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E aí, recebo um e-mail de mim mesma...

Desde que soube sobre o futureme.org, o achei uma ideia fantástica: poder enviar e-mails para si mesmo em qualquer data do futuro, próximo ou distante, e esquecer deles até que os receba me pareceu uma maneira divertida de garantir algumas surpresas na vida.

Ontem, meu aniversário, recebi este que escrevi em 2012. Primeiro, duvidei de que chegaria um dia, depois me esqueci completamente dele; então foi, realmente, uma surpresa divertida. E aí comecei a refletir, com a mensagem, o quanto aconteceu nessa vida em cinco anos. Não sei se posso dizer por muita gente, mas eu certamente tendo a ver minha vida como sem graça e é fácil pensar que nada nunca acontece. Mas é fazendo esses exercícios de flashback que vejo o quanto estou errada.

Aos curiosos, vamos dissecar o e-mail do passado:





"30 anos, uau! Chegou até aí, espero que com saúde." 

Eu nunca esperei pelos 30 anos; nunca me imaginei nessa idade. Pensar no futuro nunca foi uma atividade saudável pra minha cabeça, por causa dessa ansiedade terrível que tenho desde criança e venho lutando pra sobreviver a ela. Eu procuro viver um dia de cada vez e, por mais que digam que está errado e que eu preciso me planejar para o futuro, é assim que consigo algum controle da minha vida. A saúde, talvez não muito a mental, está bem. Acho que está melhor do que era na época. Perdi um peso com a dengue e outros fatores, mas tomei isso como incentivo para cuidar mais do meu corpo, então melhorei meus hábitos alimentares e venho fazendo exercícios diários desde então. Agora raramente sinto dores musculares e tenho um pouco mais de força e disposição física, além de me sentir mais bonita e gostar mais do meu corpo.


"Já arrumou um namorado?" 

Eu ainda não sabia ser assexual, na época, então isso era uma preocupação bastante estressante. Eu não procurava ter um namorado porque não sentia vontade de ter um, e era justamente isso que me preocupava: que eu tivesse algum tipo de trauma ou problema mental que me impedisse de ser normal nesse aspecto. Descobrir minha sexualidade me aliviou muito e me clareou a mente para que eu soubesse o que eu realmente queria, nesse sentido. Ainda assim, anos de pressão social ainda me faziam me sentir errada e sozinha, então acabei resolvendo tentar, não muito depois disso. Não foi bem um relacionamento (ao menos no que diz respeito à recíproca) e eu até hoje não sei como me referir à pessoa quando o surge o assunto (como se chama alguém que foi importante pra você mas que não te via como muito mais que qualquer uma?). Foi bom enquanto durou e não me arrependo da experiência, mas terminou muito mal pra mim e não me vejo querendo tentar de novo tão cedo.


"Ainda tá dando aula de inglês?"

Acabei deixando de dar aulas na escola onde eu ensinava, alguns anos depois, mas nunca realmente parei de ensinar inglês (até acabei voltando pra lá, temporariamente). Mas, de lá pra cá, fiz uma pós-graduação e vim trabalhando profissionalmente com traduções, também, e ainda trabalho um pouco com a minha irmã, no estúdio. Seria de se esperar que, a essas alturas, eu já tivesse uma carreira definida e uma estabilidade financeira razoável, mas vou ter que aceitar não ser esse tipo de pessoa...


"Tá todo mundo vivo e bem?"

Aqui em casa, todo mundo vivo e bem, apesar do grande susto do ano passado. Pensando melhor agora, que perguntinha perigosa de se fazer, caso a resposta fosse ruim...!


"A Akira ainda tá por aí?"

Não, meu bebê sensacional bem que tentou, mas não conseguiu ficar comigo pra sempre. Ela teve a doença do carrapato e foi tratada, com transfusão de sangue e tudo o mais, mas teve uma recaída uns 6 meses depois e não deu pra ajudar de novo. Ainda morro de saudade da minha pretinha e fico triste por não tê-la mais por perto.


"Não me diga que ainda tá em Rio Verde???"

Então não digo... A ideia nunca foi ficar aqui; penso em conseguir ir embora desde que vim pra cá, mas parece que a vida tem planos diferentes. Reconheço que a vida melhorou em muitos aspectos com essa mudança, mas nunca deixo de pensar em como poderia ser diferente (até melhor) em um lugar com mais oportunidades.


"Será que você vai sentir falta dos seus 25 anos? Só pra te lembrar que eles não estão sendo grande coisa..."

Não sei se sinto falta. Procuro não sentir falta do passado por causa da depressão (eu realmente não preciso ficar desenterrando motivo pra ficar triste), mas certamente sinto falta de saber que ainda sou jovem o suficiente pra ter oportunidades diferentes na vida. Chegar aos 30 dá impressão de fim da juventude e início da era da conformidade. 


"O que você anda assistindo, agora? Em 2012, você ainda tava obcecada por Doctor Who, Merlin e Star Trek."

Ainda amo Doctor Who, apesar de não estar mais obcecada como na época, e Merlin já terminou de passar (de vez em quando ainda revejo alguns episódios, já que os tenho guardados). Star Trek é um amor agora tatuado. Agora estou assistindo a muito mais coisas, mas acho que não há nenhuma obsessão específica. 


"Já terminou de ler todos os X-Men?! Será que vou levar mais de 5 anos??"

HAHAHAH AINDA NÃO TERMINEI! Eu tinha planejado ler todos os Uncanny X-Men, desde o primeiríssimo, mas acabei desistindo depois de uns 200 e tantos. Não que eu não ame, mas acho muito desconfortável ler HQs no computador, então desanimei. Acompanho o que posso, procuro comprar os encadernados, mas agora nossa maior banca de revistas parou de vender gibis, então complicou mais um pouco ser nerdinha...


Terminei a mensagem esperando por uma mudança de opinião a respeito "do mundo e das pessoas", mas não sei dizer se isso mudou. Eu acho que me tornei muito mais receptiva, ao mesmo tempo em que aprendi a lidar melhor com o que sou ou não obrigada, mas sei que ainda tenho minhas fortes e controversas opiniões e nada realmente vai mudá-las, a essas alturas. Estou conseguindo conciliar tudo, então tudo bem.


Eu gostaria de recomendar a vocês que enviem agora mesmo um e-mail para o seu futuro eu. Pode ser pra daqui a um ano, dois, dez ou pra amanhã. Só sejam gentis com vocês mesmos. Garantam uma surpresa legal. :)

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