Pular para o conteúdo principal

Algumas coisas que todos deviam saber sobre gatos

Outra da série "Tava Entalado E Precisei Postar".

Sempre que comento com alguém que tenho gatos, dois comentários são normais. "Credo, não gosto de gato" ou "Já matei tanto gato quando era mais novo" (tem também o "Gato? Atropelo todos que passam na minha frente"), ou ambos. Sei que estamos sob o maravilhoso direito da liberdade de expressão, mas só queria dizer algo sobre isso: a) Gosto é gosto e não se discute, b) Dizer que mata gatos, além de não ser um comentário que vá acrescentar à sua credibilidade pessoal, não é algo que um dono de gatos gostaria de ouvir. Você provavelmente não será bem vindo em minha casa.

Agora eu gostaria de falar sobre esse preconceito que as pessoas que nunca tiveram um gato insistem em alimentar, e esperançosamente fazê-las respeitar os bichinhos um pouco mais.

Kalima à esquerda, e Jyrki. É um nome finlandês impronunciável que a Giuli deu, então só o chamamos de Uko.


O primeiro dos erros é comparar os gatos aos cães, dizendo que gatos são "desobedientes, traiçoeiros, infiéis, independentes e nada carinhosos. E ainda têm aquela cara de superioridade". Parem, pelo amor de Bastet.

1. Gatos não são cachorros. Isso é óbvio, não é? Então a comparação é inútil. Gatos são animais muito diferentes dos cães, começando pelo fato dos primeiros serem felinos e os últimos caninos. Se você for comparar um leão a um lobo-guará ou uma onça a uma raposa, vai perceber o quanto você é ridículo ao fazer isso. A única semelhança entre estes animais é que são todos mamíferos carnívoros, como a grande maioria dos mamíferos. "Ah, mas gatos e cães são ambos animais domésticos". É o mesmo que comparar um coelho a uma tartaruga e um porco a um hamster. Continua sendo ridículo.

2. Se os gatos te parecem desobedientes, lembre-se: eles começaram a ser domesticados há 9.500 anos, enquanto os cachorros jé eram domesticados há mais de 15 mil anos atrás. É uma questão de herança genética que os gatos não tenham a disciplina de um cão.

3. "Traiçoeiros, infiéis e nada carinhosos" = comentário típico de quem nunca teve um gato. Quem tem ou já teve percebe o quanto dizer que eles não têm lealdade ao dono não faz sentido. Gatos não dão descanso enquanto não damos atenção a eles, e muitas vezes temos que parar de fazer o que quer que estejamos fazendo pra fazer um cafuné no bicho. O fato é que isso não acontece na hora que você quer, mas na hora que ele quer, e é aí que os comparam aos cães. Mas gatos são extremamente carinhosos e são, sim, muito companheiros. Melhor dizendo, excessivamente e obsessivamente companheiros, mas ao dono que é fiel a ele. Caso contrário, eles podem, sim, ir embora.

4. A independência é relativa. O fato do gato passar um tempão fora de casa é algo que seu cachorro faria, se o portão da sua casa ficasse aberto o tempo inteiro. Falo isso porque tive cachorro a vida inteira e sei que eles escapam pra rua na primeira oportunidade que aparece. Isso só é mais evidente nos gatos porque eles conseguem sair sem que ninguém abra a porta pra eles, visto que sabem pular janelas e muros e subir em telhados sem a menor dificuldade. Ninguém, muito menos bicho, gosta de ficar trancado em um mesmo lugar o tempo inteiro. Ainda mais cães e gatos, que são animais predadores e, mesmo que sejam domesticados, têm em sua identidade genética a "necessidade" de sair pra caçar.

5. A tal 'cara de superioridade' é pura e simplesmente sono. Gatos são animais de hábito noturno, como todos os felinos, e precisam dormir cerca de 16 horas por dia para ter energia suficiente para "caçar" à noite. Por isso, durante o dia, eles têm aquela cara fechada e o andar mole e despreocupado. É só sono. Em compensação, à noite é uma energia só, e quem não consegue dormir é você. Sugiro mesmo que deixe uma janela aberta.

A Kalima é bem tirana, nesse sentido.


Algumas coisas curiosas sobre os bichanos:

  • Gatos enxergam no escuro e ouvem ondas ultrassônicas, coisa que humanos e cães não conseguem fazer. Isso contribui para a natureza caçadora deles, e é por isso que eles encontram ratos onde menos se imagina. (Aliás, casa com gato é casa sem peste.) Têm também o olfato muito apurado. Em compensação, não enxergam muitas cores além do azul e do verde, e também não sentem gosto de muita coisa, principalmente o doce. (se seu gato é como o meu, que adora sorvete, é provavelmente por ser geladinho)
  • Gatos são extremamente disciplinados com sua alimentação. Por isso é importante cuidar de alimentá-los sempre nos mesmos horários, ou eles terão que sair atrás de comida. Eles comem de tudo, mas é muito importante dá-los a ração pra gatos, além da comida. A ração é enriquecida com taurina, que é uma substância indispensável a eles (essa substância evita que o bicho fique cego, coisa que é muito comum em felinos).
  • Gatos são tão fiéis e gostam tanto de seus donos que trazem animais mortos pra casa e largam em cima de sua cama. Dar a um humano o resultado da sua longa noite de caçada é a melhor maneira de demonstrar gratidão a ele. Por isso, não brigue com o bichinho quando ele fizer isso, ele só estava agradecendo.
  • Os gatos são animais muito silenciosos e só fazem barulho se realmente precisam de algo ou querem anunciar alguma coisa. Eles se comunicam, entre eles e com outros animais, através de seus miados ou ronronando (o que a gente chama de "motorzinho") e também por expressão corporal, com as orelhas ou cauda. DICA: um gato balançando a cauda é o extremo oposto de um cão balançando a cauda. Cães o fazem por alegria, gatos o fazem quando estão nervosos. 
  • Gatos adoram brincar, mesmo quando adultos. Se distraem facilmente com cordões e penduricalhos, e coisas que brilham ou piscam. Às vezes eles se concentram na televisão ou no computador e podem ficar "assistindo" o que estiver passando por um tempão. Também brincam muito uns com os outros e, se forem criados com cães, brincam normalmente com eles também.
  • É, eles têm mesmo a mania de arranhar os móveis. Mas não é pra afiar as unhas, como muitos pensam; eles já têm as unhas superafiadas. O hábito de arranhar é pra exercitar a musculatura das unhas retráteis, e isso pode ser resolvido arranjando outra coisa que ele possa usar pra tal, como árvores ou troncos. (Aqui em casa eles usam o cacto. Sério.)
  • Aconteça o que acontecer, jamais encoste na barriga de um gato, a não ser que ele a ofereça. Gatos, por alguma razão, odeiam que encostem na barriga deles. Tenho cicatrizes nas mãos que comprovam. Em compensação, cocem muito embaixo do queixo. Dormem na hora.

