"De Plástico", um crossover sem sentido por Emmanuella Conte

Comentei anteriormente sobre um conto que havia escrito, baseado em uma proposta do Termine Este Livro, de Keri Smith. A proposta consistia em escolher um objeto favorito e escrever um conto de uma página sobre ele, mas, como trapaceei e escolhi quase todos os meus action figures, o tal conto acabou rendendo muito mais que uma página (42 páginas de um caderno pequeno, na verdade).

Expressei, também, a vontade de postá-lo por aqui. Então, embora praticamente ninguém tenha pedido pra ler (exceto pela Ana Cláudia - obrigada, Ana Cláudia!), resolvi passá-lo para cá na íntegra. Avisem-me se chegarem ao final sem morrerem de tédio.

p.s.: Os personagens não são meus, por isso não vou ganhar dinheiro com o conto. Entretanto, não vão esquecer de me mencionar se forem espalhá-lo por aí, ok?

p.p.s.: A história é cheia de clichês e furos. E daí?

Personagens: 11º Doutor, Amy Pond, um Dalek, Spock, Homem de Ferro, Wolverine, Professor X, Coisa, Loki, Gandalf, Obi-Wan Kenobi, Darth Vader. Mais: chave de fenda sônica, a TARDIS, a Enterprise.

Sinopse: Em mais uma pane louca da TARDIS, o Doutor e Amy vão parar em um lugar onde as proporções das coisas são estranhas e tudo parece feito de plástico. Com a ajuda de inesperados aliados, o viajante do tempo e espaço vai lutar mais uma vez contra as leis da Física e tentar desvendar todo o mistério que envolve o estranho local.

De Plástico

de Emmanuella Conte - setembro/14

- Sabe aonde poderíamos ir em seguida, Doutor? Para casa! - Amy estava impaciente para ver o marido. - Prometi ensinar o Rory a assar biscoitos, e a essa hora ele já deve ter tentado sozinho e explodido metade da casa!

- Achei que a Internet já existisse na sua época, Amy. - O Doutor corria ao redor do painel de controle da TARDIS, com certa dificuldade no manuseio de alguns botões e alavancas que precisavam ser operados ao mesmo tempo. - Ele é capaz de pesquisar por uma receita sozinho. E você bem que podia me ajudar com isso aqui, Pond! Aperte esse botão com o cotovelo e aquele ali com o pé.

- Cotov... ah. - Amy percebeu que era impossível fazer o que ele pedia de qualquer outro ângulo. - E eu sei que ele pode, mas essa receita é de família e eu posso ter exagerado na descrição de certas medidas...

A TARDIS deu um solavanco abrupto e ficou de cabeça para baixo, caindo pelo vórtex em uma espiral de alarmes e luzes piscando. O Doutor colocou-se de pé o melhor que pôde e foi conferir o painel.

- Pelo amor de Deus, Pond, você colocou o cotovelo esquerdo e o pé direito como eu pedi?

- Você nunca disse qual; só usei qualquer um!

- Não, não, não, você apertou os botões errados! O cotovelo direito e o pé esquerdo podem ativar o comando de autodestruição!

- Eu deveria estar surpresa porque a TARDIS também faz isso?

- Claro que deveria, nunca te contei!

Talvez Amy estivesse mais impressionada se não estivessem despencando pelo vórtex a uma velocidade tão vertiginosa. O Doutor tentava agilmente reparar o engano, mas a TARDIS interrompeu sua queda com um baque.

- OK, isso foi estranho.

- Não me diga. - Amy se levantou e tentou se arrumar como pôde.

- Digo, Pond: Foi estranho porque a TARDIS raramente bate em algo, porque ela não viaja assim. Ela não pousa, mas se materializa!

Amy percebeu o que o Doutor quis dizer. Olhou para o monitor, mas este estava apagado.

- Acho que o pouso forçado deve ter avariado os controles. Onde será que estamos?

- Poderíamos abrir a porta e olhar. Os consertos por aqui vão levar um bom tempo, mesmo...

Amy correu até a porta e a puxou. O que viu do lado de fora a fez empurrar a porta novamente. Voltou lentamente até onde o Doutor estava e ficou parada ao seu lado.

- Vamos, vamos, chavinha, preciso de você para consertar tudo isso. - Ele batia com a chave de fenda sônica na palma da outra mão. - Pond, veja se encontra outra ali no painel.

Amy não se moveu. O Doutor ia repetir o pedido, quando percebeu que ela parecia aterrorizada. Levantou-se de baixo do painel, olhou para a companheira e perguntou cautelosamente:

- Amy... O que tem lá fora?

Amy parecia atônita e não conseguia formular bem as palavras.

- Eu... eu... Parece...

- O quê?

- Eu... acho que eu vi um... Dalek.

O Doutor jogou os braços para cima, em absoluta impaciência.

- Claro que você viu um Dalek. Porque não há um único canto desse Universo onde não haja um Dalek!

Amy continuava em choque.

- Não, você não entende. Esse Dalek, ele... Acho melhor você mesmo olhar.

Desconfiado, o Doutor se dirigiu até a porta com a chave de fenda sônica empunhada, mas aí se lembrou de que ela não funcionava e a atirou por cima do ombro, atingindo Amy.

- Ai, cuidado!

- Eu sempre tenho cuidado. Ao contrário de você, que troca os pés pelos cotovelos! - apontou, acusadoramente.

- Isso não é verdade! E olhe logo!

O Doutor puxou a porta somente uns poucos centímetros, para que pudesse espiar... e o viu: não apenas um Dalek, mas o mais gigantesco Dalek que já havia visto. Bateu a porta e voltou correndo para o painel de controle.

- Aquela coisa é maior do que a TARDIS! - gritou. - Preciso consertar isso o mais rápido possível.

Enquanto o Doutor mexia desesperadamente em botões e fiações, Amy se aproximou:

- Eu estive observando a sua chave de fenda sônica, Doutor... e estou com uma impressão esquisita.

- Que tipo de impressão esquisita? Não são gases, são? Você realmente deveria se certificar disso antes de dizer que está com impressões esquisitas, porque a maioria delas eram apenas manifestações gasosas de coisas esquisitas que você comeu.

- Doutor! - Amy o interrompeu. - Sua chave de fenda sônica não funciona porque é de plástico! É falsa!

- Quê? Como?! - Ele tomou a ferramenta da mão dela. - Estava o tempo todo comigo, até a usei pouco antes de cairmos!

