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Erisíchton, o primeiro saco-sem-fundo

Fazia tempo que eu queria falar sobre o Erisíchton, mas tive um probleminha tentando me lembrar do nome dele, hahah. Anyway, lembrei e aqui vai a história — uma singela história sobre a vingança dos deuses.



Como percebemos ao ler histórias da mitologia grega, não era lá muito fácil viver naquela época e lugar. Os deuses eram muitos, e eram impiedosos, egoístas e vingativos. Havia porém, um pobre mortal que não ligava um dedinho para os deuses, e seu nome era Erisíchton. Ele era um cara grosseiro e desagradável; além de não fazer sua parte para "agradar" aos deuses, não respeitava quem assim o fizesse. Um dia, Erisíchton decidiu que iria profanar um bosque destinado à deusa Ceres (ou Deméter, a deusa da Agricultura), cortando um enorme e imponente carvalho que nele ficava, e ao redor do qual as ninfas do bosque dançavam e deixavam oferendas à deusa. Mandou então que seus homens fizessem o serviço. Os homens, como era de se esperar, hesitaram, pois não queriam ofender à deusa (e qualquer um com um mínimo de bom senso hesitaria em ofender a qualquer deus que fosse, naquela época). Erisíchton, então, pegou o machado da mão de um deles e acabou ele mesmo derrubando o carvalho. E mais: ele ainda disse que, mesmo que aquela árvore fosse a própria deusa, ele não hesitaria em cortá-la. (Existem os detalhes mórbidos da história: dizem que ao desferir o machado no carvalho, este sangrou; e que um dos homens tentou impedir que Erisíchton continuasse, então este matou o homem, o decapitando).

Depois de tal ato de violência, as ninfas do bosque (também chamadas de dríades), ficaram muito tristes e dirigiram-se à deusa Ceres, todas em luto, pedindo para que Erisíchton fosse castigado. A deusa imaginou então o castigo mais cruel que pode, e decidiu que o entregaria à Fome. Porém, Ceres não poderia se encontrar pessoalmente com a Fome, visto que ambas foram ordenadas de nunca se aproximarem (faz sentido que a deusa da agricultura não se aproxime da Fome, questão de bom senso), então enviou uma ninfa das montanhas para dar o recado à Fome.

Diz a lenda que a Fome era uma coisa feia de ver (a gente até imagina, pálida e de pele distendida sobre os ossos, olhos fundos e lábios descorados). Dado o recado, a Fome foi fazer seu trabalho. Dirigiu-se aonde Erisíchton morava, e o abraçou em seu sono, entrando por sua respiração e envenenando seu sangue. Depois disso, foi embora. Erisíchton, obviamente, acordou sentindo muita fome; mas, por mais que comesse, a fome nunca passava. Quanto mais comia, mais fome tinha. Como era de se esperar, logo Erisíchton não tinha mais o que comer, e nem o que pudesse usar para comprar ou trocar por comida. Tudo o que lhe restou foi a sua filha, que ele acabou afinal vendendo.

Sua filha, entretanto, não ficou lá muito feliz de ter sido vendida como escrava, então fugiu para a praia e foi fazer uma prece desesperada a Netuno (Posêidon, deus dos mares). Seu comprador estava se aproximando da praia, procurando por ela, e no mesmo instante ela se transformou em um pescador, iludindo o seu comprador. Netuno atendeu à sua prece, e depois que o homem se afastou, a moça voltou à sua forma original e retornou para a casa de seu pai, lhe levando o dinheiro resultante da sua venda. Erisíchton ficou muito feliz em revê-la, mas logo este dinheiro acabou também e a moça foi novamente vendida. E ficou nisso de ser vendida, fugir, ser transformada por Netuno, e retornar para casa com dinheiro... 

Mas o plano não durou para sempre. O dinheiro não era o suficiente para saciar a fome de Erisíchton, então o pobre homem não viu outra solução a não ser começar a comer pedaços de si mesmo. Começou devorando seus membros, até que se destruiu completamente. E então a morte o livrou da vingança de Ceres.

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Fonte: O Livro de Ouro da Mitologia, de Thomas Bulfinch (Ediouro, 2002)

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Escrevi esse post com fome, não me julguem.

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