse toda a devastação que uma guerra traz, o continente também estava sendo assolado pela peste. Vários personagens da trilogia anterior aparecem novamente, assim como vários personagens reais da História, e Cornwell mais uma vez insere fatos fantásticos sobre história e guerra com uma narrativa muito envolvente e personagens espirituosos. As notas históricas ao fim do livro são interessantíssimas, e mostram todo o cuidado que o autor sempre tem com a parte de pesquisa de seus romances. Fica claro que Bernard Cornwell é um apaixonado pela história de seu país, e aprendemos sobre ela como se estivéssemos realmente lá. 

✓ item do desafio: Um livro ambientado em outro país




Wild Cards: Jogo Sujo
V.A. - Leya - 2016 (1988) - 526p.

Quinto volume da série de 22 livros que estão sendo finalmente lançados por aqui e é uma das minhas ficções científicas favoritas. Neste, acompanhamos eventos estranhos que estão acontecendo no Bairro dos Curingas enquanto os principais ases ainda estão viajando ao redor do mundo para conhecer outros afetados pelo xenovírus carta selvagem e tentar acordos políticos. No Bairro dos Curingas, a população de mutantes está sofrendo não só nas mãos de uma violenta briga entre máfias como com uma nova ameaça: o vírus carta selvagem está sendo novamente espalhado, ninguém sabe como, e mais pessoas estão sendo infectadas por ele - tanto "limpos" quanto curingas e ases. Por ser uma versão evoluída (e em constante evolução), a maior ocorrência é a da Rainha Negra, que mata o infectado, e não há nada que o Doutor Tachyon possa fazer para desenvolver uma vacina ou cura. Isso também gera caos no Bairro e a falta de alguns ases vai fazer diferença neste momento complicado. George R.R. Martin, que é o editor desse romance-mosaico (escrito por vários autores simultaneamente) e criador do ás Tartaruga, fez uma nota explicando sobre as dificuldades de montar esse volume. As várias histórias devem se entrelaçar, mas há muitas coisas diferentes acontecendo ao mesmo tempo e ficou realmente complicado montar uma ordem cronológica e fazer os vários acontecimentos se conectarem. Ele mesmo expressa seu descontentamento em não ter conseguido fazer isso muito bem, e dá, mesmo, para perceber a falta de conexão em alguns momentos (várias partes parecem eventos aleatórios, como histórias a parte), mas gostei muito, mesmo assim, principalmente por ter finalmente dado bastante destaque ao ora-curinga-ora-ás Croyd, meu personagem favorito da série toda. O próximo volume já vai ser lançado aqui ainda esse ano.

à parte do desafio




Semideuses e Monstros
V.A. - Intrínseca - 2014 (2008-13) - 271p.

Precisamos falar seriamente sobre a situação das sinopses no mercado editorial brasileiro. A gente nunca mais ficou sabendo direito de que um livro se trata, pois nas contracapas só há as opiniões de outros escritores ou críticos especializados e um ou outro trecho sem contexto retirado do livro. Dito isso, sempre achei que esse aqui seria uma coleção de vários contos com os personagens de Percy Jackson e os Olimpianos. Aí comecei a ler e já vi que não era nada disso: é, na verdade, uma coleção de ensaios de vários autores sobre os personagens da série e também sobre mitologia grega. Admito que é, na verdade, até mais legal do que achei que ia ser! Todos os ensaios, selecionados pelo próprio Rick Riordan, são de autores de suas próprias séries de sucesso para jovens (algumas, inclusive, parecem incríveis, mas nenhuma delas foi ainda publicada no Brasil). Riordan conta, na introdução, como foi interessante ler as interpretações de outros profissionais sobre as suas histórias e seus personagens, pois são mais profundas do que ele tinha intenção de expressar (segundo ele, o personagem de Percy Jackson foi criado para que seu filho e outras crianças como ele - com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade - não se sentissem "errados" e problemáticos, como o ambiente escolar sempre os aponta). Os ensaios dos autores, então, vão desde comparações entre os semideuses da série de Riordan com os clássicos da mitologia; as vantagens das "deficiências" quando se é um semideus; como interpretar profecias do oráculo e como escolher qual o melhor deus para ser seu pai divino; até estudos mais voltados para a mitologia grega, como a história de alguns deuses e heróis e um glossário simples mas muito abrangente das principais personalidades da mitologia. Meus favoritos foram o ensaio sobre o deus Dioniso e outro sobre a interessantíssima mitologia maia. Acredito que seja mais voltado para os fãs mais velhos de Percy Jackson, mas é todo maravilhosamente escrito para que o público jovem se interesse ainda mais pela mitologia e também pela série.

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Guerreiros da Tempestade
Bernard Cornwell - Record - 2016 (2015) - 349p.

