
- Fiquei sabendo que você está fazendo *tal coisa*, que legal! Onde você faz?
- Em casa, mesmo!
- Ah, tá, achei que você tava fazendo de verdade...
Existe toda uma crença popular de que o que a gente faz fora de casa (fora da própria cidade, então...) tem mais valor do que onde é mais conveniente para si. Quando duvidamos da credibilidade de cursos a distância ou trabalhos feitos em home office, acabamos ofendendo quem recorre a esses recursos ao inferir que essas pessoas são preguiçosas ou não têm "capacidade" de frequentar uma universidade ou trabalhar em uma grande empresa. O que geralmente ignoramos sobre essas pessoas é toda a gama de bons motivos que elas têm para tal escolha.
Como alguém que quase sempre aprende e faz tudo sozinha ou a distância, venho aqui defender o hábito e tentar convencê-los a mudar de ideia sobre atividades que fazemos no conforto do lar.
📚 Estudar
Sempre que comentam comigo que desejam estudar mas não têm tempo, sugiro os cursos a distância e acabo ouvindo que preferem não fazê-los porque querem algo "mais desafiador". Há esse mito de que cursos a distância são mais fáceis e que basta pagar para receber o certificado, mas permitam-me desmitificar:
Um dos principais motivos para uma pessoa escolher estudar em casa/a distância é a indisponibilidade do curso em sua cidade ou região; outro motivo é a flexibilidade de horário de estudo. Eu fiz minha pós-graduação a distância por não haver cursos de Tradução no estado. Como eu dava aulas o dia inteiro, na época, meu horário de estudo era depois das nove da noite, entrando pela madrugada, que era o tempo que eu tinha disponível, e foi graças a essa opção que eu pude tirar a minha especialização.
O fato de você ter que fazer seu próprio horário já é o maior desafio. Você pode assistir às aulas quando quiser, mas tem prazos para entregar as atividades. Para isso, você precisa ter uma disciplina para dar conta de todas as aulas e a realização dos trabalhos; então, se não estipular uma rotina de estudos, acabará se atrapalhando e desistindo. Ir à faculdade ou à escola no mesmo horário todos os dias é fácil e, uma vez lá, você faz o que tem de fazer. Em casa, você deve mentalizar que o horário de estudo é somente para isso, e não deixar que outras tarefas ou distrações interfiram nessa rotina. Complicado, né?
A maior diferença prática entre estudar presencialmente e estudar a distância é que, a grosso modo, na última modalidade, você acaba se virando sozinho grande parte do tempo. Para isso dar certo, novamente, precisamos de disciplina e vontade de aprender. Professores e tutores estão sempre disponíveis, mas você não vai falar com eles pessoalmente, e raramente na hora em que precisa deles. Outra diferença é que, a distância, não há o senso de comunidade que estudos presenciais oferecem; ou seja, fora dos fóruns de interação, há raras trocas de experiências e oportunidades de trabalho. Por isso, eu sempre digo que estudar a distância é muito mais desafiador do que frequentar um curso presencialmente, pois aprendemos a nos virar sozinhos e bem, do contrário desistimos ou fracassamos.
👉 Sobre ser autodidata:
Eu sempre gostei muito de estudar porque aprender coisas novas é um dos maiores prazeres da minha vida. Como nem sempre tive condições (financeiras ou de oportunidade) de estudar tudo o que gostaria, aprendo muito sozinha. Comecei com o inglês, desde a infância, e sigo até hoje aperfeiçoando coisas que já sei ou matando minha curiosidade sobre outras coisas.
É claro que, para ser autodidata, você precisa de muita disciplina e força de vontade para aprender direito, porque não vai ter ninguém te dizendo o que ou como fazer. Existem vários estilos de estudo que você pode adotar caso tenha essa vontade; pesquise por alguns no Google e veja qual lhe parece mais atraente. Lembre-se de que o seu professor é você, então deve haver dedicação.
Pra maioria das coisas, adquiro livros didáticos e estudo por eles, especialmente línguas estrangeiras. Outro recurso que uso com muita frequência é o Coursera, onde há diversas opções de cursos de várias áreas, de universidades do mundo inteiro. Por lá, fiz cursos excelentes, como o de astrobiologia da USP, paleobiologia dos dinossauros pela Universidade de Alberta, comportamento e bem-estar animal pela Universidade de Edimburgo, e agora um de botânica pela Universidade de Tel-Aviv, e tudo isso de graça e aqui no meu quarto. A maioria dos cursos por lá ainda não tem tradução pro português, de forma que os fiz em inglês, mas existem muitos sites brasileiros com cursos gratuitos, também. Não há limites para quem quer realmente aprender. :)
💻 Trabalhar
A prática do home office agora é bastante comum em cidades grandes, onde compensa para trabalhadores e empregadores que se realize tarefas em casa, pela internet, para poupar o tempo e dinheiro perdidos em transporte até o local de trabalho. Já se sabe, também, que trabalhar em um ambiente familiar traz vantagens de produtividade, desde que a rotina e a disciplina estejam bem fixadas, pois sabemos quantas distrações há em casa.