- Sim, mas agora ela é de plástico e não funciona. E... agora que estou reparando... - a companheira tocou o painel à sua frente. - Doutor! O painel de controle da TARDIS!

O Doutor correu ao redor do painel, esquecendo-se momentaneamente do Dalek colossal do lado de fora, e confirmou a suspeita de Amy: o painel também era todo plástico... falso.

- Amy, Amy, Amy, o que você fez? - passou as mãos pelo cabelo, pensando desesperadamente em uma solução.

- Bem, antes de me acusar pelas loucuras da sua nave, pense em me dar ordens mais claras, da próxima vez! - Saiu correndo para  o corredor, em direção aos seus aposentos, quando bateu em algo sólido no caminho.

- Ótimo! O resto da TARDIS também é falso, agora!

O Doutor aproximou-se de onde ela estava e esticou as mãos para a frente, na entrada do corredor, e encostou em uma parede, como se houvesse um vidro que os separasse do restante da nave; mas não era vidro nenhum. Todo o interior da TARDIS era uma pintura.

- Estamos cercados. Não podemos ir adiante, e não podemos seguir viagem. O que faremos, Pond?

Amy refletiu por um instante, e finalmente propôs:

- Talvez devêssemos tentar a sorte lá fora. Aquele Dalek gigantesco provavelmente não vai nos ver.

- Você pode ter razão. Não ganhamos nada ficando aqui. - O Doutor foi mais uma vez até a porta, segurou a maçaneta, respirou fundo e a puxou de uma vez.

* * *

O Dalek não deu sinal de que os tinha notado. Ele parecia absolutamente imóvel. Os dois saíram da TARDIS cautelosamente e, passo a passo, passaram em frente ao Dalek. Ainda nem sinal de movimento.

- Será que ele também é de plástico...?

- Não quero acreditar nisso, Pond, seria muito conveniente. Nós não somos, perceba, não fomos afetados. Mas... - Com um terrível pressentimento, olhou para trás. - Oh não, a TARDIS!

Como todo o seu interior, a TARDIS também havia se tornado plástico. O Doutor ficou de repente muito triste.

- Tudo virou plástico, exceto por nós. Por quê? Eu poderia dizer com a minha chave de fenda sônica, mas nem ela escapou.

- Talvez por sermos orgânicos...?

- A TARDIS também possui matéria orgânica. Isso não explica.

Ambos voltaram a olhar para o Dalek e, vendo que ele permanecia imóvel, se aproximaram.

- A armadura dele... parece... Sim, veja, Amy! Plástico! - deu umas pancadinhas para demonstrar.

Amy bateu de leve na carapaça do Dalek com os nós dos dedos e comprovou. Era realmente plástico.

- Ah! Poderia ser pior, então! - alegrou-se.

De repente, o visor do Dalek fez um movimento brusco e apontou para os dois.

- EXTERMINAR!

- Corra!

O Doutor e Amy se esconderam atrás da TARDIS e esperaram, mas nada aconteceu. O Dalek soltou seu grito de guerra novamente, mas não se moveu. Mexeu os aparatos que pareciam braços, mas nada acontecia.

- Eu não... entendo - disse, em sua voz pausada. - Meus raios não... funcionam. Não consigo... andar. Explique! Explique!

Lentamente, o Doutor saiu de trás da nave e se aproximou do inimigo.

- Seus sistemas não estão operacionais. É tudo falso, agora.

O Dalek pareceu confuso e ficou quieto por um momento. Tentou novamente se mover, mas nada além de seus braços e visor se mexia.

- Isso é... ilógico.

- Creio que vocês ainda não perceberam o quão ilógica esta situação realmente é.

Amy, o Doutor e até mesmo o Dalek se viraram para ver o dono da voz profunda que havia dito aquilo, e se depararam com um homem alto e de orelhas pontudas, que usava uma espécie de uniforme e segurava algo que parecia uma arma.

- Espere, eu sei o que você é. Vulcano, certo? - o Doutor parecia fascinado. - E o seu uniforme... Mas... a Federação ainda... Em que ano estamos, Pond? - correu em direção à sua assistente, mas ela parecia confusa.

- Aqui e agora, é difícil saber. A TARDIS nos diria, mas... - olhou para a nave, impotente.

- Não creio que tal informação seja relevante, de qualquer modo - interveio o estranho. Estou mais interessado em saber por que meu phaser se converteu em algum polímero rudimentar e, portanto, disfuncional. Meu tricorder tampouco funciona, então não posso deduzir nada lógico a respeito deste lugar... ou por que tudo parece tão desproporcional. - O vulcano se referia a ele próprio e aos outros. Era maior que o Doutor, e mesmo a TARDIS, mas ainda assim menor que o Dalek.

- Spock - apresentou-se. - Vim a bordo da USS Enterprise, mas algo a avariou no incidente.

- Nossa TARDIS também está avariada - explicou o Doutor, depois de se apresentar e à Amy. - Sua nave também virou plástico?

- E não só - confirmou Spock. - Ela também parece ter... encolhido. Venham.

Com exceção do Dalek, que não conseguia se deslocar, todos foram até a nave de Spock, que estava atrás de um morro próximo. A Enterprise estava realmente pequena, menor do que todos os presentes.

- Alguma ideia do que possa ser isso? - perguntou o Doutor - E como você conseguiu sair da nave, se é bem maior?

Spock refletiu por uns instantes e respondeu:

- Na realidade, não me recordo de ter saído da nave. Tivemos um problema a bordo envolvendo o motor de dobra e, quando a confusão cessou, me vi aqui, afastado dela. Tampouco consigo encontrar minha tripulação - Apontou para o Dalek, do outro lado do morro. - O vi ao longe e vim nesta direção, na esperança de encontrar alguém.

- E nos achou - concluiu Amy. - Mas não é de muita ajuda, já que também não sabemos o que houve, e nosso equipamento também não funciona.

Todos ficaram quietos com os próprios pensamentos por alguns segundos. Amy levantou a cabeça e olhou mais adiante, tentando apreender algo daquele lugar tão deserto e montanhoso, quando notou algo.

- Olhem! Lá em cima daquela montanha! - apontou para uma montanha a alguma distância à frente, e então viram clarões azuis e vermelhos que se moviam ritmicamente e se encontravam. - O que será aquilo?

- Não temos como saber daqui, sem equipamentos. - O Doutor se virou para Spock e perguntou: - Acha prudente?

- Acho lógico. Pode ser uma pista.