Nono volume de Crônicas Saxônicas, que já venho recomendando há um tempão por aqui. Uhtred ainda está ligado a juramentos que o impedem de ir para o norte recuperar as terras de sua família, mas isso está, aparentemente, perto de finalmente acabar. A Mércia está sob o governo de Aethelflaed, mas não há muito o que ela possa fazer contra a vontade de seu irmão, Eduardo, que a impede de conquistar mais glórias do que ele, ao tentar reconquistar sozinha a Nortúmbria dos invasores nórdicos. Além disso, a própria Mércia está sendo novamente atacada, dessa vez pelo impiedoso norueguês Ragnall. Cabe a Uhtred, novamente, ajudá-la, mas ele só vê uma maneira de fazer isso: desobedecendo-a, aliando-se a antigos inimigos do outro lado do mar e reencontrando sua família. Depois de ter lido as histórias do culto e gentil Thomas de Hookton em A Busca do Graal, ler as narrativas do bruto e desbocado Uhtred ficou até mais divertido do que já era. Temos aqui, também, um desenvolvimento merecido da história de Finan, seu melhor amigo de tantos anos, e é uma história bem surpreendente. E, como sempre, Cornwell fecha o livro com notas históricas a respeito dos eventos verdadeiros em que sua ficção é baseada, além de uma super resumida da interessantíssima história da formação da Inglaterra, tão pouco conhecida inclusive dos próprios ingleses.

✓ item do desafio: Um livro ambientado em um lugar que você quer conhecer




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Não-ficção:


Dinossauros
David Norman - L&PM - 2011 (2005) - 192p.

Uma das melhores leituras do ano! Embora compacto, é um livro muito abrangente sobre a história do estudo dos dinossauros. Os famosos répteis viveram na Terra por 160 milhões de anos e estão extintos há 65 milhões de anos, mas só ficamos sabendo sobre eles há cerca de 200 anos, com a descoberta acidental dos primeiros fósseis. Poderia dar uma aula sobre esse assunto tão interessante (tem uma aqui), mas vou tentar resumir tudo o que o autor, que é paleontólogo e diretor do Museu Sedgwick de Geociências, premiado por vários livros sobre o assunto, abrangeu aqui. Desde a descoberta do Iguanodon, em que dois anatomistas disputaram para montar um modelo do bicho inteiro baseados em apenas poucos fragmentos de ossos e um dente (história que terminou em tragédia, com o suicídio de um deles), passando por uma discussão sobre por que os dinossauros são tão populares na cultura até hoje (a teoria mais aceita é que eles eram praticamente uma versão real dos lendários dragões, que habitam as lendas do mundo todo), uma explicação esclarecedora do motivo por que fósseis terrestres inteiros são tão difíceis de se encontrar (resumindo: para um organismo vivo ser fossilizado inteiro, ele precisaria ser soterrado, coberto por lava, congelado ou ido parar de alguma forma no fundo do mar. Morrendo na superfície, animais carniceiros se alimentam do corpo, espalhando os ossos - caso sobre algum - por um raio de vários quilômetros). Além disso, também comenta sobre o "boom" de novas descobertas fósseis e a variedade de espécies que foram sendo descobertas e estudadas nas primeiras décadas do século passado, e como isso resultou no comércio ilegal de fósseis falsificados e na perda de tempo dos cientistas a estudá-los. Logo, também, houve um crescente desinteresse destes pela paleontologia, pois a busca por fósseis acabou virando mais uma questão de inventar nomes diferentes e menos a busca de uma maneira de aplicar essas descobertas a pesquisas realmente úteis. O reinteresse surgiu na década de 1960, quando os cientistas começaram a dispor de melhor tecnologia para estudar os fósseis sem causar danos a eles e, também, para analisar como tudo o que podemos descobrir sobre esses animais e sua (ainda) misteriosa extinção pode ser útil para entendermos como a "reciclagem" do planeta funciona e, principalmente, como nos prepararmos para a próxima. E há, também, curiosidades sobre alguns dinossauros, com base em estudos de seus ossos, múmias, pegadas e coprólitos (fósseis de fezes :P). Mas não vou falar sobre tudo aqui, senão vira aula, haha.

✓ item do desafio: Um livro de não-ficção





Design Para Quem Não é Designer
Robin Williams - Callis - 2005 (1994) - 192p.

Peguei este emprestado com a minha irmã, que é formada em Publicidade e Propaganda. Como trabalho no seu estúdio de fotografia com a diagramação dos álbuns dos clientes, procuro sempre aprender mais técnicas para que o resultado final fique bem legal. O livro é bem simples para leigos e a autora é bem enfática com suas dicas, especialmente no que diz respeito aos quatro princípios básicos do design (proximidade, alinhamento, repetição e contraste). Descobri que venho acertando muita coisa, mesmo sem plena consciência das regras, o que já me tira do grupo de "analfabetos visuais" a quem a autora propõe educar com esse manual. Talvez esse livro seja mais útil para quem produz material textual (panfletos, anúncios, cartões de visita, sites...), mas os princípios são os mesmos para todos que precisam bolar um material visualmente atrativo. A seção sobre fontes foi uma das que mais gostei e me deu várias ideias boas.

