25/03/2017

E aí, recebo um e-mail de mim mesma...

Desde que soube sobre o futureme.org, o achei uma ideia fantástica: poder enviar e-mails para si mesmo em qualquer data do futuro, próximo ou distante, e esquecer deles até que os receba me pareceu uma maneira divertida de garantir algumas surpresas na vida.

Ontem, meu aniversário, recebi este que escrevi em 2012. Primeiro, duvidei de que chegaria um dia, depois me esqueci completamente dele; então foi, realmente, uma surpresa divertida. E aí comecei a refletir, com a mensagem, o quanto aconteceu nessa vida em cinco anos. Não sei se posso dizer por muita gente, mas eu certamente tendo a ver minha vida como sem graça e é fácil pensar que nada nunca acontece. Mas é fazendo esses exercícios de flashback que vejo o quanto estou errada.

Aos curiosos, vamos dissecar o e-mail do passado:





"30 anos, uau! Chegou até aí, espero que com saúde." 

Eu nunca esperei pelos 30 anos; nunca me imaginei nessa idade. Pensar no futuro nunca foi uma atividade saudável pra minha cabeça, por causa dessa ansiedade terrível que tenho desde criança e venho lutando pra sobreviver a ela. Eu procuro viver um dia de cada vez e, por mais que digam que está errado e que eu preciso me planejar para o futuro, é assim que consigo algum controle da minha vida. A saúde, talvez não muito a mental, está bem. Acho que está melhor do que era na época. Perdi um peso com a dengue e outros fatores, mas tomei isso como incentivo para cuidar mais do meu corpo, então melhorei meus hábitos alimentares e venho fazendo exercícios diários desde então. Agora raramente sinto dores musculares e tenho um pouco mais de força e disposição física, além de me sentir mais bonita e gostar mais do meu corpo.


"Já arrumou um namorado?" 

Eu ainda não sabia ser assexual, na época, então isso era uma preocupação bastante estressante. Eu não procurava ter um namorado porque não sentia vontade de ter um, e era justamente isso que me preocupava: que eu tivesse algum tipo de trauma ou problema mental que me impedisse de ser normal nesse aspecto. Descobrir minha sexualidade me aliviou muito e me clareou a mente para que eu soubesse o que eu realmente queria, nesse sentido. Ainda assim, anos de pressão social ainda me faziam me sentir errada e sozinha, então acabei resolvendo tentar, não muito depois disso. Não foi bem um relacionamento (ao menos no que diz respeito à recíproca) e eu até hoje não sei como me referir à pessoa quando o surge o assunto (como se chama alguém que foi importante pra você mas que não te via como muito mais que qualquer uma?). Foi bom enquanto durou e não me arrependo da experiência, mas terminou muito mal pra mim e não me vejo querendo tentar de novo tão cedo.


"Ainda tá dando aula de inglês?"

Acabei deixando de dar aulas na escola onde eu ensinava, alguns anos depois, mas nunca realmente parei de ensinar inglês (até acabei voltando pra lá, temporariamente). Mas, de lá pra cá, fiz uma pós-graduação e vim trabalhando profissionalmente com traduções, também, e ainda trabalho um pouco com a minha irmã, no estúdio. Seria de se esperar que, a essas alturas, eu já tivesse uma carreira definida e uma estabilidade financeira razoável, mas vou ter que aceitar não ser esse tipo de pessoa...


"Tá todo mundo vivo e bem?"

Aqui em casa, todo mundo vivo e bem, apesar do grande susto do ano passado. Pensando melhor agora, que perguntinha perigosa de se fazer, caso a resposta fosse ruim...!


"A Akira ainda tá por aí?"

Não, meu bebê sensacional bem que tentou, mas não conseguiu ficar comigo pra sempre. Ela teve a doença do carrapato e foi tratada, com transfusão de sangue e tudo o mais, mas teve uma recaída uns 6 meses depois e não deu pra ajudar de novo. Ainda morro de saudade da minha pretinha e fico triste por não tê-la mais por perto.


"Não me diga que ainda tá em Rio Verde???"

Então não digo... A ideia nunca foi ficar aqui; penso em conseguir ir embora desde que vim pra cá, mas parece que a vida tem planos diferentes. Reconheço que a vida melhorou em muitos aspectos com essa mudança, mas nunca deixo de pensar em como poderia ser diferente (até melhor) em um lugar com mais oportunidades.