- Mas é tão longe... - lamentou-se Amy, já exausta.

- Em circunstâncias normais eu nos teletransportaria  até lá, mas... - desculpou-se Spock.

- Vamos esticar essas pernas compridas, Pond. A não ser que queira voltar para a TARDIS e bater um papo com o Dalek.

- OK, OK, eu vou.

* * *
A montanha, afinal, não era tão distante, mas o caminho era bem difícil, com muitas rochas e fissuras. A certa altura, Amy tropeçou em algo e caiu.

- Argh, ficar com o Dalek seria menos perigoso - queixou-se, enquanto se levantava e limpava a poeira da roupa.

- Amy, espere.

O Doutor se aproximou do ponto onde ela havia tropeçado e levou a mão instintivamente ao bolso onde sua chave de fenda sônica estaria, mas lembrou-se de que ela não estava ali e, mesmo que estivesse, não ajudaria. Ajoelhou-se e começou a limpar o chão das pedrinhas e terra.

- Aqui, tem alguma coisa aqui. Me ajudem a escavar.

Spock e Amy se ajoelharam ao lado do Doutor e o ajudaram a afastar a terra e os pedregulhos, e logo desenterraram algo que parecia um homem em uma armadura vermelha e dourada.

- Olá, alguém aí dentro? - O Doutor dava pancadinhas na cabeça da armadura. - Ô de casa!

- Au, pare com isso, homem!

O estranho na armadura se sentou, levou as mãos ao rosto e retirou a placa frontal que o cobria. Tinha cavanhaque e uma expressão divertida, embora um olhar arrogante.

- Nunca me acostumo a esses tombos.

Levantou-se com alguma dificuldade e, finalmente notando todos os presentes, apresentou-se:

- Tony Stark - se apresentou, com um sorriso aberto. - Milionário, gênio, etc. etc. - Vendo que não foi reconhecido, continuou. - Ou, já que estou com a armadura, vocês talvez me conheçam como o Homem de Ferro.

- Mais pra Homem de Plástico, agora. Sua armadura também foi afetada. - Amy apontou para ele em uma demonstração e Tony Stark percebeu o que ela quis dizer.

- Ah não, não, não! Como isso é possível?!

- Como veio parar aqui? - quis saber o Doutor.

Tony pensou por uns instantes e respondeu:

- Não sei bem... Eu estava sobrevoando Nova York na minha armadura, indo ao encontro dos Vingadores para ajudar em uma emergência, quando o Jarvis me alertou de um mau funcionamento e, antes que eu pudesse checar o que era, o sistema todo pifou e senti que estava caindo... Depois disso, só me lembro de ter recebido umas pancadas na cabeça. - Olhou acusadoramente para o Doutor.

- OK. Todos nós somos de lugares e épocas diferentes, mas viemos parar aqui e agora devido a falhas em nossos respectivos sistemas. Mas, como, por quê? - o Doutor se sentia frustrado por não conseguir desvendar aquilo. - E por que tudo vira plástico e muda de tamanho? Por que você é tão gigantesco, afinal? - e apontou para Tony Stark, que era maior até que o Dalek do lado de fora da TARDIS.

- Ei, eu não faço ideia, certo? Jarvis poderia oferecer alguma teoria, mas não consigo me comunicar com ele.

- Não é tão genial assim, hein? - Amy sentou-se no chão e apoiou o queixo nas mãos, cansada. Stark pareceu ofendido.

- Sou genial com coisas que posso fazer funcionar eletronicamente, mas não consigo fazer muito com plástico. E, pelo visto, nenhum de vocês - disse, enquanto via Spock tentar a sorte com seu tricorder mais uma vez.

- Sugiro que continuemos a caminhada até o topo e investiguemos a origem das luzes que vimos - Spock disse, ao ser flagrado em atitude ilógica.

Sem poder tirar a armadura, que explicou ser impossível sem comando eletrônico, Tony seguia o grupo montanha acima, andando com muita dificuldade.

- Aquelas luzes me parecem bastante perigosas - comentou, ofegante. - E artificiais, também. Deve ser a única coisa artificial funcionando por aqui.

- Pode nos dar alguma pista da situação intrigante em que nos encontramos - observou Spock, não demonstrando sinais de cansaço.

* * * 

- Anormalmente quieto, Doutor - Amy grudou em seu braço.

- Não gosto do que não consigo explicar. E está tudo quieto demais, embora o bonitão ali seja bem espalhafatoso.

Tony ouviu, enquanto se arrastava ao lado deles.

- Eu costumo ser mais respeitado que isso, sabem, nanicos?


Ao se aproximarem do topo da montanha, viram que as luzes continuavam brilhando e se chocando, como dois feixes em luta. Agora também era possível ouvir o som que emitiam, e... vozes.

- Parece se tratar de uma luta - Spock ergueu uma sobrancelha, denotando leve curiosidade. Tony Stark pareceu se alegrar com a perspectiva.

- Ótimo, finalmente um pouco de ação!

Quando alcançaram o topo, todos puderam ver de onde vinha aquela confusão de luzes e sons. Havia dois homens de fato lutando, utilizando como armas uma espécie de espada que, ao invés de lâmina, possuía um feixe de laser. Um deles, que usava uma túnica simples amarrada na cintura por uma corda, segurava a arma com a luz azul. O outro, que vestia um traje preto com capa e uma máscara, lutava com a arma de luz vermelha. A voz deste era muito profunda e entrecortada por uma respiração pesada.

- Obi-Wan, pare de resistir. Venha para o lado negro da Força!

- Jamais! Você ainda é o garoto que eu treinei, Anakin!

- Não me chame por este nome, jedi!

Tony Stark olhava de longe e se maravilhava com o que via.

- Uau, feixes de laser! Isso é que é estilo!

Spock observava a luta com ar de desprezo.

- As armas deles são eletrônicas. Por que funcionam? - Alcançou novamente o tricorder e notou, com satisfação, que este não era mais de plástico. - Doutor, meu tricorder voltou ao normal. Agora poderei fazer uma análise do local.

Mas o Doutor não ouviu a boa notícia, porque estava no meio do duelo tentando dissuadir os dois homens.

- Ei! Ei! Vocês dois! Ei! Por que suas armas funcionam?

Os dois não pareceram ouvir o Doutor chamando, ou não se importavam com a presença dele, tão pequeno em comparação. A briga não dava sinais de que acabaria tão cedo; os dois eram notadamente habilidosos.

