03/07/2017

Sobre razão e sensibilidade

Marianne por kelleybean86 @ DeviantArt.com


"[...] e logo faltou coragem para Marianne tentar conversar sobre um assunto que a deixava cada vez mais insatisfeita consigo mesma, pela comparação que necessariamente produzia entre o comportamento de Elinor e o seu próprio.
Sentiu toda a força daquela comparação, porém, não para forçá-la a se empenhar, como esperara a irmã; sentiu-a com toda a dor do remorso contínuo, lamentou amargamente nunca se ter esforçado na vida, mas aquilo só lhe trouxe a tortura da penitência, sem a esperança de corrigir-se. Seu ânimo estava tão debilitado que ela ainda acreditava ser impossível qualquer esforço, e, assim, aquilo só a desanimava ainda mais."

Razão e Sensibilidade
Jane Austen, 1811
[Martin Claret, 2012. Traduzido por Roberto Leal Ferreira]


Elinor tem seu coração partido ao descobrir que o homem por quem era apaixonada e com quem esperava noivar-se já era noivo de outra mulher há muito tempo. A irmã, Marianne, tem o seu coração partido ao descobrir que o homem por quem era apaixonada e esperava noivar-se não queria saber de compromisso com ninguém e era meio que um babaca completo. Cada uma lidou do seu jeito: enquanto Marianne caiu em uma depressão debilitante que a deixou, nas palavras do irmão, "tão feia que ninguém mais vai querer se casar com ela", Elinor sofreu em silêncio e dedicou-se à recuperação da irmã e, ironicamente, a consolar a noiva do rapaz em questão, que nada sabia sobre os sentimentos dela.

A razão dita que a reação de Elinor é mais bonita e altruísta, talvez até mais correta e melhor para seu próprio bem-estar. A razão diz que sofrer pelo que não pode ser mudado é inútil e que a única coisa que você pode fazer para superar a própria dor é estar presente para que as pessoas que você ama não sofram também. Todos sofremos, mas todos queremos (ou deveríamos, pela razão) ser como Elinor. Parabéns, Elinor!

Mas a sensibilidade é aquela vadia que transforma algumas pessoas em Marianne. A depressão parece uma condição egoísta em que só pensamos em nós mesmos e ignoramos a dor do próximo. Marianne não querer socializar com a família e amigos e só conseguir chorar em sua cama todos os dias, o dia inteiro, pode parecer imaturo e irritante ("supera, Marianne!"), mas nem todos têm a força mental de Elinor. Algumas pessoas ficam doentes e isso não deveria ser tratado como drama adolescente. 

O fato de serem irmãs não as obriga a serem iguais. Sendo assim, não podemos exigir de Marianne que seja Elinor. Marianne não quer se isolar, deixar de comer ou chorar por meses a fio, mas é só o que ela consegue fazer. 

Razão e sensibilidade não são excludentes. Todos sofremos pelo excesso ou déficit de ambas, em diferentes graus. Meu cérebro Elinor sofreu um bata choque de Marianne nos últimos meses e não está conseguindo se restabelecer muito bem, ou ao menos não tão rápido quanto eu gostaria. Estou tendo ajuda de algumas Elinores sensatas que não fazem minha Marianne atual se sentir tão mal sobre ela mesma, e por isso sou grata. Logo espero ser uma Elinor novamente.


(eu não costumo ler romances mas, quando leio, rapaz. cada soco.)

3 comentários:

  1. Acho que é uma das melhores resenhas de livro que li nos últimos anos. E com um necessário toque pessoal.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Caramba, fico feliz!! :D
      Ainda há muito o que se falar sobre o livro, mas foi mais um momento de reflexão sem pretensões. Obrigada pelo carinho!

      Excluir

Bom senso, respeito e educação são esperados e sempre bem-vindos nos comentários. Obrigada pela visita!