"Será que você vai sentir falta dos seus 25 anos? Só pra te lembrar que eles não estão sendo grande coisa..."

Não sei se sinto falta. Procuro não sentir falta do passado por causa da depressão (eu realmente não preciso ficar desenterrando motivo pra ficar triste), mas certamente sinto falta de saber que ainda sou jovem o suficiente pra ter oportunidades diferentes na vida. Chegar aos 30 dá impressão de fim da juventude e início da era da conformidade. 


"O que você anda assistindo, agora? Em 2012, você ainda tava obcecada por Doctor Who, Merlin e Star Trek."

Ainda amo Doctor Who, apesar de não estar mais obcecada como na época, e Merlin já terminou de passar (de vez em quando ainda revejo alguns episódios, já que os tenho guardados). Star Trek é um amor agora tatuado. Agora estou assistindo a muito mais coisas, mas acho que não há nenhuma obsessão específica. 


"Já terminou de ler todos os X-Men?! Será que vou levar mais de 5 anos??"

HAHAHAH AINDA NÃO TERMINEI! Eu tinha planejado ler todos os Uncanny X-Men, desde o primeiríssimo, mas acabei desistindo depois de uns 200 e tantos. Não que eu não ame, mas acho muito desconfortável ler HQs no computador, então desanimei. Acompanho o que posso, procuro comprar os encadernados, mas agora nossa maior banca de revistas parou de vender gibis, então complicou mais um pouco ser nerdinha...


Terminei a mensagem esperando por uma mudança de opinião a respeito "do mundo e das pessoas", mas não sei dizer se isso mudou. Eu acho que me tornei muito mais receptiva, ao mesmo tempo em que aprendi a lidar melhor com o que sou ou não obrigada, mas sei que ainda tenho minhas fortes e controversas opiniões e nada realmente vai mudá-las, a essas alturas. Estou conseguindo conciliar tudo, então tudo bem.


Eu gostaria de recomendar a vocês que enviem agora mesmo um e-mail para o seu futuro eu. Pode ser pra daqui a um ano, dois, dez ou pra amanhã. Só sejam gentis com vocês mesmos. Garantam uma surpresa legal. :)

10/03/2017

Indo à igreja com a Sinéad


foto por Donal Moloney ©




I don't wanna love the way I loved beforeNão quero amar como amei antes
I don't wanna love that way no moreNão quero mais amar daquele jeito
What have I been writing love songs for?Pra que estive escrevendo canções de amor?
I don't want to write them anymoreNão quero mais escrevê-las
I don't wanna sing from where I sang beforeNão quero cantar de onde cantei antes
I don't wanna sing that way no moreNão quero mais cantar daquele jeito
What've I've been singing love songs for?Pra que estive cantando canções de amor?
I don't wanna sing them anymore,Não quero mais cantá-las
I don't wanna be that girl no moreNão quero mais ser aquela garota
I don't wanna cry no moreNão quero mais chorar
I don't wanna die no moreNão quero mais morrer
So cut me down from this here treeEntão me tire desta árvore
Cut the rope from off of meCorte essa corda de mim
Sit me on the floor,Me sente no chão
I'm the only one I should adoreEu sou a única que eu deveria adorar
Oh, take me to church,Oh, me leve à igreja
I've done so many bad things it hurtsFiz tantas coisas ruins, que dói
Yeah, take me to churchSim, me leve à igreja
But not the ones that hurtMas não àquelas que machucam
Cause that ain't the truthPorque essa não é a verdade
And that's not what it's worthE não é o que vale a pena
I'm gonna sing songs of loving and forgivingVou cantar canções sobre amar e perdoar
Songs of eating and of drinking,Canções sobre comer e beber
Songs of living, songs of calling in the nightCanções de viver, de telefonar à noite
Cause songs are like a bolt of lightPorque canções são como um raio de luz
And love's the only love you should inviteE o amor é o único amor que se deve convidar
Songs of long and spiteful failsCanções de fracassos longos e maldosos
Songs that don't let you sit stillCanções que não vão te deixar parado
Songs that mend your broken bonesCanções que consertam ossos partidos
And that don't leave you aloneE que não te deixam sozinho
So get me down from this here tree,Então me tire desta árvore
Take the rope from off of meCorte essa corda de mim
Sit me on the floor,Me sente no chão
I'm the only one I should adore!Eu sou a única que eu deveria adorar!
Oh, take me to church,Oh, me leve à igreja
I've done so many bad things it hurtsFiz tantas coisas ruins, que dói
Yeah take me to church,Sim, me leve à igreja
But not the ones that hurtMas não àquelas que machucam
Cause that ain't the truthPorque essa não é a verdade
And that's not what it's worthE não é o que vale a pena
Yeah, take me to churchÉ, me leve à igreja.