- Ei, eu estou falando! - o Doutor se interpôs entre os dois, aparentemente despreocupado com o que as armas poderiam fazer com ele ou com a possibilidade de ser pisoteado.

Sua tática funcionou, já que o duelo se interrompeu.

- Saia do caminho, escória minúscula - o homem de preto ofegou.

- O nome é Doutor, muito prazer. E você é... Anakin, é isso? - olhou para o outro homem, buscando confirmação.

- Não! - trovejou o primeiro. - Sou Darth Vader!

- Certo, seu nome não me importa. Vou conversar com o seu amigo aqui, que parece ser mais racional. Olá, eu sou o Doutor. E você é Obi...

- Wan. Obi-Wan Kenobi. Cavaleiro Jedi.

- Ótimo! Onde está o seu cavalo, cavaleiro?

- Não... Não esse tipo de cavaleiro. É... complicado.

- Tudo bem. O que são essas coisas?

Obi-Wan olhou para a sua arma, que o Doutor observava com atenção.

- Estas armas são conhecidas por sabres-de-luz.

- Eletrônicas, não? - O Doutor parecia ávido para pegá-la nas mãos. - Mas por que não são de plástico?

- Plástico? Por que deveriam? - Obi-Wan olhou confuso para um Doutor ainda mais confuso.

- Todo aparato eletrônico que carregamos conosco virou plástico e não funciona desde que viemos parar aqui, menos os seus sabres! Por quê?

- Bom, eu não saberia dizer. Eles têm funcionado normalmente desde que aparecemos aqui.

- Então vocês também não são daqui - interveio Amy. - De onde vieram, como chegaram?

- De uma galáxia muito distante - Darth Vader informou em sua voz profunda, olhando para aquele céu estranho.

- Não sei como chegamos - interrompeu Obi-Wan, olhando carrancudo para o homem de preto. - Estávamos lutando na Estrela da Morte, quando nossos sabres soltaram faíscas estranhas ao se chocar contra algo que não vimos e, quando percebemos, estávamos no topo desta montanha.

- Mas seus sabres não deixaram de funcionar... Curioso. - O Doutor examinava o sabre de Obi-Wan com os dedos.

- Cuidado, não toque na luz; ela corta! Aqui, deixe-me desligá-lo. - Desativou o laser e entregou a empunhadura ao Doutor.

Spock se aproximava com o tricorder em mãos. - Há uma fonte desconhecida de energia enterrada aqui, Doutor. Pude verificar a área com meu equipamento e identifiquei uma emissão de energia desconhecida abaixo da terra.

- Claro, isso explica. - O Doutor ajoelhou-se e encostou o ouvido no chão.

- Amy, vou precisar da minha chave de fenda sônica. Pode ir até a TARDIS e buscá-la?

- Você manda. - Retornou pelo caminho de onde vieram.

Percebendo um silêncio repentino, o Doutor questionou os demais. - Cadê o tal Stark?

- Creio que seja ele lá em cima - apontou Spock em direção ao céu claro.

Tony Stark estava sobrevoando a montanha, obviamente contente por sua armadura ter voltado a funcionar. Gritava de satisfação.

- Acho imprudente ele se afastar demais. Sabemos que o raio de alcance da fonte de energia não é muito amplo. - Spock não parecia muito preocupado, entretanto.

* * *

Amy já se aproximava da TARDIS e do Dalek quando pensou ter percebido um movimento no paredão à sua direita. Estancou e esperou. Com o canto do olho, como o Doutor a havia ensinado há tanto tempo, percebeu novamente um leve movimento à direita. Virou-se de supetão em direção a ele, mas não viu nada além do paredão de pedras. Ficou olhando, intrigada, procurando por qualquer coisa diferente, quando ouviu uma voz vinda de um monte de pedras encostado no paredão.

- Ei, moça, não se assuste. Vou me levantar devagar.

Lentamente, o monte de pedras cresceu, revelando uma forma humana robusta, mais ou menos da altura de Spock, mas que parecia feita de pedra.


- Hã... - Amy parecia constrangida - Por que você está só de sunga?

O homem de pedra olhou para a peça de roupa azul que vestia, e depois para Amy, com incredulidade.

- Sério? Eu sou um cara feito de pedra e você me pergunta sobre o meu uniforme?

- Essa sunga é um uniforme? De que planeta você vem?

- Da Terra... Escuta, eu nem sempre fui assim, sabe? - O homem estava na defensiva.

- Da Terra? - Amy estava surpresa. - Bom, não vou perguntar. Meu planeta tem se mostrado mais bizarro do que todos os outros em que estive. Qual é o seu nome?

- Ben Grimm. Com o uniforme, me chamam de o Coisa.

- Coisa? Que cruel! Vou chamá-lo de Ben, se você preferir. Eu sou Amy.

Quando se aproximaram para apertar as mãos, algo caiu do céu entre os dois.

- Aai, preciso pensar em algo para amortecer essas quedas...!

Ben olhou incrédulo para a figura gigante no chão.

- Tony?!

Tony Stark se levantou, então olhou para baixo, reconhecendo Amy e finalmente percebendo o homem de pedra na altura do seu joelho.

- Peraí... Ben?! Como... O que... - e deu uma gargalhada. - Por que está tão pequeno?!

- Você é que está gigantesco, Stark! O que foi isso, construiu uma armadura do tamanho do seu ego?

Antes que a discussão prosseguisse, Amy interrompeu:

- Esperem. Vocês se conhecem? Como é possível?

- Deixei de me surpreender neste lugar, gatinha. Caí porque minha armadura voltou a ser de plástico - Tony lamentou-se. Ben explicou-se:

- Só me lembro de estar sob um novo experimento do Reed para reverter meu estado físico, quando o ouvi dizer algo sobre uma pane nos equipamentos, e então me vi aqui. Estava aqui quando você caiu com aquela caixa - disse a Amy -, mas fiquei camuflado no paredão até saber mais sobre este lugar e vocês todos.

- Bem, nenhum de nós é daqui. Spock localizou uma fonte de energia enterrada naquela montanha, mas ainda não sabemos o que é, ou onde estamos - contou Amy. - O que me lembra, preciso voltar à TARDIS - e correu.

* * *

Lá em cima, o Doutor, Spock e Obi-Wan cavavam a terra e os pedregulhos. Darth Vader andava em círculos, impaciente.

- Isso é inadmissível. Tenho um Império para controlar. Não posso perder tempo nesse deserto habitado por criaturas tão ridículas.