Um momento de coragem.

  • Gatos não são um risco à saúde dos humanos, a não ser que você seja alérgico, já que em determinadas épocas eles soltam muitos pelos (a troca de pelos é comum em todos os mamíferos). Também podem transmitir raiva (assim como os cães), mas há vacinação grátis pra isso todos os anos. Na verdade, gatos têm mais facilidade em contrair certas doenças, por isso é sempre bom mantê-los vacinados e, se possível, castrados. É mundialmente recomendado que se castrem os gatos (machos e fêmeas), pois assim evita-se o desenvolvimento de câncer de próstata e mama, que são muito comuns nesses animais. É fato comprovado que gatos castrados vivem até 10 anos mais.

.

Tenho certeza que vou abrir a caixa de comentários e ver pelo menos um "Mesmo assim, não gosto de gato, rs", mas é como eu disse: gosto é gosto, e ninguém é obrigado a gostar do bichinho se não quiser. Só apreciaria imensamente se parassem de maldade, que parece ser sempre direcionada aos pobres gatos. Não há motivo nenhum pra quererem tanto a morte de um bicho tão inofensivo e carinhoso, então deixem de ser ridículos.

Postagens mais visitadas deste blog

Adeus, 2017. Adeus, HCtZ.

Eu não sei se tenho como definir o que foi 2017 pra mim. A primeira impressão é de que foi tudo horrível, mas aconteceu tanta coisa legal, também, que tenho que ficar me lembrando de não ignorá-las. Fiquei bastante doente (o fato de ninguém validar a doença não a anula - até a piora, na verdade) e me deixei abater por muito tempo, até cansar e querer me cuidar. A retrospectiva do ano passado fala sobre o que desencadeou a coisa toda. Não bastasse isso por si só já ter sido bastante difícil de lidar, afastei vários amigos próximos durante o processo. Reconheço que é chato aguentar gente deprimida; toda a reclamação, negatividade, isolamento... A gente acaba levando isso pra um lado pessoal. Entretanto, ver amigos queridos se afastando de mim foi muito doloroso e intensificou o problema. Eu já estava lidando com uma rejeição imbecil que destruiu a minha autoestima, e aí alguns acharam que era melhor desistir de mim. Uau. Eu sei que ninguém que parou de me seguir ou falar comigo va...

Manu explica sobre assexualidade, de novo, devagarinho pra todo mundo entender (COM SARCASMO!) (METÁFORAS!) (E CIÊNCIA!)

Eu entendo que seja confuso. Acreditem, é mais confuso ainda pra quem é e precisa entender como e por que é assim. No processo de autoeducação, a gente tenta educar também os outros porque ouve muita, muita besteira e essas besteiras acabam ofendendo e atrapalhando um processo complicado de autoaceitação. Então, pra evitar que as pessoas das demais orientações continuem mal-interpretando os milhões de assexuais do mundo, venho aqui novamente explicar qual é a nossa. 👉 RECAPITULANDO: Assexualidade é a orientação sexual em que o indivíduo não sente atração sexual por outros , de qualquer gênero.  É ausência de atração , não de libido.  Não é o mesmo que celibato , que é uma escolha de abstinência de atividade sexual. A demissexualidade (quando a atração sexual ocorre somente quando há forte vínculo emocional), muito comentada atualmente, é um espectro da assexualidade. Nem todo assexual tem repulsa e se priva de atividade sexual, embora muitos sim. As...

Desafio de Leitura 2017: Último relatório

Foi um ano em que, infelizmente, li poucas HQs. Não ter mais uma boa banca de revistas na cidade me tirou esse prazer. Obrigada, Rio Verde. 🖕 ▼▼▼▼▼ Ficção: Os Portões John Connolly - Bertrand Brasil - 2013 (2009) - 304p. Outro livro divertido de um autor que descobri recentemente e que já é um favorito pessoal. John Connolly era um prolífico escritor policial na Irlanda, até que surpreendeu a todos quando lançou O Livro das Coisas Perdidas , fantasia voltada ao público jovem. Depois disso, não voltou mais para o estilo que o consagrou: escreveu Noturnos , coletânea de contos de terror, e Os Portões , uma divertida história que mistura ciência, o sobrenatural e bastante humor negro. Samuel é um garoto um pouco mal compreendido e considerado esquisito pelos professores, adultos da vizinhança e até pela mãe, recentemente abandonada pelo marido. E, é claro, é justamente ele quem testemunha um evento inacreditável: seus entediados vizinhos abriram, em um culto satânico c...