Até quem acha que não conhece a Sinéad O'Connor, a conhece. Sinéad gravou a versão mais famosa de Nothing Compares 2 U, que estourou no mundo todo e a tornou superfamosa nos anos 1990. [já postei aqui, inclusive]

Sinéad é ainda famosa, infelizmente, pela apresentação polêmica no programa de TV Saturday Night Live que acabou com a sua carreira por um bom tempo. Cantando War, de Bob Marley, Sinéad quis trocar a denúncia de racismo da letra original por uma denúncia ao abuso sexual de menores cometido por membros da Igreja Católica e, para tanto, durante a apresentação, ao vivo, rasgou uma fotografia do Papa. Como a ideia não tinha sido discutida com a produção do programa, o ato radical pegou a todos de surpresa (não houve aplausos, nem vaias) e a reação posterior do público trouxe todo tipo de problema ao programa e, principalmente, a ela. [Os responsáveis pelo programa conseguiram consertar o estrago logo na semana seguinte. Ela, não.]

Antes de um período longo de rejeição do público e eventual ostracismo, Sinéad tentou levar a público a discussão sobre abuso de mulheres e crianças, causas (entre muitas outras) de que se tornou figura ativa e vem discutindo até hoje, embora sempre cercada de polêmica. Ela, mesma, veio de um lar bastante desestruturado e sofria agressões e abusos de sua própria mãe, que faleceu num acidente de carro poucos anos antes da cantora fazer sucesso.

A cantora irlandesa, agora com 51 anos, ainda usa o visual icônico de cabeça raspada, pois sempre quis destruir a imagem tradicional de como uma mulher deveria se parecer. Sua sexualidade sempre foi discutida, embora não seja problema de ninguém. Sinéad também sofre de transtorno bipolar, o que também vem sendo causa de polêmica nos últimos anos, com seus rompantes nas redes sociais de ameaças de suicídio (coisa que ela realmente tentou, anos atrás).

Embora pareça controverso, Sinéad O'Connor é católica e admite que é a sua fé que a mantém firme através das dificuldades. Tanto que, a despeito de não ser reconhecida pela Igreja Católica (que não admite mulheres padres), ela conseguiu uma ordenação sacerdotal da Igreja Ortodoxa. Segundo ela, "Deus salva a todos [...] e não julga ninguém", mas "Cristo vem sendo assassinado por mentirosos no Vaticano" e discursa contra a Igreja e religião sempre que pode.

Pois bem.

Em 2014, Sinéad lançou I'm Not Bossy, I'm The Boss [recomendado aqui no blog], em que aparece completamente diferente na capa e isso, também, trouxe uma leva de controvérsias que não a atingem. Minha música favorita do álbum é esta, Take Me To Church, cuja letra e tradução minha coloquei acima. O vídeo oficial é o que segue:




Agora, apresentados à vida e história da cantora, vocês podem entender melhor a carga de significado que essa música leva (vocês certamente notaram a referência ao seu vídeo mais famoso, logo no começo deste, bem como às suas músicas mais famosas, na letra). Por gostar tanto da Sinéad e por entender isso, essa música sempre me emociona porque, além de ser uma demonstração de desprendimento do passado, superação de dificuldades e aceitação de si própria ("I'm the only one I should adore!" - sai, peruca!), me inspira a querer ser como ela. Confiante, independente, fiel a si mesma e ao que acredita, relevante e absolutamente maravilhosa. Quero que mais mulheres também queiram ser como a Sinéad.

01/03/2017

Falando sobre música e musiquinhas (de novo)

(Tirei as perguntas daqui)





Que música sempre levanta seu astral?

The Bare Necessities/I Wanna Be Like You, temas de Mogli, cantados pelos caras do The Overtones. Sempre uma fofura de se ouvir!



O que você prefere, músicas populares ou relativamente desconhecidas?

Não é a partir disso que seleciono minhas preferências, atualmente. Prefiro o que acabar ouvindo e gostando muito. Ultimamente, tenho gostado até que de bastante coisa popular, mas acabo sempre me enfiando nos cantos escuros das músicas relativamente desconhecidas. Então, baseada nas curtidas que recebo quando as compartilho, imagino que ainda dou preferência às relativamente desconhecidas...