- Se não quer se sujar, Darth Qualquer Coisa - o Doutor bufou -, vá dar uma volta e veja se descobre um jeito de sairmos daqui.

Darth Vader deu um giro com a capa e desceu a montanha pelo lado oposto do que os outros usaram para subir. Estava de mau-humor, o que era o seu humor normal, e não prestou atenção em nada pelo caminho, até fazer uma curva e encontrar um homem logo abaixo de si. Era muito pequeno, pouco maior do que o tal Doutor, velho, com longos cabelos brancos, e trajado em uma túnica da mesma cor. Trazia um cajado nas mãos.

Sacou o sabre em um movimento instintivo, mas não conseguiu fazê-lo funcionar. Frustrado, percebeu que a empunhadura agora era de plástico.

- Não se aproxime! - alertou ao minúsculo senhor de branco. - Abaixe o seu cajado.

Vendo que o velho não o obedeceria, aproximou-se, em todo o seu tamanho. - Como devo chamar tão... distinta figura?

O velho o observava seriamente, sem nenhum sinal de medo ou intimidação pelo tamanho de Darth Vader.

- Chamam-me Gandalf, o Branco. - Analisava a figura do homem de preto com alguma curiosidade. - Nunca vi criatura como você, antes. De que parte da Terra-média vem?

Darth Vader não sabia a que ele se referia.

- Não venho de nenhuma "Terra-média" - respondeu, gravemente. - Mas presumo que você sim, o que o faz mais um estranho neste lugar.

Gandalf ficou em silêncio, então olhou em volta e finalmente baixou seu cajado de plástico.

- Bem notei que este lugar não se parece com nada sobre a Terra-média. Onde estamos?

- Estamos tentando descobrir.

- "Estamos"? Quantos mais estão aqui? Caminho há horas e não vi viv'alma até então.

Darth Vader estava impaciente, mas não havia o que fazer. - Há três no topo da montanha, mais uma jovem que foi para o lado oposto - apontou. - E alguém voando por aí. Talvez haja mais. Onde quer que seja esse lugar, está cada vez mais peculiar.

- Entendo - Gandalf fez uma pausa. - Eu mesmo estava indo em direção à montanha, para ter uma visão melhor do lugar. O que há lá em cima?

- Aparentemente, uma fonte de energia misteriosa. Os outros tentam agora chegar até ela. Algo sobre reativar seus dispositivos e naves para que possamos voltar aos nossos lugares e épocas.

O velho franziu as sobrancelhas ao ouvir a explicação do gigante de preto.

- Não faço ideia do que você está falando, mas deve fazer sentido para você. Porém, não tenho mais desejo de subir até lá. Estou cansado, acabei de sair de uma batalha com um balrog e andei muitas milhas. Você poderia, hã... me erguer até os ombros?

Darth Vader resmungou algo sobre ser um grande imperador, e Gandalf irritou-se.

- Certo, certo, eu subo a tal montanha. Até mais ver. - E prosseguiu caminho.


* * *

Amy já havia retornado com a chave de fenda sônica, que agora funcionava.

- Não pode ser. Como pode ser?! - Espantado, o Doutor apontava seu aparelho para o chão e conferia os dados repetidamente.

O Coisa e Gandalf se juntaram aos presentes e ficaram observando os especialistas.

- Pode ser mais rápido se todos ajudarmos a cavar - sugeriu Ben.

- Sim, sim. Preciso ver isso inteiro e comprovar minhas suspeitas - aprovou o Doutor. - Vamos, vamos!

Lá embaixo, Darth Vader esquematizava um plano de fuga. Perdido em pensamentos, viu algo grande e amarelo se aproximando. Pensou em subir e avisar aos outros, mas não o fez. A coisa amarela que se aproximava parecia um homem de uniforme e, conforme entrava mais no campo de visão, Darth Vader percebeu que ele carregava algo nos braços. Parecia uma espécie de cadeira, e havia um homem muito pequeno sentado nela.

O homem de preto esperou até que o homem de amarelo se aproximasse, sem saudações ou apresentações.

- Quem são e aonde pretendem ir? - interpelou-os.

O homem de amarelo, que tinha sua altura, colocou o homem com a cadeira no chão e o analisou por uns instantes.

- Olha, xará, acabamos de chegar e não queremos confusão. Só queremos continuar a subida, se não for um problema. Se for, estou disposto a negociar - e, dizendo isso, ejetou três lâminas entre os dedos de sua mão direita.

O homem da cadeira falou.

- Logan, é inútil. Suas garras são de plástico agora, como a minha cadeira.

O homem chamado Logan não pareceu se importar. - Não tem problema, aposto como consigo usá-las do mesmo jeito.

O homem na cadeira usou de diplomacia.

- Meu nome é Charles Xavier, e este é Logan, meu aluno. E você, é...?

- Darth Vader - respondeu, depois de breve hesitação. - Por que querem subir?

Charles ponderou se deveria contar, já que sentiu pensamentos escuros vindos do homem de preto.

- Eu, hã... Ouvi os pensamentos de algumas pessoas vindo dessa direção, e entendi que poderia haver algum tipo de fonte de energia aqui que poderia nos ajudar.

Darth Vader se sentiu levemente preocupado com o fato do homem poder ler pensamentos, mas não demonstrou. O tal Xavier não parecia ser capaz de ler os seus, pois o olhava curiosamente, mas não com medo.

- Sim, há. - Fingiu interesse nos recém-chegados. - Como chegaram aqui, em alguma nave?

- Nave? Não - Charles respondeu. - Eu estava conectado ao Cérebro, buscando por certo mutantes, e Logan estava comigo... Quando captei uma presença muito forte e perdi o controle sobre a máquina. Quando dei por mim, estávamos ambos aqui. Achei que Logan havia crescido, mas agora vejo que fui eu quem encolheu - disse, comparando a altura dos dois.

- As proporções são estranhas por aqui. Vocês poderão ver pelos outros. - E então decidiu que era hora de voltar aos outros. - Venham.

- Dá pra confiar nele, Charli? - Logan pegou o professor com a cadeira de volta no colo e deixou Darth Vader liderar o caminho.

- Provavelmente não, Logan. Mas se houver mesmo uma fonte de energia lá no topo, acredito que suas garras e a minha cadeira voltarão a funcionar, e aí poderemos nos defender, se for o caso.