Entretanto, profissionais freelance que prestam serviços pela internet parecem ser alvo constante de críticas a respeito de sua "disposição" para trabalhar. Segundo alguns, "trabalho de verdade" é aquele pro qual você tem que acordar cedo, sofrer com cobrança e pressão por 8 horas diárias e chegar exausto em casa para dormir o sono dos justos. Segundo outros, trabalhar em casa é o mesmo que ter um monte de tempo livre e ganhar muito fazendo pouco. Lá vou eu explicar como realmente é:
Não temos mais ou menos tempo livre; o que temos é flexibilidade de tempo. Como fazemos nosso horário, podemos muito bem ir ao cinema numa segunda-feira à tarde, se der vontade. A consequência disso é trabalhar fora do horário comercial, o que nunca é ideal mas é muito comum. Prestadores de serviços pela internet, embora devessem, não podem trabalhar apenas em horário comercial, porque o serviço a ser prestado é, geralmente, muito e urgente (isso vem também de uma má compreensão dos clientes, que tendem a pensar que temos 24h de disponibilidade exclusiva). Ou seja, quando a maioria das pessoas pode aproveitar as noites e os fins de semana livres, nós passamos esse tempo trabalhando, excluídos das atividades recreativas de familiares e amigos que têm rotinas regulares. Para freelancers, não há madrugada, fim de semana ou feriado. Acordamos mais tarde porque trabalhamos até tarde, e tiramos férias em meses estranhos porque é quando a demanda de serviço diminui, embora seja sempre arriscado dispensar serviços esporádicos, sob o risco de perder o cliente. "Ganhar muito" é bastante relativo, porque recebemos por serviço prestado. Alguns são bons, outros nem tanto. Dependendo do tipo de serviço que oferecemos, há meses em que mal temos serviço para prestar, e há outros em que a jornada diária de trabalho passa de 12 horas, o que nos deixa com uma renda bem imprevisível. Por isso, é sempre bom entender o trabalho dos outros antes de julgarmos que tipo de vida levam.
Outro aspecto a se considerar a respeito das pessoas que trabalham em casa é sua dificuldade em trabalhar com outros. Pessoas neuroatípicas (como autistas), por exemplo, não trabalham tão bem em ambientes com muitos estímulos externos, razão pela qual cantos isolados ou a própria casa são opções melhores para o seu conforto e consequente produtividade.
🏋 Se exercitar
Dada a devida dedicação, exercícios feitos em casa fazem tanto efeito quanto exercícios feitos na academia. Mesmo sem os mesmos equipamentos, existem outras maneiras de se conseguir os efeitos desejados; para isso, basta pesquisa e dedicação.
Quando comecei minha rotina de exercícios, a maior parte dela era a caminhada na rua (5,5 km todos os dias). Depois que fui assaltada, fiquei com medo de sair pra fazer isso e precisei substituir essa hora de exercício por algo que pudesse fazer em casa. Assim, comecei a fazer pilates e yoga, seguindo tutoriais pelo YouTube e outras fontes. Com o tempo, fui aperfeiçoando os métodos, tempo e intensidade dos exercícios, estudando mais sobre isso, testando de tudo um pouco, e agora tenho uma rotina bem estabelecida e a prática tem me feito muito bem. Quando comento que faço esses exercícios todos em casa, algumas pessoas chegam a rir e dizem que "em casa não vale", como se meus exercícios fossem feitos comendo ou dormindo. Bom, meu corpo discorda. Eu talvez pegasse mais pesado e conseguisse resultados mais rápidos em uma academia mas, pro que eu quero e preciso, estou indo bem.
É importante salientar, de qualquer forma, que fazer exercícios físicos sem orientação pode ser perigoso para seu corpo e saúde; portanto, não tente levantar pesos ou fazer posições avançadas de yoga sozinho sem as devidas precauções. Estude os passos a serem dados, vá devagar e intensifique o treinamento conforme for se acostumando a exercícios mais leves. Não force seu corpo sem acompanhamento.
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Ainda há coisas que fazemos em casa pela economia financeira, como cuidados com a aparência, por exemplo, que às vezes não dão resultados tão bons quanto quando feitos por profissionais, mas quebram o galho. O que quer que a pessoa decida fazer em casa, tem os seus bons motivos para tal. Para quem não costuma fazer nada sozinho e agora está vendo as coisas de outro modo, pondere sobre as vantagens e pense melhor sobre essa opção.