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Faetonte, o primeiro adolescente sem noção

Se não fomos adolescentes irresponsáveis, com certeza tivemos amigos que foram. Ou ainda somos, ou ainda os temos. É impossível não conviver com adolescentes "aborrecentes" ao menos uma vez na vida.

Faetonte, entretanto, deve ter sido o adolescente inspirador das futuras gerações... Porque o tamanho da besteira que ele fez foi impressionante.


Stapleton Historical Collection/Heritage-Images


Faetonte sofria bullying pesado na escola. Os colegas tiravam sarro dele porque sua mãe dizia que ele era um semideus, filho de ninguém menos do que Hélio, o deus do Sol. Ninguém acreditava, óbvio, então Faetonte decidiu confrontar a mãe e pedir pra que ela provasse que ele era mesmo filho de um deus.

- Bom, - disse ela - eu jamais mentiria sobre isso. Mas você pode ir pessoalmente à Terra do Sol e perguntar ao seu pai se ele o reconhece.

E Faetonte foi. Às Índias, que eram próximas, e lá não teve dificuldade em encontrar o palácio de seu pai. Viu Hélio sentado em seu trono em toda a sua glória, e pediu:

- Não que eu duvide, ó glorioso Senhor do Sol, mas preciso de uma prova de que o senhor é o meu pai.

Hélio pediu para que ele se aproximasse, deu-lhe um abraço e disse:

- Meu filho, para que não sofras humilhações sobre a tua origem, peça-me qualquer coisa e eu lhe concederei!

Faetonte, como todo bom adolescente, não pensou muito:

- Eba! Então, eu quero dirigir o seu carro!

O carro do pai, claro, era a Carruagem do Sol. Todas as manhãs, Hélio dirigia a carruagem flamejante pelos céus, e voltava ao fim da tarde.

- Então... Pois é, você me pediu a única coisa que não dá. É uma tarefa difícil, e você ainda não tem a força adequada para ela. E também é muito jovem, e é um mortal! Não pode fazer o serviço de um deus! E também não é qualquer deus que pode fazer isso, só eu. Deixa eu explicar como a coisa funciona.

Hélio, então, teve seu momento de pai e começou a dar um sermão interminável sobre o seu trabalho: que o início do trajeto era uma subida muito íngreme e os cavalos mal aguentavam subir; que o meio do trajeto era alto demais e dava muito medo olhar pra baixo; e que o final era uma descida muito perigosa e exigia muita habilidade de direção. Fora que o céu estava sempre girando e carregando estrelas pra lá e pra cá, atrapalhando a viagem dele.

- E é por isso que não dá. Se quer uma prova de que sou mesmo seu pai, olhe pra mim e veja como estou preocupado. Então, vai lá, escolhe qualquer outra coisa. Uma terra com riquezas, sei lá. O carro, não.

Mas Faetonte bateu o pé, fez uma birra danada e insistiu tanto, que Hélio acabou levando o filho para ver a carruagem.

E era uma baita caranga. Cada centímetro era de ouro, com fileiras de topázios e diamantes incrustados. Vendo a admiração do rapaz enquanto os cavalos eram arreados, Hélio cedeu e deixou Faetonte levar o carro, dessa vez. Umedeceu o seu rosto com um unguento que o protegesse do calor das chamas, e disse:

- Segure as rédeas com força. Os cavalos já conhecem o caminho, mas você precisa contê-los. Mantenha-se no curso, não se desvie nem para o norte e nem para o sul. É só seguir as marcas das rodas. Não suba muito, pra não incendiar as moradas celestes, e não desça demais, pra não incendiar a Terra. E não se atrase!


The Gioi Than Thoai

E lá foi Faetonte, todo feliz à direção do carro do pai.

E, como previsto, o pior aconteceu.

Ele começou bem, mas os cavalos logo perceberam que o peso da carruagem era diferente do usual, então começaram a se desviar do caminho. Faetonte percebeu que não sabia, afinal, como controlar os cavalos, e que também não tinha força pra isso. Ele logo se arrependeu do pedido e queria voltar, mas não conseguia, e ainda faltava muito caminho pela frente. Ao sair da estrada, os cavalos levaram a carruagem em meio à constelação de Escorpião, e se assustaram tanto que o rapaz acabou soltando as rédeas, fazendo os cavalos irem ainda mais longe entre as estrelas.

Como não fosse o bastante, em seguida os cavalos começaram a descer, e logo os cumes das montanhas começaram a se incendiar, e depois alguns campos, arruinando várias colheitas. Até terras congeladas se incendiaram. Quando teve coragem de olhar, grande parte do mundo estava em chamas, e o calor estava intolerável. O ar estava tomado pelas cinzas, e o céu estava preto com a fumaça (acredita-se que os desertos da região norte da África estão lá por causa desse incidente de Faetonte!). A terra em chamas chegou a abrir uma fenda que alcançou o Tártaro, onde até Hades e sua esposa Perséfone ficaram amedrontados.

Por fim, Gaia, deusa da Terra, não aguentou mais. Olhou pra cima e gritou para Zeus, o deus dos deuses:

- Pelo amor dos deuses, quer me matar? É isso que eu ganho em troca da minha abundância e das oferendas para os teus altares? É isso que ganha o Oceano? É isso que ganha o coitado do Atlas, que já nem suporta mais o peso de sua carga? Se nós perecermos, terra, água e céu cairão no Caos! Dá uma mãozinha, poxa!

Zeus, um cara muito legal, quando queria, chamou os outros deuses, inclusive Hélio, para conversar sobre a situação. Disse que, se não interviessem, tudo estaria perdido. Então, foi até a torre onde ele subia para espalhar nuvens sobre a Terra, e fez a coisa que sabia fazer melhor (não, não pular a cerca): lançou um enorme raio em Faetonte!

Jan van Eyck (1612-1668)


O rapaz, agora com o cabelo em chamas, caiu da carruagem, como uma estrela cadente. Foi parar lá no rio Eridano, onde acabou morrendo.

Depois disso, Faetonte foi transformado em uma estrela na constelação de Auriga, que significa "o cocheiro". Outras lendas dizem que ele foi transformado no deus da estrela que os gregos chamavam de Faetonte mesmo, que é provavelmente o planeta Saturno ou Júpiter. O nome "faetonte" significa "o brilhante".

Sem dúvida, Faetonte foi muito brilhante...



FONTES: Theoi | O Livro de Ouro da Mitologia, de Thomas Bulfinch (Ediouro, 2002)

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