* * *

- Só faltava essa! - Tony Stark parecia incrédulo. - Chegou a cavalaria X-Men!

- Stark?! O que diabos... Fala sério! - Logan começou a gargalhar. - O que aconteceu com o grande e poderoso Coisa?!

Ben ficou irritado com a gozação.

- Eu bem preferiria que Reed tivesse vindo no seu lugar, Wolverine. Precisamos de cérebro aqui, não de um animal como você.

Logan fechou a cara e ejetou suas garras. Percebeu que voltaram a ser de adamantium.

- Agora as belezinhas aqui podem fazer o serviço - rosnou.

- Ei, ei, ei, não há necessidade disso aqui - interrompeu o Doutor. Levantando-se do chão, limpou as calças, pôs as mãos na cintura e anunciou: - Descobri o que é a fonte de energia.

- De que se trata, afinal? - questionou Spock. - Meu tricorder não consegue identificar isso.

- Talvez porque isso não venha da sua galáxia, senhor Spock.

Lá do fundo do buraco, o Coisa ergueu o objeto que emitia a fonte de energia, com um ruído algo sônico. Jogou-o para fora, aos pés dos outros.

- Doutor! Como é possível? - Amy olhava para o objeto com admiração - Isso parece uma versão várias vezes maior da...

- Sim, Amy. Da minha chave de fenda sônica.

O Doutor puxou a sua do bolso e comparou as duas. Os demais presentes observavam em silêncio.

- Curioso - opinou Spock. - Que tipo de energia esta ferramenta emite?

- Do tipo complicada. - O Doutor andava para lá e para cá. - O que isto está fazendo aqui? Que lugar é este?!

- Talvez agora devamos pensar numa maneira de levar isso até as nossas naves e reativá-las - sugeriu Spock. - É a decisão lógica. Não temos nada a fazer aqui.

- Certo. Tem razão. Alguém?

- Eu - ofereceu-se o Homem de Ferro. - Vou voando e chego mais depressa.

- Um momento - interrompeu Darth Vader. - Como saberemos que não vai fugir com a fonte de energia?

- Porque eu não faço ideia de como ir embora, esquisitão.

Darth Vader acionou seu sabre-de-luz, e Obi-Wan interveio.

- Por favor, não temos por que desconfiarmos uns dos outros. Estamos na mesma situação, todos nós.

O homem de preto guardou o sabre, e Ben falou:

- Eu levo. Sou mais forte. Vamos todos juntos descer essa montanha com a fonte, assim todos teremos nossos dispositivos funcionando.

- É justo - Gandalf opinou, pela primeira vez. - Mas sou velho para fazer essa caminhada toda a pé, e já andei muito por hoje.

- Eu te levo, velhote. - Logan o ergueu e colocou-o no ombro.

- E vocês vêm comigo. - Tony pegou o Doutor e Amy e fez o mesmo.

- "E se pude ver mais longe do que outros, foi porque fiquei nos ombros de gigantes" - recitou o Doutor.

- Newton - reconheceu Tony Stark. - Grande cientista.

- E um cara legal - disse o Doutor. - Não saía muito de casa, mas era uma companhia absolutamente divertida.

Tony o olhou surpreso, mas Amy fez sinal de que não perguntasse.

- Doutor, espere! - Amy de repente lembrou-se de algo. - O Dalek! Se levarmos a chave até a TARDIS, o Dalek vai ser reativado também!

- O que é um Dalek? - Tony quis saber.

- Aquela coisa enorme ao lado da TARDIS - apontou o Doutor. - Enorme e mortal.

- Ah, aquele ralador de queijo? Sou maior que ele. Se tentar algo, dou um pontapé naquela sucata.

- Nunca subestime um Dalek, homem-robô. - O Doutor pareceu pensar melhor. - Não, não vou te chamar de homem-robô, porque isso me lembra dos Cybermen e não quero pensar em Cybermen agora.

- E por que não me chama de Homem de Ferro, como todo mundo? - Tony parecia estar se divertindo com a própria confusão.

- Porque você não é exatamente de ferro, é? - disse o homenzinho, analisando a armadura de Tony com sua chave de fenda sônica.

- É... Dou essa a você - Tony concordou. - Ah, tem de ser brincadeira!

* * *

Tony Stark parou bruscamente. O Doutor e Amy quase caíram de seus ombros.

- Tony, o que foi? - Amy perguntou, assustada.

- Não pode ser possível. Não aqui, não agora!

Já próximos às naves, todos pararam e viram a que Tony Stark se referia. Em cima do morro que separava as duas naves, posicionado de maneira ameaçadora, um homem pequeno, de capa verde e elmo com chifres apontava um cajado em direção ao grupo.

- Loki! - o Homem de Ferro trovejou. - Nunca nos livramos de você?!

O homem chamado Loki olhou diretamente para a origem da voz que o chamava, reconheceu-o e sorriu.

- Ah, se não é o heroico Homem de Ferro! Temo que não possa fazer nada a meu respeito, dessa vez.

- Me impeça! - e correu na direção do homenzinho.

- Parem! - trovejou uma voz.

Todos se viraram procurando quem havia se imposto, e espantaram-se em ver que era Gandalf, o velho no ombro de Wolverine. Logan o colocou no chão, e ele foi em direção a Loki.

- Onde conseguiu esse cajado? - rugiu, indo rapidamente ao encontro do outro.

- Não lhe diz respeito, velho. - Loki lhe dirigiu um olhar arrogante.

- Todo estranho de capa portando um cajado me diz respeito. O que o seu cajado faz?

Loki percebeu que o velho também usava capa e portava um cajado. Em dúvida, baixou o seu e respondeu:

- Entre outras coisas, atravesso portais. Foi como cheguei aqui. Mas não consegui sair porque, de repente, meu cajado havia ficado estranho. Embora - olhou para o objeto que segurava - ele tenha voltado ao normal, agora.

- Sim, por causa da nossa chave de fenda sônica tamanho extra-grande - o Doutor procurou interromper. - O fenômeno não atingiu apenas dispositivos eletrônicos, como pensamos, mas qualquer coisa artificial funcional, como naves, ferramentas e... armas. - Percebeu o perigo que corriam.

A tensão cresceu entre os presentes, enquanto todos aos poucos percebiam que poderiam ser atacados pelos hostis armados. Gandalf apontava seu cajado para Loki, que apontava o dele para o Homem de Ferro, que apontava a palma da mão para Darth Vader, que apontava seu sabre-de-luz para Obi-Wan, que por sua vez apontava o seu próprio sabre na direção oposta e gritava:

- O que, em nome da Força, é aquilo?!

