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Sobre terapia e livros interativos

Há alguns anos, uma amiga sofreu um caso de roubo de identidade na Internet. Foi algo que a perturbou bastante, e ela acabou se afastando da vida online por um ano. Como mantínhamos contato principalmente pela Internet, ficamos quase esse tempo todo sem contato (salvo por alguns escassos e-mails aqui e ali). Quando se sentiu segura o suficiente para voltar a frequentar as redes sociais, ela me contou que aquele ano afastada tinha sido muito bom, comentou sobre estar fazendo terapia e começou a pregar maravilhas sobre a decisão. "Todo mundo deveria fazer terapia. Você também!".

"Não sei. Terapia, pra mim, é pagar alguém pra fingir que é meu amigo."

Confesso que comentei com um tanto de maldade. E só me lembro da resposta até hoje porque ainda tenho o mesmo pensamento a respeito de terapia. Hoje, entendo a necessidade - e até faria, se tivesse condições. E até não vejo mais problema em pagar alguém pra fingir ser meu amigo, afinal, nossos amigos não têm obrigação moral nenhuma de ouvir os nossos mimimis. Terapeutas são qualificados para ouvir mimimis, oferecer apoio moral, e te livrar do fardo. E como mimimis DEVEM ser desabafados, todo mundo sai ganhando, e não tem amizade perdida.

Entretanto... Não, obrigada. Meu método favorito de terapia sempre foi escrever. Sempre tive diário, ou blog, e não houve caderno escolar cujas últimas páginas escapassem dos rabiscos "terapêuticos". Esse ano tem sido bastante esquisito e uma terapia viria bem a calhar, mas estou me virando bastante bem com livros interativos.

Já comentei que, embora adore ler, não consigo escrever ficção. Quero ser muito detalhista e deixo tudo muito chato; não sei dar nomes aos personagens, eles nunca têm laços familiares ou amigos, e acabo desistindo das minhas boas ideias de roteiro por causa dessas chatices. Mas sempre me dei bem com propostas de redação, porque tudo o que eu preciso na vida é aquele chutinho na bunda, sabem? O tranco! Dali pra frente, me viro.

Tendo tudo isso em mente, dois livros interativos têm acompanhado meu segundo semestre de 2014, ambos de Keri Smith: Destrua Este Diário e Termine Este Livro. Vou comentar sobre como tem sido.



A princípio, não havia me interessado por Destrua Este Diário - nem sabia direito de que se tratava. Mas, aí, uma colega do trabalho ganhou um e me mostrou, achei as propostas bacanas, e acabei comprando um pra dar de presente pra minha irmã. Achei ideal pra desestressar (coisa que ela estava precisando bastante...), e peguei um pra mim também.


Bom, ela destruiu o dela sem dó nem piedade, o que provou que meu presente foi um bom presente, afinal. Eu, entretanto, não consegui. Realizei algumas das propostas, mas algumas são muito... "destruidoras" pra mim. Além disso, algumas das tarefas envolvem certo talento artístico, que não tenho MESMO. Estou ciente de que a premissa do livro é justamente abrir mão dessa necessidade de perfeição que todos temos, e "esculhambar" - afinal, arte é isso aí. Mas meu perfeccionismo chiou na minha cabecinha, acabei não fazendo nem metade das propostas, e não acredito que um dia eu vá terminá-lo. Às vezes o pego e rabisco um pouquinho, pra me distrair, mas folheio o livro todo e já sei exatamente o que não vou fazer (desculpe, Keri Smith, não consegui). Algumas propostas são bem bacanas, porém, e caprichei nelas como pude. Outras envolvem materiais que não tenho disponíveis, e que não vou adquirir só pra cumprir essas metas. Enfim, pra quem não liga muito pra pequenos vandalismos, esse livro é uma diversão só. Vejo pela minha irmã, que chegou a filmar o dia quando ela jogou o livro lá do quinto andar do prédio onde ela trabalha. Pelo que soube, todos os colegas de trabalho dela ajudaram um pouco na destruição do coitado. Presente mais do que bem aproveitado.