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A Tradução Literária
Paulo Henriques Britto - Civilização Brasileira - 2012 - 157p.

Estou com esse na lista desde que ainda estava fazendo a pós-graduação, mas só recentemente pude adquiri-lo. Não se trata de um guia de passo a passo para uma boa tradução literária, mas uma conversa maravilhosa, tanto para profissionais da área quanto para leitores que consomem traduções e não imaginam o quanto a tarefa exige muita criatividade (para impasses linguísticos e dilemas éticos) e competência, além de mero conhecimento da língua estrangeira. Segundo o autor, que é um nome conhecido e muito respeitado no meio, não existe tradução "certa" ou "errada", ou mesmo "boa" e "ruim", pois toda tradução é, na verdade, uma reescrita do original. É impossível se manter 100% fiel à obra original, pois algo sempre se perde no caminho (muitas vezes, por não haver equivalente linguístico, por exemplo, precisamos optar pela exclusão de certos elementos). O que devemos ter em mente, portanto, é repassar com o máximo de cuidado não só as ideias do texto original, como também o estilo escolhido pelo autor para exprimi-las. Por se tratar de um trabalho criativo, há muitas discussões e respeito de como, exatamente, isso deve ser feito. A visão do autor (e a minha, também) é que, por exemplo, se a narrativa é entediante ou cheia de discurso de ódio, o tradutor deve ser invisível e não alterar a linguagem para algo mais fluido ou politicamente correto; do contrário, seu trabalho deixa de ser uma tradução e passa a ser uma adaptação do original. Afinal, um leitor brasileiro que não é capaz de ler a obra de Victor Hugo em francês quer poder dizer que leu, de fato, a obra de Victor Hugo, e não a versão de outra pessoa para ela. Assim, o autor debate todas essas delicadas questões sobre a tradução de conteúdo criativo, inclusive de poesia - que é ainda PIOR de traduzir do que eu já havia experimentado. Há de se estudar muito para ser um especialista.

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O Livro da Ciência
V.A. - Globo Livros - 2014 - 352p.

O que seria de mim sem as promoções lindíssimas da Amazon, que me permitem adquirir essas enciclopédias maravilhosas por preços que posso pagar? Este aqui é um dos volumes da coleção da Globo Livros em formato de enciclopédia sobre os mais diversos temas de estudo. O conteúdo textual é abrangente, mas resumido o suficiente para não ser uma leitura cansativa e fácil de pesquisar, além de ser todo colorido e repleto de ilustrações e fotos. Os tópicos são distribuídos em ordem cronológica das mais importantes descobertas científicas do mundo, desde os povos antigos, passando pela época de ouro do islamismo, até chegar ao apogeu europeu e os dias globalizados atuais. Os textos explicam sobre a importância da descoberta em questão, mas também conta o processo pelo qual foi desenvolvida e uma breve história do cientista responsável. É curioso perceber como muitos dos primeiros cientistas (especialmente antes de existir a função de cientista) eram filósofos, poetas e até músicos - ocupações que exigem certa contemplação do mundo e da natureza, o que levou pessoas brilhantes a entendê-lo um pouco melhor e se dedicarem a esses estudos. As ciências discutidas por todo o livro são a física, química, biologia, geologia, astronomia e matemática.

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As Piores Invenções da História e os Culpados por Elas
Eric Chaline - Sextante - 2013 (2009) - 256p.

Lembro que escolhi este livro por achar que seria uma coletânea divertida dos maiores fracassos da humanidade (até a caixa da livraria riu quando leu o título), mas acabou indo muito além: mais do que uma coletânea de fracassos, esse é um bom resumo da capacidade humana de fazer cagada (com o perdão da palavra). O autor lista em ordem cronológica 50 das piores coisas que a humanidade já criou, e classifica "pior" nas categorias: "nunca saiu do papel", "não funcionou na prática", "matou seu inventor", "um fracasso comercial", "consequências imprevistas" e "usada para fins perversos", com alguns exemplos de "sucesso surgido do fracasso" pra dar uma animada nessa descrença completa na raça humana depois de ler sobre tantos absurdos terríveis. A maioria esmagadora das invenções listadas é parte das "consequências imprevistas", tratando-se de invenções criadas com a intenção de melhorar algum aspecto da nossa vida, mas que acabaram fazendo mais mal do que bem por incapacidade dos criadores de pensar em longo prazo (como a talidomida e a heroína, criadas para promover a saúde e hoje famosas pelos altos índices de mortalidade que causam; além do CFC, plástico e diversos outros exemplos que têm a ver especialmente com estética). Na categoria mais grave estão as invenções que já foram criadas com a intenção de fazer mal, como as guerras químicas e biológicas, a óbvia bomba atômica e os revoltantes animais-bomba. Foi um dos melhores livros que li este ano; incrivelmente enriquecedor e, por isso, altamente recomendado.

✓ item do desafio: Um livro de um autor que tenha as suas iniciais


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✓ itens do desafio eliminados: 04

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