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"Narciso acha feio o que não é espelho..."

Atribuímos àquele indivíduo cheio de si e que só se importa consigo mesmo o termo narcisista.

Segundo o dicionário Michaelis:

nar.ci.sis.mo
s. m. 1. Mania dos que se olham no espelho como o Narciso da fábula ou se envaidecem facilmente. 2. Em psicanálise, designa o estado em que a libido é dirigida ao próprio ego.

Todos sabemos quem foi Narciso, não?

Não?

 
"Narcissus", de Caravaggio (~1597/1599)

Segundo a mitologia grega, Narciso era um belo e jovem caçador que atraía a atenção e despertava a paixão de todas as ninfas — a principal delas, Eco, cuja história já contei aqui anteriormente. Mas Narciso, jovem cruel que era, desprezou a todas. Um dia, uma das ninfas desesperadas implorou aos deuses que Narciso um dia soubesse como é amar e não ser correspondido. Hera, que entre muitas coisas, também era a deusa da vingança, resolveu atender ao pedido da ninfa, e jogou esta maldição sobre Narciso.

Certo dia, cansado após uma tarde de caçada, Narciso debruçou-se sobre um lago para matar a sede e refrescar-se. Dizem que este lago era bastante peculiar, de águas tão limpas que pareciam de prata; os pastores jamais levavam seus rebanhos para beber daquela água, nem mesmo os outros animais se aproximavam dele. E foi debruçado sobre este lago que Narciso viu seu próprio reflexo na água e pensou que fosse algum espírito aquático que ali vivesse... E apaixonou-se, pelo reflexo e por si próprio, sem dar-se conta de que o era. 

"Echo and Narcissus", de John William Waterhouse (1903)

Ao tentar estender os braços para alcançar a bela imagem, o reflexo desfez-se, voltando quando a água acalmou-se. Narciso não se contentava em olhar para a imagem, precisava tocá-la. Mas, sempre que o tentava, a imagem se desfazia nas águas que ele mesmo agitava ao tentar. E então Narciso ficava lá, à beira do lago, contemplando o seu reflexo e imaginando uma maneira de poder alcançá-lo... Desprezando alimentação e repouso. Aos poucos, foi perdendo a cor, o vigor e a beleza que tanto encantavam às ninfas. Eco ficava sempre por perto dele, às escondidas, antes dela própria acabar morrendo. Até o dia em que, desnutrido e fraco, Narciso definhou à beira do lago e morreu. Diz a lenda que até mesmo quando sua alma atravessava o Rio Estige, no Submundo, ele ainda debruçou-se no barco para ver seu reflexo na água.

As ninfas, apesar de tudo, sentiram sua morte. E o teriam cremado, se houvessem encontrado o corpo. Mas, no lugar onde ele morreu, brotou uma flor, que foi batizada de narciso.






O narciso é uma flor que nasce geralmente em lugares úmidos, como na beira de lagos. Uma de suas características peculiares é que o caule inclina-se um pouco antes da flor, fazendo com que esta fique sempre virada para baixo... Como que se estivesse contemplando seu reflexo na água.





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Regarde, Narcisse, regarde dans l'eau,
Regarde, Narcisse, comme tu es beau!
Il n'y a au monde que la beauté et la jeunesse.
Hélas ! Et la jeunesse.

Olha, Narciso, olha para a água,
Olha, Narciso, como tu és belo!
Não há no mundo tal beleza e juventude.
Ai de mim! E juventude.

— Suposta antiga canção francesa citada por Hercule Poirot, no livro A Noite das Bruxas, de Agatha Christie.

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
BULFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia: Histórias de deuses e heróis. 27 ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

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