Os demais olharam para onde Obi-Wan apontava e viram.

- EXTERMINAR! EXTERMINAR!

O Dalek estava ativo outra vez, e vinha se aproximando e atirando em todas as direções. Os indefesos buscaram abrigo, mas os outros tentaram impedi-lo. Spock armou seu phaser em carga máxima e atirou no Dalek, sem efeito. Ergueu uma sobrancelha, surpreso.

- Armas não funcionam com ele, senhor Spock! - alertou o Doutor. - Nada funciona!

- Bom, quero ver se isso não funciona. - Logan ejetou suas garras e correu. Amy tentou impedi-lo.

- Não, Logan, ele vai te matar!

- Não te preocupa com isso, ruiva. Eu sou o melhor que existe no que faço.

- E... - perguntou ela, olhando para as garras e temendo a resposta - O que você faz, exatamente?

Ele deu um sorriso de lado e respondeu, antes de ir de encontro ao Dalek descontrolado:

- O que eu faço não é muito legal. Vamos ver do que tu é feito, além desse desentupidor de pia! - e voou para cima do Dalek.

* * *

Aproveitando a confusão, Darth Vader se aproximou das naves. Havia uma branca que poderia operar, mas era muito pequena e não havia como entrar nela. A outra, mais adiante, não se parecia com uma nave; era mais uma espécie de caixa. Contornou-a, mas também não poderia tomá-la pois, como a outra, era pequena demais. Frustrado, chutou a caixa e armou o sabre. Obi-Wan veio ao seu encontro, com seu sabre em punho.

- O que achou que ia fazer, Anakin? Roubar uma nave e ir embora? Trair a todos?

- Não seria traição. Não devo nada a nenhum de vocês.

Obi-Wan partiu para cima de seu antigo aprendiz e os dois retomaram a luta que travavam em cima da montanha.

Loki, enquanto isso, procurava se afastar dos outros o suficiente para poder abrir um portal em segredo e dar uma olhada nas naves, mas não tanto que o seu cajado fosse inutilizado novamente. Deu a volta na estranha caixa azul, mas encontrou Gandalf do outro lado.

- Não vai passar! - trovejou o velho, e bateu com o cajado no chão. O impacto lançou Loki longe.

Irado, Loki levantou-se e mirou seu cajado no velho, lançando um raio azul que o derrubou. Os dois prosseguiram trocando ataques com seus respectivos cajados.

A área estava tomada por luta e violência. O Dalek era confrontado por Wolverine e o Homem de Ferro, que não conseguiam se aproximar dele, mesmo sendo bem maiores, porque o Dalek atirava incessantemente e parecia protegido por um tipo de campo de força. Já havia arrancado boa parte da armadura de Tony, e Logan levava cada vez mais tempo para se regenerar dos ferimentos.

Ben veio por trás do Dalek na tentativa de ajudar. - Vem pro pau!

O encontrão amassou a carapaça do Dalek, mas este se virou e mirou no Coisa. Spock, Amy e o Doutor olhavam as lutas de longe, sem saber o que fazer.

De repente, todos pararam de se mover. Era como se o tempo tivesse congelado. Os três que estavam observando se entreolharam e estranharam poder se mexer enquanto os outros estavam paralisados em meio a suas lutas. Andaram entre eles, passando as mãos em frente aos seus olhos e chamando seus nomes, mas nada mudava. E então viram quem havia feito aquilo.

O professor Charles Xavier se aproximava em sua cadeira flutuante, andando entre eles. Fechou os olhos, e todos os que estavam paralisados olharam na direção dele, embora ainda não pudessem se mover ou sair do lugar.

- Não queria precisar chegar a esse ponto, mas o comportamento vergonhoso de vocês não me deu escolha - disse, seriamente. - Reconheço que o ser conhecido como Dalek atacou primeiro e irracionalmente, mas não podemos atacar irracionalmente sem conhecimento do alvo, ou ao menos um plano. É perigoso, como viram, e poderia ter sido fatal, como quase foi para Ben Grimm. - Olharam em direção ao Coisa, e podiam ver o raio congelado a centímetros dele. - Só quero chamar a atenção de todos quanto a nossa verdadeira situação, que é prioridade sobre qualquer desavença pessoal que qualquer um aqui possa ter - e olhou para Obi-Wan e Darth Vader. - A maioria de nós aqui não se conhece, mas quer o mesmo: sair deste lugar. E, ao invés de nos unirmos para resolver isso, agora que todas as nossas ferramentas voltaram a funcionar, vocês começaram a brigar entre si. Que instinto tão desprezível é esse que sobrepõe a razão?

- Ele está certo - interveio Spock. Sugiro que todos larguem suas armas e se preparem para partir. Acredito que todos tenhamos afazeres onde quer que devêssemos estar e, portanto, nossa presença lá o quanto antes é desejada.

- Vou descongelá-los agora, mas prometam baixar suas armas.

Todos olharam envergonhados para o professor, embora não se pudesse saber a expressão de Darth Vader.

- Hã, professor - o Doutor interveio. - Melhor continuar dominando o Dalek. Ele não vem de uma raça conhecida por refletir sobre o sentido da vida.

O professor concordou e deixou o Dalek como estava. Todos os outros se afastaram e esperaram.

- Certo - disse o Doutor. - Agora que somos todos amigos de novo, vou pegar essa chave gigante e deixar todo mundo do tamanho certo, se puder.  Ben, me ajude aqui.

O Coisa correu em seu auxílio e posicionou a chave do jeito que o Doutor pediu. - Mire primeiro nas naves, por favor.

Feito isso, pressionou o botão que o Doutor indicou e, em instantes, a Enterprise voltou ao seu tamanho normal, em toda a sua glória.

- Fascinante - reconheceu Spock.

Em seguida, fez o mesmo com a TARDIS, que era novamente uma cabine de polícia comum. O próprio Doutor foi o próximo e, um a um, o Doutor foi trazendo todos aos seus tamanhos normais.

- Quem é o baixinho agora, hein, Wolverine? - Ben ria, agora que voltara a ser um homem de pedra em tamanho natural.

- Continuo feroz o suficiente, xará - e ejetou apenas uma garra, como aviso.

O Doutor ajeitou a gravata borboleta, sorrindo aliviado após o fim da tarefa. - Darth Vader não parece mais tão assustador agora, não é?