Em compensação, o Termine Este Livro já era um que eu cobiçava há um tempo (cogitei comprá-lo em inglês, mesmo, até que foi finalmente lançado por aqui), e acabei ganhando de presente da minha irmã! Só de dar uma folheada vi que iria curtir muito, porque envolve bastante pesquisa e escrita, que são coisas que amo fazer. A "história" é a seguinte: pra todos os efeitos, um dia, ao voltar pra casa, a autora encontrou folhas soltas de um livro sobre um banco de praça. Ao juntá-las, descobriu que o tal livro se chamava Manual de Instruções, era bem misterioso e continha muitas instruções estranhas. Ela, então, resolveu publicar o tal livro "incompleto" para que outras pessoas no mundo todo a ajudassem a completá-lo. Porém, devido à natureza estranha das instruções, ela achou melhor que nós passássemos por um treinamento antes de tentarmos terminar o livro. Então, Termine Este Livro é dividido em quatro partes: a primeira é o "Treinamento de Espionagem", onde aprendemos, entre outras coisas, a nos comunicar em códigos e a utilizar disfarces (coisa que aprendi muitíssimo bem, vide foto à esquerda). A próxima parte é "Métodos de Documentação e Observação", onde aprendemos a, obviamente, documentar nossas observações, a coletar materiais, e a utilizar mais nossos outros sentidos, além da visão, para a "observação".

Entre os exercícios dessa parte do livro estava escolher um objeto de preferência e escrever um pequeno conto de uma página sobre ele. Quis trapacear, porque tenho mais de um objeto preferido, e acabei escrevendo um conto de 46 páginas. Foi meu momento favorito do livro, pois tive aquela sensação fantástica de conseguir escrever uma ficção e terminá-la! Os objetos escolhidos foram meus action toys, então meu conto (que se chama "De Plástico") é um crossover entre Doctor Who/Star Trek/X-Men/O Senhor dos Anéis/O Quarteto Fantástico/Vingadores/Star Wars. Não sei como, mas consegui fazer tudo isso fazer sentido, e garanto que a cena da luta entre Gandalf e Loki ficou bem... interessante. Não sei se posso publicá-la aqui no blog, entretanto, por causa das paradas de direitos autorais dos personagens (se bem que não vou vender a história, então não vou ter lucro com ela. Como ficam as fanfics, afinal?). [UPDATE: O conto na íntegra pode ser lido aqui!]

vai uma palhinha da primeira página ;)

A parte seguinte é "Procedimentos de Exame de Artefatos", onde somos autorizados a olhar o Manual de Instruções, que é a quarta e última parte do livro, e tentar adivinhar qual é o objetivo dele. Chegando lá, começam as instruções estranhas (que não detalharei para manter a curiosidade de vocês ;), e logo vemos que vamos utilizar tudo o que treinamos até então.

O que adianto sobre o Manual de Instruções, que é justamente o que pode ser um empecilho pra bastante gente, é que o cumprimento das tais instruções demandam que tenhamos muito contato com a natureza - o que é uma ideia excelente e apoio a causa 100% -, e não é todo mundo que tem como passar horas (ou dias, dependendo da tarefa) em uma área dessas. Eu moro no interior, o que deveria tornar essa parte fácil, mas não é muito; Rio Verde não é uma cidade segura para que alguém possa passar horas sozinho em uma praça (já que não temos parques, que seriam ideais). A sorte é que temos um quintal bom o suficiente aqui em casa, onde posso coletar materiais e observar animais - nem sempre tanto quanto seria o mais divertido, mas tá dando pro gasto. Então, pra que o livro seja plenamente aproveitado, sugiro que vocês tenham acesso a uma área segura de natureza.

porque sair catando coisa do chão é uma delícia


O que mais estou gostando neste livro é que ele não é só um passatempo para distrair a cabeça: ele nos faz pesquisar, escrever, desenhar (não artisticamente, o que é um alívio!), e exercitar muito nossa massa cinzenta. O considero uma experiência edificante em vários aspectos, e o recomendo grandemente.





Essa é uma das minhas terapias. Qual é a terapia de vocês?

p.s.: Se alguém conhecer algum outro livro que se assemelhe a estes (interativo de qualquer forma), por favor, indiquem! :D

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