Qual foi a última música que você ouviu?

Não ouço nada há algumas horas e não lembro qual foi a última, então vou tocar algo aleatório aqui e ver o que sai.

Foi Gandhi Mate, Gandhi, do Enter Shikari, minha mais recente coisa favorita com esse estilo louco, essas letras inteligentes e esse carisma todo. Essa música, em especial, é sempre engraçada porque o Rou surta a uma certa altura e os caras param e pedem calma, haha.




Existe alguma música que sempre te faz chorar?

Sempre, não; algumas me pegam nos feels nas primeiras vezes, mas depois me acostumo com elas. A última por um bom tempo foi Dressed In Black, da Sia, porque eu me identifico com metade da letra, e a outra metade nunca existiu...



Você gosta de ir a shows? Por que ou por que não? Qual foi o último a que você foi?

Gosto, mas já não me desespero pra ir. É sempre complicado ir ver alguma banda ou artista que gosto porque eles vão fazer shows em outras cidades e isso implica numa despesa bem grande. Quando tenho os meios e companhia pra ir, vou; se não, nem choro mais por causa disso. O último a que fui (que eu gostasse) foi um do Bring Me The Horizon, março passado, em São Paulo. 


Qual foi a primeira banda ou artista que você foi realmente fã? Ainda gosta?

Backstreet Boys, que mulher da minha idade não? Não acompanho mais as novidades (já que eles voltaram), mas ainda sei tudo de cor e gosto bastante, sim. Até tentei ir ao show deles, há uns dois anos, mas não deu pra comprar ingresso :(


Discos, fitas, CDs, MP3. Qual destes acompanhou o seu crescimento? Quais as vantagens e desvantagens de cada?

Discos na infância, fitas e CDs (embora só mais tarde) na adolescência. Os discos não eram realmente de nada que eu gostasse; eram as coisas que meus pais ouviam. Aí comecei a gostar de rádio e gravava o que mais gostava em fitas. 

Discos são nostálgicos e eu ainda tenho alguns comigo, mas não os ouço porque não tenho mais onde tocá-los. Tocadores modernos são caríssimos e não acho que compense comprar um, se posso ouvir o que tenho aqui por streaming. Fitas quebravam um galho quando eu queria ter acesso às minhas músicas favoritas e eram bem baratas, mas eram frágeis ao rebobinar (quantas já embolei...). CDs são coisas que ainda tenho aos montes e ainda coleciono os dos meus artistas favoritos, porque adoro poder ter no que pegar e ler os encartes enquanto ouço as músicas - e são sempre minha preferência quando não quero ou posso usar o computador/celular. MP3 são uma maravilha e eu tinha milhares (que acabava eventualmente gravando em CDs...), tive um iPod que me acompanhou fielmente por muitos anos. Mas aí logo vieram os serviços de streaming e há anos não baixo nada em MP3.


Que bandas ou que tipos de música você ouve enquanto se exercita?

Acabo preferindo ouvir pop (não ouço de tudo no estilo porque tenho lá minhas antipatias generalizadas), porque tem uma batida ritmada que ajuda com o tédio dos exercícios repetitivos. Eu coloco Lady Gaga, Sia, Maroon 5 ou até *NSYNC; às vezes coloco algo mais nervoso, às vezes coloco ska. Depende do meu humor, também.


Você gosta de música clássica?

Eu sou um tanto indiferente a música clássica, coisa que gostaria de mudar. Sei que é bom para promover a concentração durante o trabalho, mas acabo ouvindo música instrumental não-clássica, como folk.


Qual a melhor maneira de conhecer músicas novas?

Eu até postei algo do tipo por aqui há muito tempo, mas vou atualizar as dicas.

Pra quem utiliza serviços de streaming, como o Spotify, é bem fácil: ele mesmo já monta playlists de sugestões baseadas no que você ouve ou seu estado de espírito, apresenta artistas relacionados aos que você já conhece, sugere o que está bombando no momento, mostra os lançamentos... É uma infinidade de opções, só escolher e clicar. Se você não usa o serviço, há o jeito antigo: pergunte ou veja o que seus amigos de gostos semelhantes gostam, descubra as inspirações dos seus artistas favoritos, preste atenção em trilhas sonoras, ouça rádio (se gostar de música atual)... Tem tanto jeito; só fica preso na mesma coisa quem realmente não se interessa por mais.