- Sua falta de fé é perturbadora, Doutor. - Ele havia ouvido. - Gostaria que reconhecessem o valor do lado negro da Força.

- Naah, obrigado. Não gosto de usar força, de qualquer forma. Prefiro a minha cabeça e minha fiel chave de fenda sônica. - Deu um beijo em sua ferramenta favorita.

- Enfim - comentou Gandalf, agora magnífico em toda a sua altura e vestes brancas. - Como sairemos daqui?

- Ah, agora é fácil. Subimos todos na TARDIS e eu os deixo em seus lugares e épocas. Ela também viaja no tempo. E é maior por dentro!

- Eu posso conseguir com a Enterprise, Doutor - disse Spock. - Nossos computadores podem nos dizer como contornar o problema. Já passamos por um deslocamento temporal semelhante.

- Ah, OK. Certo - o Doutor pareceu espantado. - Então, adeus, senhor Spock!

- Adeus, Doutor. Adeus, senhorita Pond. - Fez um aceno com a cabeça para os outros, pegou seu comunicador e deu a ordem. - Um para transportar. Ativar.

Um feixe de luzes caiu sobre ele e Spock se desmaterializou.

- Hm, mais discreto do que a TARDIS - Amy observou.

O Doutor se voltou aos outros e bateu as mãos:

- O resto de vocês, comigo.

- Eu, não - Loki objetou. - Não preciso de vocês. Vou com o meu cajado. - Deu uma última olhada em Tony Stark e abriu um sorriso zombeteiro. - Nos vemos na próxima, Homem de Ferro! - Abriu um portal com o seu cajado, pulou lá dentro e sumiu.

- Preciso ter uma conversa séria com Thor a respeito dessa família esquisita. - Tony ficou carrancudo e juntou-se aos outros.

* * *

Um a um, os restantes embarcaram na máquina, todos devidamente surpresos com o que viam lá dentro.

- Uau, steampunk! Curti essa coisa! - Tony Stark estava maravilhado.

- Um tanto exagerado - Logan opinou, puxando um charuto de dentro do uniforme.

- Não, não, não pode fumar aqui. - Logan parecia a ponto de reclamar, mas o Doutor emendou: - Tem uma sala para fumantes no terceiro corredor à esquerda, quinta porta à direita, depois da sala de jogos.

- Eu te levo. - Amy puxou Logan pelo braço e o conduziu TARDIS adentro.

O Doutor pegou a segunda chave sônica, aquela que desenterraram da montanha, agora do tamanho certo, e ficou olhando longamente para o objeto. O professor Xavier se aproximou com sua cadeira e perguntou:

- Sua nave é capaz de nos mostrar onde estamos, ou por que viemos parar aqui, ou por que esse lugar é como é e faz o que faz?

O Doutor ainda olhava para a outra chave sônica e não pareceu ansioso em responder a todas aquelas perguntas.

- Não, não - disse, enfim. - Parece que a TARDIS nunca soube sobre esse lugar antes. Ela só dá informações sobre lugares previamente registrados em sua memória. Vou ter que trabalhar nisso.

O professor parecia desapontado.

- Bom, acho que isso já não importa, agora - interveio o Coisa. - Como o tal Spock disse, precisamos voltar o quanto antes. Pode nos deixar em Nova York? - pediu.

- Claro, vamos agora. Segurem-se!

Puxou uma série de alavancas e pressionou outra série de botões, enquanto os passageiros eram jogados de encontro às paredes da nave.

* * *

Depois de deixar o professor, Logan, Tony e Ben em Nova York, o Doutor teve um pouco de dificuldade em achar a Terra-média; mas descobriu alguns manuscritos élficos na biblioteca da TARDIS e Gandalf foi deixado em casa. Por fim, voltou ao espaço e levou Obi-Wan e Darth Vader à batalha na Estrela da Morte.

- Querem mesmo ficar aqui? - Amy pareceu preocupada.

- Precisamos. - Obi-Wan fez uma saudação e se despediu. - Que a Força esteja com vocês.

Estando novamente sozinhos na TARDIS, com o Dalek ainda paralisado, agora por tecnologia Senhor do Tempo, Amy pôde perguntar:

- Doutor... Como essa chave de fenda sônica foi parar naquele lugar?

Ele respirou fundo.

- Só há uma maneira, Amy. Ela é verdadeira, funciona, e é idêntica à minha. - Suspirou e confessou: - Eu mesmo devo tê-la deixado lá.

- Mas, quando? Por quê?

- Eu ainda não sei, não fiz isso ainda. - E então pareceu se tocar de algo. - Pond! Precisamos voltar!

- O quê? Por quê?!

- Porque preciso deixar essa chave enterrada lá! Um dia vamos chegar lá e precisaremos dela!

- Mas... Se pousarmos lá agora, tudo virará plástico de novo e se não conseguiremos mais voltar!

O Doutor considerou, mas logo seu rosto se iluminou. - Tenho uma ideia.

Mexeu freneticamente em uns comandos, saíram pelo vórtex mais uma vez, e foram parar bem ao lado da Enterprise. Pegou o telefone, discou e esperou.

- Olá! Posso falar com o senhor Spock? É o Doutor.

Uns instantes depois, Spock apareceu no monitor da TARDIS.

- Estou bastante surpreso pelo seu contato, Doutor.

- Preciso de um favor da sua nave, se não for incômodo. - E explicou o plano. Agradeceu e desligou.

- Agora observe, Pond!

Num instante, um feixe de luzes desceu sobre a chave extra e então ela sumiu.

- Resolvido! Pedi ao nosso amigo vulcano para teletransportar a chave até a montanha. Pronto!

- Você faz tudo parecer tão simples e, ao mesmo tempo, tão complicado...

- Meus dons não conhecem limites. E agora... - o Doutor suspirou - o Dalek.

- Sim, por favor, livre-se disso.

- Irei, depois de me livrar de você. Você tem um incêndio para apagar em casa.

Amy pareceu refletir sobre as perspectivas caseiras e, ao imaginar Rory se virando sozinho na cozinha, desejou intimamente que toda a sua casa também houvesse virado plástico.

* * *

Uma foto ruim do elenco. Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Wolverine, Homem de Ferro (segurando a chave de fenda sônica), Obi-Wan, Darth Vader, Professor X, Loki, o Coisa, o Doutor e Amy (com a TARDIS ao fundo), Spock (ao lado da Enterprise), Gandalf e o Dalek.